Da Revolução ao Vazio: A Morte de Saif al-Islam Khadafi e o Encerramento de uma Era na Líbia
- CERES
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Introdução
A morte de Saif al-Islam Khadafi reacendeu o debate sobre o futuro político da Líbia e o eventual fim da dinastia Khadafi. Durante anos, ele foi considerado o sucessor natural do pai e o rosto reformista do regime, desempenhando papel relevante na aproximação da Líbia ao Ocidente (Vandewalle, 2012:12). Após a revolta de 2011, o país mergulhou numa profunda crise institucional, com governos rivais, milícias armadas e fragmentação territorial (Wehrey, 2018:20).
A instabilidade política que se seguiu à queda do regime transformou a Líbia num dos exemplos mais citados de Estado fragmentado no período pós‑Primavera Árabe. A ausência de instituições fortes e de um processo de transição estruturado contribuiu para a proliferação de actores armados e para o enfraquecimento da autoridade central (Rotberg, 2004:34).
Este artigo analisa o significado político da morte de Saif al‑Islam a partir dos três níveis clássicos de análise das Relações Internacionais: o doméstico, o regional e o sistémico (Waltz, 1959:55). A questão central é saber se a sua morte representa o fim da dinastia Khadafi ou apenas o encerramento de um ciclo político.
Nível doméstico
No plano interno, a morte de Saif al‑Islam deve ser interpretada à luz da fragmentação institucional da Líbia desde 2011. O país deixou de possuir uma autoridade central consolidada, sendo dominado por milícias e governos rivais (Wehrey, 2018:20).
Durante o regime do pai, Saif al‑Islam era visto como o rosto reformista e modernizador, tendo promovido iniciativas de abertura económica e diplomática (Vandewalle, 2012:12). Essa imagem contribuiu para a construção de uma legitimidade política própria, baseada na expectativa de reformas graduais.
Mesmo após a revolução, continuou a mobilizar sectores sociais e tribais que viam o período anterior a 2011 como mais estável (Lacher, 2020:20). Esse fenómeno demonstra a persistência de memórias políticas e identidades associadas ao antigo regime.
Segundo a literatura sobre regimes personalistas, a legitimidade política nesses sistemas depende fortemente da figura do líder ou da sua linhagem (Geddes at al , 2018). Assim, a sua morte representa o enfraquecimento de um símbolo capaz de unir sectores pró‑Khadafi.
Nível regional
No plano regional, a crise líbia transformou‑se num campo de competição geopolítica entre potências como Egipto, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Rússia (Wehrey, 2018:23). Esses actores apoiaram diferentes facções, contribuindo para a prolongação do conflito.
A presença de Saif al‑Islam representava um factor de incerteza, pois o seu eventual regresso poderia alterar alianças regionais e reconfigurar equilíbrios de poder (Lacher, 2020:34).
A instabilidade líbia teve efeitos directos no Sahel, alimentando redes de tráfico de armas, migração irregular e grupos armados (International Crisis Group, 2016). Nesse contexto, qualquer figura capaz de mobilizar apoio nacional poderia ter impacto regional.
Nível sistémico
No nível sistémico, a morte de Saif al‑Islam deve ser compreendida como parte do processo iniciado com a intervenção internacional de 2011, que levou ao colapso do regime (Kuperman, 2013:54).
A queda de regimes autoritários sem transições estruturadas tende a gerar Estados frágeis ou falhados, incapazes de garantir segurança e serviços básicos à população (Rotberg, 2004:46). O caso líbio tornou‑se um exemplo paradigmático desse fenómeno.
Saif al‑Islam representava a continuidade simbólica de um regime que garantia certo grau de estabilidade estatal (Vandewalle, 2012:67). A sua morte encerra simbolicamente a possibilidade de retorno a esse modelo político.
Conclusão
A morte de Saif al‑Islam Khadafi representa um marco simbólico na política líbia. No nível doméstico, enfraquece o símbolo que mobilizava sectores nostálgicos do antigo regime. No nível regional, elimina uma alternativa que poderia alterar o equilíbrio entre facções. No nível sistémico, representa o encerramento de um ciclo iniciado com a intervenção de 2011.
Todavia, a influência política da família Khadafi não desaparece automaticamente. Redes tribais e memórias colectivas podem manter viva a ideia de um retorno ao passado. O que se encerra é a possibilidade concreta de uma restauração liderada por um herdeiro directo.

Jaime Antonio Saia
Licenciado em Relações internacionais e Diplomacia pela Universidade Joaquim Chissano (Maputo, Moçambique) Mestrando em Resolução de Conflictos e Mediação. Analista de política internacional na TVM ( Televisão de Moçambique), Soico TV (STV), na Média Mais TV, além de colunista da Revista Zambeze. Pesquisador do CERES (Centro de Estudos das Relações Internacionais) e palestrante em áreas sociais e políticas em Moçambique.
Autor do livro As Relações Internacionais desde Moçambique.
Referências
Geddes, B., Wright, J., & Frantz, E. (2018). How Dictatorships Work.
International Crisis Group. (2016). The Libyan Political Agreement.
Kuperman, A. (2013). A Model Humanitarian Intervention?
Lacher, W. (2020). Libya’s Fragmentation.
Rotberg, R. (2004). When States Fail.
Vandewalle, D. (2012). A History of Modern Libya.
Waltz, K. (1959). Man, the State and War.
Wehrey, F. (2018). The Burning Shores.

