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O preço invisível das guerras que fingimos não ver… e o que realmente vão nos custar…

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    CERES
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Há algo profundamente perturbador no silêncio seletivo da comunidade internacional. Enquanto os Estados Unidos mobilizam mais de 30 mil soldados para a região do Golfo Pérsico, sustentando o discurso de que não há intenção de uma ofensiva terrestre, o mundo aceita essa narrativa com uma complacência quase infantil. Porque qualquer analista minimamente atento sabe: deslocar tropas, equipamentos, logística e cadeias de abastecimento para uma região como o Golfo não é um gesto simbólico, é uma preparação concreta, custosa e estrategicamente calculada. O custo é alto demais para simplesmente acreditar que nada será feito ou que tudo ficará restrito a Ormuz...


E, ainda assim, fingimos acreditar.


Ao mesmo tempo, Gaza e a Cisjordânia continuam sendo territórios marcados pela ocupação e pela violência cotidiana. Mesmo após a aprovação de planos de paz que, em teoria, deveriam inaugurar um novo ciclo político, os bombardeios persistem. Não em segredo, mas suficientemente distantes do foco mediático global para não incomodar demasiado. Porque agora só temos olhos para os mísseis em Tel Aviv. A dor, quando distante, torna-se tolerável. Ou melhor: ignorável.


O mais inquietante não é apenas a continuidade da violência, mas a hierarquia implícita que parece reger o valor das vidas humanas. Algumas mortes mobilizam o mundo. Outras são absorvidas como estatísticas. Dependendo da etnia, da religião ou da geografia, o luto é amplificado ou silenciado. E assim, sob uma narrativa cuidadosamente construída, vamos permitindo o avanço de um conflito cujas consequências já ultrapassaram fronteiras.


Na Europa, os líderes políticos reiteram um discurso de neutralidade, como se a guerra fosse um fenómeno distante. Mas essa neutralidade é, no mínimo, ilusória. O conflito no Médio Oriente contém o potencial de gerar a maior vaga migratória do planeta, ou talvez já a esteja a gerar. E não por acaso, o Conselho Europeu tem avançado na direção oposta à solidariedade: mais restrições, mais muros, mais mecanismos de contenção. Um “ICE europeu”, adaptado à retórica da segurança, mas enraizado no medo.


O Líbano, por sua vez, transforma-se noutro tabuleiro de tensões, onde ações justificadas como legítima defesa por parte de Israel alimentam ciclos constantes de instabilidade. A retórica da segurança, com frequência, encobre lógicas de expansão e dominação. E o resultado é sempre o mesmo: populações inteiras presas a decisões que nunca tomaram.


Mas talvez o elemento mais perigoso deste cenário não esteja apenas no campo de batalha, mas na esfera política global. A geopolítica contemporânea parece, em muitos momentos, orbitar em torno das declarações e impulsos de figuras como Donald Trump, cuja relação com a previsibilidade institucional sempre foi, no mínimo, frágil. Quando decisões com impacto global são tomadas sem coordenação, sem consulta, ou mesmo em contradição com especialistas, como, por exemplo, o seu antigo chefe de contraterrorismo, o sistema internacional deixa de operar com base em regras e passa a reagir a impulsos.

E isso deveria assustar muito mais do que assusta.


Porque o problema nunca foi apenas a existência de líderes imprevisíveis. O verdadeiro risco reside na ressonância das suas ideias. O avanço da extrema-direita em diversas partes do mundo não é um fenómeno isolado; é um sintoma. Um sintoma de sociedades que começaram a normalizar o conflito como linguagem política, o ódio como ferramenta de mobilização e a simplificação como estratégia de poder.


Assistimos, quase sem resistência, à transformação das democracias em arenas de confrontação permanente. Já não há debates políticos, há duelos, onde já não se vê um opositor de ideias, mas um inimigo a abater. Já não há construção coletiva, há imposição narrativa. Líderes de diferentes países prestam deferência a potências como se fossem vassalos de uma ordem hierárquica informal, onde a soberania se confunde com o alinhamento automático.


E, no meio de tudo isto, a incoerência atinge níveis quase surrealistas. Figuras políticas que se apresentam como nacionalistas oferecem os seus países e recursos numa bandeja, enquanto os seus seguidores aplaudem em nome de uma soberania que, na prática, está a ser diluída.


Perdemos o norte… E talvez essa seja a maior tragédia…


Porque enquanto discutimos o preço dos combustíveis ou a inflação dos alimentos, preocupações legítimas, sem dúvida; ignoramos o verdadeiro custo deste cenário. Um custo que não se mede apenas em dólares, euros ou barris de petróleo. Mede-se na erosão da convivência internacional, na fragilidade das instituições e na degradação progressiva da própria democracia.


O que está em jogo não é apenas um conflito regional.


É o tipo de mundo que estamos dispostos a aceitar.


E, até agora, temos aceitado demais.


Referências:


BAUMAN, Zygmunt. Globalization: The Human Consequences. New York: Columbia University Press, 1998.

MBEMBE, Achille. Necropolitics. Durham: Duke University Press, 2019.

HARVEY, David. The New Imperialism. Oxford: Oxford University Press, 2003.

KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. 3. ed. Stanford: Stanford University Press, 2012.

BECK, Ulrich. World at Risk. Cambridge: Polity Press, 2009.


Wesley S.T Guerra
Wesley S.T Guerra

Wesley Sá Teles Guerra é especialista em cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação em instituições de referência internacional. É fundador do Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES), no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África, na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madrid.

Ao longo da sua trajetória, realizou estudos em instituições como o CPE de Barcelona (Negociações Internacionais), a FESPSP (Relações Internacionais e Ciência Política), a Universidade da Corunha – UDC (Mestrado em Políticas Sociais e Migrações), o MIB de Massachusetts (MBA em Marketing Internacional), a Universidade de Andorra (Mestrado em Smart Cities) e é doutorando em Sociologia pela UNED (Espanha).

É autor dos livros Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente em fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, e foi comentarista convidado da emissora CBN Recife. Também foi finalista do Prémio ABANCA de investigação académica. Além disso, integra redes e plataformas como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, com ativa participação no âmbito internacional.

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