As “Trad Wifes” do imaginário online: As reconfigurações do Feminismo Hoje
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- há 30 minutos
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Aline Batista dos Santos
Um dos fenômenos que ganhou força nas mídias sociais foi a supervalorização de modos de vida, com noção de perfeição no que é considerado diário e corriqueiro. Também neles viram-se as denominadas “Trad Wifes” (Tradicional, do inglês) com a figura personificada no Brasil de “Esposa Troféu”, a mesma que é impecável do perfil às próprias ações, a fim de que seja bancada para que permaneça na própria residência com idealizações dessas vivências resumidas no cuidado pessoal e dos seus maridos provedores dos seus lares…
Com vídeos produzidos sob cuidado e esmero, as famigeradas indicam perfeição que é o belo mix do ideário do passado (década de 70, 80), com clássica “predisposição” do que é considerado feminilidade, usufruindo das condições financeiras designadas pelo marido… Há quem diga que vê-se “versões” ou hierarquias dessas experiências, com aquelas que usufruem no ápice e as que exercem funções na casa, assumindo a base da pirâmide (...) Pensa-se: A regressão do feminismo ou reconfiguração das escolhas no universo online?
Um dia que beira à (in)segurança alucinadora desse ideal, com organização sob enfoque na casa, no cuidado com seu parceiro e mesmo no ápice desse ofício: sendo mãe. Com o uso de roupas delicadas, cozinhas e mobiliários impecáveis, iluminação suave e delicada com musicalidade que acolhe e abraça, quase que como a expressão de um bolo recém assado saindo do forno para que seja servido com esmero. Essa narração visual é pleno exibicionismo da ordem, beleza e seguridade. O esforço para ressignificação do comum…
Tópicos que dialogam com o cenário hodierno que é marcado pela ansiedade de conexão ao considerado “comunicável”, excesso de imersões e variações socioeconômicas. Para inúmeros a vivência do simples com organização demandada e previsibilidade visível é o considerado viável no meio das imprevisibilidades. Logo, não só para o encaixe na onda do social, mas para fuga das realidades financeiras e do esforço excessivo para sucesso, o diário faz-se como escape ressignificado, não sendo obrigação, mas seu grande refúgio.
Inclusive, a figura da “Esposa Troféu” brasileira, na maioria das vezes associada como as mulheres dos jogadores profissionais, designando beleza, dependência financeira e viés de luxuosidades, da mesma forma ganha uma nova versão, roupagem diferenciada pelas mídias sociais. A ironia é que as influenciadoras que defendem essa configuração de não provisão do financeiro, são as que recebem online pela publicidade realizada, mas claro, a visão de escolha com consciência: A carreira formal deixada pela segurança dos lares…
Com essa percepção, surgem discussões veiculadas nesses perfis pelas redes sociais: se o feminismo é a busca pela liberdade de escolha, porque esse novo modelo selecionado seria dado como invalidável? Porém, não é um diálogo simplório ou de fácil absorção. Há mulheres que dizem que essas narrações normalizam e colocam romance nas relações desiguais (Em poderes financeiros), reforçando padrões que “aprisionam” decisões, isso na medida em que se compara com o que se compreende como independência universal.
A “regressão” ao passado e a eliminação dos avanços do feminismo são noções comuns nesses diálogos, exigindo mais simplificação. No geral, a mobilização hoje dos alcances femininos não é advinda de um único meio/bloco de defesas, abrigando variabilidades sob divergências (na maioria das vezes). Algumas das novas ideias defendem independência pelo financeiro, algumas a liberdade individual para seleção do modo de vivência que sim agrade às mulheres, validando permanência delas nas residências. Não há concordância.
E nessas ponderações, esse mesmo fenômeno não é percebido como um regresso com linearidade ao pré feminismo, mas como um sinal das divergências inúmeras ao que se é considerado como liberdade. Há uma dualidade visível porque a simples escolha de uma vida em casa (com ofícios diários comuns) é vislumbrada como expressão de “livre” ideal e da mesma forma indica cessão aos reflexos das pressões sociais ainda em vigência nas sociedades hodiernas. Em grande confusão de significados, configurações universais (...)
Uma segunda discussão vem do papel das mídias sociais na amplificação desse discurso que concede romance ao simples, já que as redes ampliam versões dissimuladas de uma realidade, na qual divergências nas relações, dificuldades e complexidades são negadas ou escondidas. Essas experiências e vidas maravilhosas exibidas e/ou criadas pelas que influenciam seguidoras da ideia, originam esperanças irreais e confeccionam “ciclos” com comparações do que seria inalcançável: o famigerado comercial de margarina brasileiro…
Além de que gere o comodismo feminino (Espiral), já que se a felicidade beira o simples - com prejudiciais mudanças financeiras na crença da provisão masculina - ou consumo de um padrão específico de realidade inalcançável - que prejudica relações pela comparação dessas provisões alheias. E desvia o enfoque de diálogos como: desigualdade de gênero, divisão de funções nas residências (mais com sociedade, não como papéis designados quando indivíduos nascem), possibilidades e/ou acessos - que não validam sua escassez.
A ideia não é a dualidade do cenário com juízos pesados, mas a compreensão de quais os cenários que propiciam e fazem com que essas escolhas sejam desejáveis e quais são as devidas maneiras para exibi-las (se cabível exibição). Se valida sim as diferenciações de modos de vivência hoje, mas sem que se ignore condicionalidades socioeconômicas que moldam e modificam esses poderes de seleção ou preferências condicionadas… Em desafio cabe equilíbrio da liberdade x análise (consciência), diferenciando o influenciável.
FONTES CONSULTADAS I REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUTLER, JUDITH. PROBLEMAS DE GÊNERO: FEMINISMO E SUBVERSÃO
DA IDENTIDADE. RIO DE JANEIRO: CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2019.
BAUMAN, ZYGMUNT. MODERNIDADE LÍQUIDA. RIO DE JANEIRO: ZAHAR, 2001.
HAN, BYUNG-CHUL. A SOCIEDADE DO CANSAÇO. PETRÓPOLIS: VOZES, 2015.
WOLF, NAOMI. O MITO DA BELEZA. RIO DE JANEIRO: ROCCO, 1992.

Sou Analista Internacional - Internacionalista de formação, com um bacharelado concluído no curso de Relações Internacionais (2020), dispondo de Formações Pedagógicas - licenças para que lecione, em Geografia (2023), História (2023) e Ciências Sociais (2025). Com Especializações, Pós-graduações, em “Ciência Política” (2022), “Filosofia e Teoria Social” (2024), “Ensino da Sociologia” (2025) e “Tecnologias Aplicadas à Educação” (2025) além do Master Of Business Administration (o MBA) em “Gestão de Projetos Educacionais” (2022) e em “Comércio Exterior e Marketing Internacional” (2026).





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