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EUA e Venezuela: Mais um exemplo de disputa geopolítica por recursos, soberania e influência internacional

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    CERES
  • 7 de jan.
  • 5 min de leitura

Luis Augusto Medeiros Rutledge


A relação centenária entre a Venezuela e seus principais parceiros externos tem sido marcada por ciclos recorrentes de cooperação e confronto, refletindo mudanças estruturais no sistema energético internacional. Ao longo desse período, o país evoluiu de colônia petrolífera no início do século XX para ator central na reorganização do poder de produção em meados do século, culminando, no início do século XXI, como símbolo do nacionalismo de recursos.


Essa trajetória sustenta um padrão de elevada volatilidade geopolítica, uso estratégico do setor energético como instrumento de política externa e recorrente tensão nas relações internacionais.


A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris, equivalente a 17 a 20% das reservas mundiais, além de reservas de gás natural que ultrapassam 200 trilhões de pés cúbicos e recursos minerais estratégicos. Acrescenta-se a isso que o país possui sua localização na bacia do Caribe, próxima à costa dos EUA e a rotas marítimas vitais, conferindo uma destacada importância geopolítica.


O atual governo norte-americano sempre escancarou sua impressão ao enxergar a Venezuela como um ator de alinhamento oportunista e de grande risco geopolítico. Nesse contexto de rivalidade sistêmica, a Venezuela opera como um ator que ajusta sua política externa e energética em função das tensões entre os Estados Unidos e seus adversários estratégicos — Rússia, China, Irã e Coreia do Norte.


Caracas sempre explorou as fissuras geopolíticas para mitigar o isolamento imposto por sanções, obter financiamento, tecnologia e canais alternativos de escoamento de petróleo, ao custo de aprofundar sua dependência de parceiros politicamente alinhados, porém economicamente assimétricos. Esse padrão elevou o risco de volatilidade diplomática, reforçou a instrumentalização do setor energético como ferramenta geopolítica e aumentou ainda mais a exposição a choques, sanções e alinhamento estratégico com China, Rússia e Irã.


Hoje, na segunda década do século XXI, o que está acontecendo na Venezuela é uma revisitada no passado e uma previsão de futuro. O trabalho foi iniciado no Iraque, retomado na Venezuela e o Irã permanece como o modelo inacabado.


Não estamos em meio à uma guerra contra drogas e sim numa fácil disputa onde o prêmio inicial é o controle do petróleo e depois o retorno da influência geopolítica norte-americana na América latina. O bloqueio militar é a ferramenta, o petróleo é o objetivo, e a remodelação geopolítica é o resultado final. Uma breve lembrança dos tempos de Henry Kissinger.


A escalada dos EUA sobre Nicolás Maduro nunca foi uma disputa contra um governo venezuelano específico, mas sobre um país próximo geograficamente que almeja transitar fora da esfera de influência do governo Trump. A presença geopolítica é vital para Washington. A interpretação dos EUA sobre continente americano é também econômica: sem o petróleo, os minerais críticos e até mesmo a força de trabalho da América Latina, ela simplesmente não consegue se sustentar. Precisa de bases territoriais e acesso para extrair os recursos da região para sua própria economia ande.


A geopolítica global está agora aquecendo em uma crise econômica, política e militar no Hemisfério Ocidental. Relembrando a primeira administração Trump, os Estados Unidos e dez países do hemisfério pediram que o presidente Nicolás Maduro renunciasse ao cargo de presidente da Venezuela. Além disso, Trump em seu primeiro mandato reverteu as aberturas de Obama para Cuba e aumentou o bloqueio a Cuba. Hoje, o serviço foi reiniciado.


Voltando à Venezuela, de fato as relações entre Washington e Caracas se deterioraram gradualmente e, nos últimos 20 anos, as importações de petróleo venezuelano para os EUA caíram menos da metade, mesmo continuando sendo uma fonte indispensável de moeda forte para um país à beira da falência.


No contexto histórico da geopolítica energética, a Venezuela desempenhou um papel fundamental na Organização dos países Exportadores de Petróleo (OPEP). Entretanto, desde o início do século XX, cenário energético global possui complexidades de negociações, conflitos e interesses entre Estados e petrolíferas internacionais.


A relação frequentemente tensa entre a Venezuela e as petroleiras internacionais é fundamental para entender a evolução da indústria do petróleo nas Américas, que por muito tempo forneceu a fonte básica de energia para grande parte da região. A Venezuela tem inúmeras reivindicações de liderança na indústria petrolífera sul-americana. O tamanho de suas reservas moldou a produção e exportação total de petróleo no continente como um todo durante grande parte do século XX.


Até a década de 1970, o escoamento do petróleo venezuelano para o mercado norte-americano dependia fortemente de navios-tanque operados pelas principais companhias petrolíferas ativas nos Estados Unidos, bem como do acesso às refinarias tecnologicamente avançadas da Costa do Golfo Texas–Louisiana, essenciais para o processamento do petróleo bruto venezuelano em produtos refinados.


Essa integração conferiu ao petróleo da Venezuela um papel estratégico singular nas operações das companhias internacionais de petróleo (IOCs) sediadas nos Estados Unidos e no Reino Unido, estendendo sua relevância aos cálculos de política externa de seus respectivos governos.


Ao longo de meados do século XX, na tentativa de preservar o acesso às reservas convencionais venezuelanas, as IOCs adotaram uma estratégia de espera tecnológica, antecipando avanços capazes de viabilizar comercialmente tanto as extensas reservas de petróleo pesado da Bacia do Orinoco quanto os significativos volumes de gás natural do país. Essa trajetória consolidou uma relação de interdependência estrutural que, posteriormente, amplificaria os custos geopolíticos da ruptura entre Caracas e Washington.


As raízes da tensão entre Washington e Caracas remontam ao final dos anos 1990, com a ascensão do então presidente Hugo Chávez, que abraçou um ambicioso projeto socialista baseado na independência econômica e soberania nacional, diante do que via como hegemonia americana sobre a riqueza do continente.


A cada passo rumo à nacionalização do petróleo e à redistribuição de riqueza, as relações com os Estados Unidos se tornaram tensas, com Washington vendo as políticas de Chávez como uma ruptura com a ordem econômica liberal que havia implantado no Hemisfério Ocidental desde os tempos da Guerra Fria.


A partir de então, as relações entre os Estados Unidos e a Venezuela foram severamente tensas, atingindo níveis sem precedentes de pressão americana sobre o governo venezuelano. E, em nenhum momento, Washington escondeu seus esforços de mudança de regime em Caracas ao impor duras sanções econômicas ao regime do presidente Nicolás Maduro.


Naturalmente, nos últimos anos, o petróleo venezuelano foi redirecionado de forma crescente para mercados asiáticos, sobretudo China, por meio de cadeias logísticas obscuras e, uso de frotas paralelas, também conhecidas como shadow fleet e descontos estruturais de preço. Acirrando ainda mais os riscos geopolíticos.


O que Washington quer da Venezuela? Controlar as maiores reservas de petróleo do mundo? Enfrentar a influência russa e chinesa? Combater o narcotráfico?


Com todo esse pano de fundo, Washington quer recuperar sua influência regional, controlar as reservas energéticas, conter a forte migração e garantir a segurança nacional. Iniciamos as análises do cenário geopolítico para 2026.


 

·          Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.

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