O Apagamento Drástico da Palestina: entre Mapas, Silêncio e a Política da Invisibilidade
- CERES

- há 16 horas
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Júlia Saraiva
A história da Palestina, sobretudo na Faixa de Gaza, está sendo reescrita não apenas por bombas, mas por narrativas. O que se observa hoje não é apenas uma guerra — é um processo multifacetado de apagamento territorial, simbólico e político. E talvez o mais alarmante seja que esse apagamento ocorre simultaneamente em dois níveis: no terreno e na percepção global.
A cartografia do desaparecimento
Há um elemento analítico frequentemente negligenciado: os mapas. A geopolítica sempre foi, em essência, uma disputa por representação espacial e, no caso palestino, isso se torna brutalmente evidente.
Ao longo das últimas décadas, os mapas da Palestina têm sido progressivamente redesenhados por meio de ocupações, assentamentos e zonas militares. Mais recentemente, a intensificação das operações em Gaza e a ampliação de áreas de controle e restrição reforçam um padrão de reconfiguração territorial que vai além da lógica imediata de segurança. Trata-se de um processo que reduz não apenas o espaço físico disponível, mas a própria viabilidade de existência de um território palestino funcional.
A análise de imagens de satélite e relatórios de organizações internacionais aponta para a destruição sistemática de infraestrutura civil — incluindo habitações, hospitais e áreas agrícolas. Esse padrão sugere não apenas uma estratégia militar, mas uma transformação estrutural do território: espaços tornam-se progressivamente inabitáveis.
Nesse sentido, o mapa deixa de ser uma representação neutra e passa a operar como instrumento político. Aquilo que não pode ser habitado, eventualmente deixa de existir — ao menos enquanto entidade política viável.
Genocídio ou disputa narrativa?
O termo “genocídio” tornou-se um campo de disputa discursiva. No entanto, há um crescente acúmulo de análises institucionais e acadêmicas que sustentam essa classificação.
Relatórios de organismos internacionais e organizações de direitos humanos apontam para práticas que se aproximam dos critérios definidos pela Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio (1948), incluindo assassinatos em larga escala, imposição de condições de vida insustentáveis e destruição de estruturas sociais essenciais.
Ao mesmo tempo, há resistência significativa à adoção formal desse enquadramento, especialmente por parte de atores estatais. Essa divergência revela menos uma ausência de evidências e mais uma disputa política sobre as implicações jurídicas e estratégicas do termo.
O reconhecimento de um genocídio não é apenas simbólico — ele implica responsabilidades internacionais concretas. E é justamente isso que está em jogo no debate.
A cortina de fumaça e a disputa por atenção internacional
Se a destruição material em Gaza é visível, o apagamento narrativo opera de forma mais difusa — e talvez mais eficaz. Nesse ponto, a chamada “cortina de fumaça” não deve ser entendida necessariamente como uma estratégia formalmente coordenada, mas como um efeito recorrente da geopolítica contemporânea: a competição entre crises por visibilidade.
Os recentes episódios de escalada militar envolvendo Israel e o Irã, com participação direta ou indireta dos Estados Unidos, ilustram esse fenômeno. A centralidade desse novo eixo de tensão no noticiário internacional desloca o foco da cobertura midiática, reconfigurando prioridades editoriais e, consequentemente, a percepção pública global.
Esse deslocamento não é trivial. Conflitos interestatais — especialmente aqueles que envolvem potências regionais e globais — tendem a receber maior atenção da mídia ocidental do que crises humanitárias prolongadas. O resultado é um efeito de “substituição narrativa”: enquanto o risco de uma guerra regional mais ampla domina manchetes, a situação em Gaza passa a ocupar um espaço secundário, fragmentado e episódico.
Para Israel, esse rearranjo da atenção internacional pode ter efeitos estratégicos indiretos. A redução da pressão midiática e diplomática cria um ambiente mais permissivo para a continuidade de operações militares intensivas, sem o mesmo nível de monitoramento internacional observado em momentos anteriores do conflito.
Esse fenômeno se articula com problemas já identificados na cobertura jornalística, como a seletividade na humanização das vítimas e a dificuldade de sustentar agendas de longo prazo em contextos de múltiplas crises simultâneas. Em outras palavras, não se trata apenas de desinformação, mas de um sistema informacional que, estruturalmente, hierarquiza tragédias.
A “cortina de fumaça”, portanto, não é apenas produzida, ela é incentivada pelas próprias dinâmicas do sistema internacional e midiático.
A falha da agenda jornalística
A cobertura midiática ocidental desempenha um papel central nesse processo de apagamento. Estudos recentes indicam padrões recorrentes: a individualização das vítimas israelenses em contraste com a anonimização dos palestinos; a construção de uma falsa simetria entre partes com capacidades desiguais; e a constante problematização da credibilidade de fontes palestinas.
Esses enquadramentos não são neutros. Eles moldam a percepção pública e influenciam diretamente o grau de mobilização internacional. Além disso, a lógica da agenda-setting contribui para uma espécie de “fadiga de atenção”: conflitos prolongados tendem a perder espaço para novas crises, independentemente de sua gravidade contínua.
O resultado é uma cobertura fragmentada, episódica e incapaz de sustentar o foco necessário para compreender a dimensão estrutural do problema.
O envolvimento internacional e a cumplicidade difusa
Outro elemento central é o papel da comunidade internacional, especialmente das potências ocidentais.
O apoio político, diplomático e militar a Israel levanta questionamentos sobre responsabilidade indireta. Estados que são signatários da Convenção do Genocídio possuem a obrigação não apenas de não cometer tais atos, mas de preveni-los.
Nesse contexto, a continuidade do fornecimento de armamentos e suporte estratégico, mesmo diante de denúncias consistentes de violações massivas de direitos humanos, pode ser interpretada como uma forma de cumplicidade estrutural.
Ao mesmo tempo, o envolvimento de outros países do Oriente Médio amplia a complexidade do conflito, seja por meio de alianças estratégicas, seja pela instrumentalização política da causa palestina em disputas regionais mais amplas.
O conflito, portanto, deixa de ser apenas uma questão territorial e passa a integrar um tabuleiro geopolítico mais abrangente.
Conclusão: o desaparecimento como projeto político
O apagamento da Palestina não pode ser compreendido como um efeito colateral da guerra — ele se configura, cada vez mais, como um processo político estruturado, sustentado tanto pela materialidade da destruição quanto pela imaterialidade do silêncio.
No plano territorial, observa-se a erosão contínua das condições mínimas de existência: cidades devastadas, infraestruturas colapsadas e populações deslocadas. No plano narrativo, há uma disputa assimétrica pela legitimidade da dor, na qual algumas vidas são individualizadas e outras permanecem estatísticas. Já no plano internacional, a seletividade das reações evidencia um sistema que não apenas falha em prevenir crises humanitárias, mas que, em certos contextos, as tolera.
A combinação desses fatores produz algo ainda mais profundo do que a destruição física: a normalização do inaceitável. Quando a violência se torna rotineira e a indignação intermitente, abre-se espaço para que processos extremos avancem sem o devido monitoramento internacional — especialmente quando novas crises capturam a atenção global e reconfiguram prioridades políticas e midiáticas.
Nesse cenário, o risco não é apenas o desaparecimento de um território, mas o esvaziamento progressivo de sua relevância política e moral no sistema internacional.
Diante disso, a questão que permanece não é apenas sobre o que está acontecendo, mas sobre como — e por que — o mundo escolhe reagir.
Se a visibilidade internacional é seletiva e a indignação é condicionada, até que ponto o silêncio global deixa de ser omissão e passa a se tornar parte do próprio mecanismo que permite que esse apagamento continue?
Curiosidade: o que os mapas não mostram.
Existe um detalhe aparentemente banal, mas profundamente revelador: muitos mapas, globos e materiais didáticos que representam o Oriente Médio simplesmente não incluem a Palestina como Estado — ou sequer a identificam de forma clara.
Essa não é uma observação abstrata. Eu mesma tenho, em minha casa, um mapa e um globo nos quais a Palestina não aparece. E, desde que percebi isso, passei a observar conscientemente: sempre que encontro um novo mapa, procuro pela Palestina. Na maioria das vezes, ela não está lá — ou aparece diluída, fragmentada, quase invisível.
O que poderia parecer apenas uma escolha cartográfica revela, na verdade, algo mais profundo: a forma como o apagamento também se manifesta na produção e circulação de conhecimento. Esses mapas, amplamente comercializados no Ocidente, não são neutros. Eles reproduzem visões de mundo, legitimam determinadas leituras geopolíticas e silenciam outras.
Nesse sentido, o apagamento da Palestina não acontece apenas no campo de batalha ou na diplomacia internacional — ele está também nas paredes das casas, nas salas de aula e nos objetos cotidianos.
E talvez seja justamente aí que ele se torna mais perigoso: quando deixa de ser percebido como ausência e passa a ser naturalizado como representação.
Bibliografia
Anderson, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism.
Foucault, Michel. Power/Knowledge: Selected Interviews and Other Writings.
Said, Edward W. Orientalism.
Agamben, Giorgio. Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life.
Mbembe, Achille. Necropolitics.

Júlia Saraiva
Formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ e cursando Pós-Graduação em Ciências Políticas e Relações Internacionais na FAAP. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais CERES e consultora de internacionalização de empresas.





Belo trabalho