O bolsonarismo já venceu. O segundo turno decidirá apenas até onde irá a sua vitória e quanto o Brasil vai perder...
O primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 foi acompanhado com atenção por boa parte do planeta e deixou um gosto amargo para muitos daqueles que ainda acreditam na possibilidade de construção de um Brasil socialmente mais justo, ambientalmente responsável, economicamente soberano e comprometido com a ampliação dos direitos civis. É verdade que a eleição presidencial ainda não terminou e que o segundo turno definirá se o Palácio do Planalto continuará nas mãos de Lula ou passará para Flávio Bolsonaro, mas existe uma realidade política que não pode mais ser ignorada pelo campo progressista: independentemente do resultado da disputa presidencial, o bolsonarismo já venceu uma parte fundamental das eleições de 2026.
A razão é simples, embora suas consequências sejam profundas. A força conquistada pelo bolsonarismo no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais, incluindo a vitória em 13 Estados, produz uma correlação de forças que nenhum presidente poderá ignorar. Existe uma crença bastante disseminada na sociedade brasileira de que o presidente da República possui poderes quase absolutos, como se o ocupante do Palácio do Planalto fosse uma espécie de monarca eleito, capaz de determinar sozinho os rumos econômicos, sociais e institucionais do país. A realidade, evidentemente, é muito diferente: o presidente precisa do Congresso Nacional, precisa do Senado, precisa negociar com governadores, depende de maiorias parlamentares para aprovar grande parte de sua agenda e encontra limites institucionais, federativos e orçamentários que fazem com que a Presidência seja apenas uma das peças da complexa arquitetura de poder brasileira.
Por isso, a pergunta mais importante deste momento não deveria ser apenas se Lula ou Flávio Bolsonaro vencerá o segundo turno, mas quem terá capacidade real de governar o Brasil depois que as urnas forem fechadas. E, olhando para o resultado do primeiro turno, a resposta é desconfortável para o campo progressista: o bolsonarismo construiu uma posição estrutural de poder que poderá sobreviver à própria eleição presidencial.
E isso significa que, mesmo que Lula consiga vencer o segundo turno, o Brasil que ele encontrará será politicamente muito diferente daquele que encontrou em 2023. Se Flávio Bolsonaro vencer, evidentemente, teremos uma convergência ainda mais significativa entre Presidência, Congresso, Senado e governos estaduais, permitindo que muitas das ideias defendidas pelo bolsonarismo deixem de ser apenas discurso eleitoral e passem a ser convertidas em políticas públicas, legislação, prioridades orçamentárias e decisões de Estado "Seguir o bom exemplo da Argentina" conforme a lider de economia de Flávio Bolsonaro.
Mas existe uma questão que deveria incomodar profundamente o campo progressista: quem realmente perdeu com esse resultado?
Perdeu o meio ambiente, porque uma parcela significativa da nova correlação de forças políticas está associada a uma visão de desenvolvimento que frequentemente coloca expansão econômica, exploração territorial e interesses do agronegócio acima da preservação ambiental. Perderam os programas sociais, porque políticas de transferência de renda, proteção social e redução das desigualdades passam a enfrentar um Congresso muito menos disposto a tratá-las como instrumentos permanentes de construção de cidadania. Perderam os direitos civis, a igualdade de gênero, os direitos das populações indígenas, as minorias e a população LGBT, não porque necessariamente todas essas conquistas desaparecerão de um dia para o outro, mas porque a correlação política que deveria protegê-las se tornou muito mais hostil à sua expansão e, em alguns casos, à própria manutenção dos direitos conquistados.
Perdeu também uma determinada concepção de patrimônio nacional, segundo a qual os recursos naturais, minerais, energéticos, ambientais e tecnológicos do Brasil deveriam ser administrados a partir de uma estratégia de soberania e desenvolvimento nacional, e não simplesmente tratados como ativos disponíveis para quem possuir maior capacidade financeira ou maior influência política.
Mas existe uma pergunta ainda mais incômoda para nós, progressistas, e talvez seja justamente aquela que deveríamos fazer antes de simplesmente culpar o eleitorado: por que uma parcela tão significativa da sociedade brasileira decidiu votar no bolsonarismo? Será que eles realmente sabem o que significa novamente a volta do Bolsonarismo?
Durante muito tempo, uma das explicações mais utilizadas foi a corrupção. Segundo essa narrativa, o eleitor teria se deslocado para a extrema direita porque estaria cansado dos escândalos, dos desvios de recursos públicos e da velha política, procurando candidatos que representassem uma ruptura moral com o sistema político tradicional. O problema é que essa explicação se torna cada vez mais difícil de sustentar diante da realidade eleitoral brasileira.
Se a principal motivação tivesse sido realmente a luta contra a corrupção, como explicar que candidatos envolvidos em denúncias, investigações e diferentes controvérsias tenham sido eleitos ou reeleitos? Como explicar a sobrevivência política de candidatos associados ao escândalo do Banco Master? Como explicar a eleição de políticos envolvidos em acusações relacionadas a esquemas de corrupção, relações com facções ou milícias e outras práticas incompatíveis com o discurso de regeneração moral que durante tantos anos foi utilizado para mobilizar o eleitorado conservador? Como explicar, ainda, que candidatos investigados por questões relacionadas à exploração sexual e à infância tenham conseguido atravessar eleitoralmente denúncias que, em qualquer sociedade que levasse a sério o discurso da defesa da família, deveriam produzir consequências políticas devastadoras?
Talvez seja necessário admitir uma conclusão que incomoda: não foi a luta contra a corrupção que elegeu o bolsonarismo.
Ou, pelo menos, não foi apenas isso.
Também não parece convincente dizer que a vitória foi resultado de uma grande preferência por um projeto econômico claramente ausente na campanha de Flávio Bolsonaro. Onde está, afinal, o grande plano econômico capaz de demonstrar como o Brasil pretende aumentar sua produtividade, recuperar sua indústria, ampliar sua capacidade tecnológica, reduzir desigualdades, gerar empregos de qualidade e enfrentar os problemas estruturais das contas públicas? O que foi apresentado ao eleitorado foi suficientemente consistente para justificar uma mudança tão profunda na direção econômica do país ou estamos diante de uma escolha essencialmente ideológica, sustentada mais pela rejeição ao campo progressista do que pela existência de um programa econômico detalhado?
Quando a Argentina aparece como referência para justificar determinadas escolhas econômicas, deveríamos lembrar que um país com as dimensões, a estrutura produtiva, os recursos naturais e a posição geopolítica do Brasil não pode simplesmente importar modelos econômicos como quem escolhe uma franquia, principalmente um que está falhando miserávelmente como o argentino... O Brasil precisa de uma estratégia própria de desenvolvimento, e essa estratégia deveria considerar sua estrutura industrial, seu mercado interno, sua capacidade agrícola, sua biodiversidade, seus recursos minerais, suas reservas energéticas, sua posição no Atlântico Sul e sua capacidade de atuar simultaneamente como potência agrícola, industrial, tecnológica e ambiental.
Então, se não foi principalmente a corrupção e se não foi necessariamente a economia, precisamos olhar para os interesses que sustentam essa nova maioria.
Existe uma parcela do agronegócio que depende profundamente de políticas públicas, financiamento subsidiado, infraestrutura, crédito rural e mecanismos como o Plano Safra, mas que, ao mesmo tempo, frequentemente se apresenta politicamente contra políticas públicas destinadas ao restante da sociedade, como se o Estado fosse indispensável quando financia seus próprios interesses e excessivo quando financia políticas sociais. Existe uma parcela do conservadorismo político que reivindica liberdade, mas parece compreender liberdade como o direito de impor sua própria concepção moral sobre a vida dos demais cidadãos, especialmente quando se trata de gênero, sexualidade, educação, costumes e direitos civis.
Existe também uma parcela do conservadorismo religioso que parece ter entrado em uma contradição particularmente profunda com aquilo que afirma defender. A religião, que deveria promover compaixão, solidariedade, proteção da vida e dignidade humana, é utilizada em alguns setores para justificar guerras, apoiar discursos de violência, relativizar o sofrimento de populações inteiras e transformar conflitos geopolíticos em batalhas religiosas. Como conciliar uma suposta defesa cristã da vida com a indiferença diante da morte de crianças palestinas? Como conciliar a defesa da família com o genocídio ou a destruição de comunidades indígenas? Como conciliar valores religiosos com a utilização sistemática do medo, do ódio e da desumanização do adversário político?
Não se trata de atacar a religião ou os religiosos, mas de questionar uma instrumentalização política da fé que transforma crenças espirituais em ferramentas de disputa pelo poder.
E talvez exista uma contradição ainda maior no discurso daqueles que se apresentam como nacionalistas.
Enquanto Estados Unidos, China e União Europeia reorganizam suas estratégias para garantir acesso a minerais críticos, energia, tecnologia, biodiversidade, cadeias produtivas e recursos estratégicos, o Brasil corre o risco de assistir à transformação de suas riquezas em simples ativos de negociação internacional. Donald Trump quer garantir acesso aos minerais críticos e aos recursos estratégicos necessários para a economia norte-americana do futuro, enquanto a China desenvolve uma estratégia de longo prazo para assegurar cadeias de fornecimento e domínio tecnológico; a Europa procura reduzir sua dependência externa e fortalecer sua autonomia estratégica. As grandes potências compreenderam que os recursos naturais, os minerais críticos, a energia e a tecnologia serão instrumentos fundamentais de poder no século XXI.
E nós?
Nós temos setores que se apresentam como nacionalistas e, ao mesmo tempo, parecem dispostos a entregar nossas riquezas estratégicas em troca de ganhos imediatos.
Soberania não é uma bandeira hasteada em um palanque. Soberania é capacidade de decidir sobre o próprio território, sobre os próprios recursos e sobre o próprio futuro.
É exatamente por isso que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não deveria ser reduzida a uma guerra entre esquerda e direita, tampouco a uma disputa entre duas personalidades políticas. O que está em jogo é um modelo de Estado, uma determinada concepção de sociedade e, sobretudo, uma visão sobre o lugar que o Brasil pretende ocupar no mundo.
Lula ainda pode vencer, mas suas chances são reduzidas diante da dimensão do desafio. Ele precisa conquistar uma parcela significativa de eleitores que, aparentemente, permanecem indiferentes ou indecisos diante das consequências concretas da escolha que estão prestes a fazer. E aqui existe uma questão que o campo progressista precisa abordar com inteligência, porque simplesmente chamar essas pessoas de ignorantes, fascistas ou irresponsáveis não fará com que mudem de opinião.
Precisamos dizer algo muito mais simples: essas pessoas são eleitoras, mas também são cidadãs, e cidadãos vivem dentro das consequências das próprias escolhas políticas.
O eleitor que vota contra a proteção ambiental não deixará de respirar o ar contaminado por causa do seu voto. O trabalhador que apoia a redução de direitos trabalhistas não terá um contrato especial de proteção porque votou no candidato que prometia flexibilizá-los. A pessoa que depende do SUS continuará dependendo do SUS mesmo que tenha votado contra políticas de fortalecimento do sistema público. A família que depende de programas sociais continuará precisando desses programas mesmo que tenha votado contra aqueles que os defendem. O pequeno agricultor continuará necessitando de crédito público, infraestrutura e políticas agrícolas mesmo que tenha apoiado candidatos que defendem a redução da presença do Estado.
A política não termina no momento em que depositamos o voto na urna.
O voto produz consequências.
E talvez seja exatamente isso que o campo progressista precise voltar a explicar ao eleitorado, sem arrogância e sem paternalismo: votar é assumir uma parcela de responsabilidade sobre o país que será construído depois da eleição.
Se Lula vencer, parte da sangria que poderá resultar de um eventual Governo Flávio Bolsonaro poderá ser interrompida ou, pelo menos, desacelerada. Lula poderá preservar programas sociais, proteger políticas ambientais, defender direitos civis, reconstruir políticas de ciência e tecnologia, fortalecer a presença internacional do Brasil e tentar preservar uma estratégia de soberania sobre recursos naturais e setores estratégicos.
Mas Lula não poderá fazer isso sozinho.
E essa é talvez a maior lição deste primeiro turno.
O presidente da República não é rei.
Lula não seria rei.
Flávio Bolsonaro também não seria rei.
Nenhum presidente governa sozinho porque o Brasil possui Congresso, Senado, governadores, assembleias legislativas, Supremo Tribunal Federal, instituições de controle, sociedade civil, empresas, movimentos sociais e uma estrutura federativa extremamente complexa.
Por isso, o segundo turno decidirá quem ocupará a Presidência, mas o primeiro turno já decidiu algo muito maior: qual força política terá uma parcela considerável da capacidade de determinar o funcionamento do Estado brasileiro nos próximos anos.
E essa força é o bolsonarismo.
O campo progressista precisa ter coragem para reconhecer isso, porque negar a realidade é a maneira mais rápida de voltar a perdê-la. Não basta celebrar uma eventual vitória de Lula enquanto se ignora a composição do Congresso, do Senado e dos governos estaduais. Não basta defender direitos sociais sem compreender os interesses econômicos que disputam o orçamento público. Não basta falar em democracia sem compreender a guerra cultural que está redefinindo os limites do debate público. Não basta defender a soberania nacional enquanto se permite que nossas riquezas estratégicas sejam tratadas como commodities disponíveis ao melhor comprador.
O problema não é apenas quem vencerá a eleição presidencial.
O problema é qual Brasil estará esperando o próximo presidente quando ele chegar ao Palácio do Planalto.
Se for Lula, ele terá de governar diante de um Congresso muito mais conservador, de um Senado muito mais conservador e de uma estrutura de poder estadual na qual o bolsonarismo terá consolidado posições importantes.
Se for Flávio Bolsonaro, o cenário será ainda mais profundo, porque aquilo que durante anos foi uma corrente política de oposição poderá encontrar condições institucionais para transformar sua agenda em política de Estado.
Por isso, talvez seja errado dizer que o segundo turno decidirá se o bolsonarismo vencerá.
O bolsonarismo já venceu.
O segundo turno decidirá apenas até onde irá essa vitória.
E essa é a realidade que o campo progressista precisa compreender antes que seja tarde demais, porque a verdadeira disputa não terminará quando Lula ou Flávio Bolsonaro subir ao palanque para comemorar a vitória. Ela começará no dia seguinte, quando descobrirmos quem realmente terá poder para decidir sobre o meio ambiente, os programas sociais, os direitos civis, a igualdade de gênero, as populações indígenas, a população LGBT, as riquezas nacionais, os recursos estratégicos e, sobretudo, sobre o lugar que o Brasil ocupará em um mundo cada vez mais disputado pelas grandes potências.
O primeiro turno nos mostrou que o Brasil mudou.
Agora precisamos decidir se o campo progressista terá capacidade de compreender essa mudança ou se continuará discutindo o país que gostaria de ter enquanto o país real já está sendo construído por outros.
Wesley Sá Teles Guerra é especialista em internacionalização, cooperação internacional e paradiplomacia, com uma sólida formação acadêmica em instituições de referência internacional. É fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais no Brasil e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África na Secretaria-Geral Ibero-Americana, com sede em Madri.
Ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional, realizou estudos no Centre de Promoció Econòmica de Barcelona em Negociações Internacionais; na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em Relações Internacionais e Ciência Política; na Universidade da Coruña (UDC), onde cursou o Mestrado em Políticas Sociais e Migrações; no Massachusetts Institute of Business, onde obteve um MBA em Marketing Internacional; na Universitat Carlemany, com Mestrado em Smart Cities; na Universidad Internacional de Andalucía (UNIA), em Gestão de Fundos e Projetos Europeus; e atualmente é doutorando em Sociologia na Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED).
É autor das obras Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente de fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, e também tem sido comentarista convidado na CBN Recife. Foi finalista do Prêmio ABANCA de Investigação Acadêmica e integra redes e plataformas internacionais como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, mantendo uma participação ativa em iniciativas internacionais vinculadas à cooperação, à inovação e à governança.






Comentários