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Geopolítica energética russa: o oleoduto Druzhba

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    CERES
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Eduardo Correia Leal Maranhão


INTRODUÇÃO

 

Nos últimos anos, desde a entrada de Vladimir Putin ao poder na Rússia, a distribuição e o controle sobre fluxos energéticos vêm sendo usados como fortes ferramentas de política externa pelo Kremlin. Através de suas utilizações, a Rússia se tornou um parceiro comercial chave para a União Europeia, que, até o início do conflito russo-ucraniano, em 2022, era o principal destino de exportações de commodities como gás natural e petróleo da Rússia. Com esse consumo europeu, criou-se uma relação de dependência energética do continente com a Rússia, em especial por países como a Alemanha, que se tornou fortemente dependente da energia russa para manutenção de sua capacidade industrial.

Dessa forma, ao longo do século, a Rússia aprimorou a capacidade de distribuição, ao mesmo tempo que aumentou sua responsabilidade como centro de fornecimento energético europeu. Com isso, Moscou construiu uma forte arma geopolítica, por manter para si um papel de alta relevância em sua relação com a Europa, que se tornou dependente do seu abastecimento, e por poder utilizar sua capacidade energética como fonte de influência e coerção externa, principalmente com os países próximos ao seu entorno estratégico, do Leste Europeu, como já demonstrado anteriormente com a Moldávia e com a Ucrânia.

 

CONTROLE SOBRE FLUXOS ENERGÉTICOS

 

Além do poder comercial obtido como fruto de sua posição como exportador estratégico, Moscou também obteve um novo instrumento geopolítico que fortaleceu seu poder na Eurásia, sendo esse a sua capacidade de controlar fluxos de abastecimento energético. Esse controle é oriundo dos diversos gasodutos e oleodutos construídos pela Rússia nos últimos anos, que conectam a distribuição de gás do país eslavo a diversos centros de abastecimento e países importadores de energia ao redor da região. Gasodutos como o “Nord Stream” e o “TurkStream”, e oleodutos como o “Druzhba”, exemplificam o poder de distribuição russo. Eles conferem ao Kremlin capacidade de interferir nos fluxos transnacionais energéticos que passem pelo seu território, possibilitando a Moscou não apenas poder sobre a capacidade de gerar dependência através de suas exportações diretas, mas também sobre o controle de fluxos externos de energia que passem pelo seu território.

 

O IMPACTO DA GUERRA DA UCRÂNIA

 

Com o início do conflito com a Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022, a Rússia se tornou um alvo intensificado de sanções europeias, que já existiam desde 2014, com a anexação da Península da Crimeia, porém sofreram aumentos após o início do conflito em 2022. Como consequência, a sua distribuição de commodities, como gás e petróleo, sofreu impactos em seus níveis de exportação. O temor europeu de uma possível ameaça russa superou a sua necessidade de fornecimento energético pelo país eslavo. A União Europeia recorreu a novos métodos e fornecedores para suprir a sua demanda energética interna como uma maneira de enfraquecer a capacidade econômica russa, que também precisou buscar novos parceiros para suas exportações.

A Alemanha, por exemplo, após interromper a sua importação de gás russo em 2022, que por anos se apresentou como principal fonte energética do país, encontrou no Cazaquistão uma nova fonte de abastecimento, iniciando, em 2023, uma forte relação comercial no setor com o país asiático, utilizando gasodutos para fazer a distribuição.

 

O CASO DA ALEMANHA

 

Nos últimos dias, a Rússia anunciou a interrupção do trânsito de petróleo de origem cazaque pelo oleoduto Druzhba para a Alemanha, a partir do dia 1º de maio. Embora a interrupção seja alegada sob justificativa de “falta de capacidades técnicas”, a ação pode ser interpretada como uma retaliação ao suporte alemão no desenvolvimento de drones com a Ucrânia, e demonstra a utilização do controle sobre rotas energéticas como instrumento geopolítico pela Rússia. A ação pode causar danos à economia alemã, que vem enfrentando dificuldades desde o fechamento do Estreito de Ormuz, em razão da carência para suprimento interno de suas indústrias.

O abastecimento alemão pelo gasoduto ocorre pelo ramal norte, que atravessa Belarus, segue pela Polônia e chega à Alemanha.

Um dos principais pontos de preocupação da Alemanha direciona-se à Refinaria de Schwedt, principal responsável pelo abastecimento energético industrial de Berlim. Em torno de 17% da demanda da refinaria é dependente do trânsito de petróleo pelo Druzhba. Como consequência, com o fim do fluxo, a capacidade operacional da unidade pode diminuir para menos de 60%, o que mitigaria o abastecimento para Berlim.

Desse modo, o anúncio do fim do abastecimento leva a Alemanha a precisar encontrar novas rotas para a chegada do petróleo, como portos nas regiões de Gdansk e Rostock, na Polônia. Porém, ambas as possíveis rotas alternativas não possuem a mesma capacidade para suprimento da demanda interna alemã como o oleoduto Druzhba possui. Estima-se uma média de fluxo de 150 mil barris de petróleo diários pelas possíveis rotas até a Alemanha, enquanto, pelo oleoduto Druzhba, o fluxo ocorria em torno de 240 mil barris por dia, evidenciando um novo desafio para a economia e as indústrias alemãs.

Assim, por meio do controle sobre o fluxo de petróleo, a Rússia demonstra a sua capacidade geoeconômica de causar consequências a uma economia europeia, podendo usar dessa capacidade como arma para causar danos industriais e econômicos, e também para influenciar e possivelmente coagir países através de seu domínio sobre fluxos e rotas energéticas.

 

DRUZHBA COMO INSTRUMENTO DE INFLUÊNCIA

 

Além da capacidade de possibilitar à Rússia causar danos econômicos a países euro-asiáticos, o controle de Moscou sobre rotas energéticas permite a capacidade de influenciar outros Estados aos seus próprios interesses, e até mesmo coagi-los a agir de modo favorável aos interesses do Kremlin. Casos como o da Hungria exemplificam isso. No caso húngaro, historicamente dependente da energia russa, nos últimos anos evidenciou-se uma clara influência russa sobre Budapeste, principalmente sob o governo do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Durante o seu governo, a Hungria buscou fortalecer laços com a Rússia, no âmbito comercial e de cooperação em energia nuclear, por exemplo, como com o acordo nuclear Paks II, e acordos referentes à renegociação de contratos com a Rússia sobre importação de gás natural.

Como resultado desse aprofundamento em suas relações com a Rússia, a Hungria aumentou seu nível de dependência energética com Moscou, mantendo altos níveis de importação de petróleo até mesmo após o início do conflito russo-ucraniano e a imposição de sanções da União Europeia à Rússia.

Com a continuidade da dependência energética, Moscou obteve ganho político em seu campo de influência, por manter um aliado dentro da principal organização internacional da Europa, que, em determinados momentos, poderia agir em convergência com os interesses do Kremlin. Essa influência pode ser vista na postura húngara referente a questões que envolviam apoio da União Europeia para a Ucrânia, de maneira direta ou indireta.

Um exemplo dessa postura apresentou-se no recente bloqueio da Hungria a um possível empréstimo da União Europeia a Kiev, durante uma cúpula do bloco em março. Parte dessa ação deveu-se ao interesse húngaro em continuar a receber o fluxo de petróleo russo que passa pelo ramal sul do oleoduto Druzhba, que atravessa a Ucrânia em direção à Hungria e à Eslováquia. Em janeiro, o transporte de petróleo foi interrompido pela Ucrânia, que alegou necessidade de reparos após supostos ataques russos.

Embora posteriormente o empréstimo no valor de 90 bilhões para a Ucrânia tenha sido aprovado pela União Europeia, após a retirada do veto húngaro, o caso exemplifica a capacidade de influência russa na Hungria, que ocorre de forma primária em razão da necessidade de Budapeste pela energia e pelo fluxo de transporte russo.

 

CONCLUSÃO

 

Assim, por meio do controle sobre o fluxo de petróleo, a Rússia demonstra a sua capacidade geoeconômica de conseguir causar consequências a uma economia europeia, podendo usar dessa capacidade como arma para causar danos industriais e econômicos, e também para influenciar e possivelmente coagir países através de seu domínio sobre fluxos e rotas energéticas.

O caso do oleoduto Druzhba demonstra ambas as possibilidades de impactos que podem ser causados por Moscou, mesmo em um momento de conflito e em que a dependência europeia em suas exportações no setor energético não possui os mesmos números de anos anteriores ao início do conflito.

Portanto, através dos exemplos demonstrados, o oleoduto evidencia o alto valor atribuído ao poder geoeconômico no século XXI, por permitir a uma potência influenciar dinâmicas regionais, ao mesmo tempo que possibilita sua utilização como arma geopolítica, como instrumento de pressão ou retaliação a outro país.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

GERÖ, Bence. Decades of dependency: The Political Legacy of Hungary’s Energy Reliance on Russia. Viena: Central Europe University, 2024.

 

 

 

 


Eduardo Correia Leal Maranhão

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade La Salle (RJ), com interesse em política externa, geopolítica e segurança internacional. Atua como pesquisador da região Europa no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval e realizou estágio voluntário no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, com apoio a treinamentos de peacekeepers da ONU. Foi medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Geopolítica, promovida pela Seleta Educação, e obteve desempenho de alta performance na Odisseia Brasileira de Diplomacia e Relações Internacionais, promovida pelo Grupo Ubique Júnior.


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