O Neo-Ludismo e a Literatura: A Resistência dos Escritores Lusófonos na Era das Inteligências Artificiais
- CERES

- há 1 dia
- 5 min de leitura
O termo ludismo remete-nos ao movimento operário do início do séc. XIX, entre os anos de 1811 e 1812, quando trabalhadores têxteis ingleses destruíam máquinas que ameaçavam os seus meios de subsistência. O nome do movimento deriva do nome de um suposto trabalhador, Ned Ludd, que teria quebrado as máquinas de seu patrão. Mesmo sem qualquer comprovação, a história serviu de inspiração para vários operários que viam nas máquinas a razão de sua condição de miséria.
Entretanto, o termo passou a expressar um conceito político, chamado “neo-ludismo”, que é usado hoje para descrever atitudes críticas face às tecnologias digitais e às lógicas que as sustentam. As preocupações incidem sobre vigilância algorítmica, recolha massiva de dados pessoais, automação do trabalho cognitivo, e a desumanização de processos sociais mediados por IA.
Embora situado num contexto histórico específico, o conceito tem sido recuperado e geralmente vinculado ao movimento operário anarcoprimitivista, para analisar formas contemporâneas de resistência social perante tecnologias que redefinem o trabalho, a economia e o quotidiano, assim como foi no séc. XIX.
No momento actual, o avanço veloz das Inteligências Artificiais (IA) levanta questões como “até que ponto a automação e os sistemas inteligentes podem comprometer o emprego, a autonomia humana e as estruturas sociais?”. Entretanto, esse tipo de questionamento não é novidade na história. Sempre que uma nova tecnologia ameaça transformar profundamente alguma profissão, especialmente aquelas ligadas à arte, há resistência. Um exemplo prático no campo artístico foi o surgimento emblemático da fotografia, no século XIX. Muitos pintores especializados em retratos viram a sua actividade perder valor quase de um dia para o outro. Afinal, por que razão alguém encomendaria um retrato pintado, quando uma máquina era capaz de registar a imagem de uma pessoa em apenas alguns segundos?
No debate actual sobre a inteligência artificial, vários artistas (sobretudo os escritores), manifestam preocupações que nos remetem às tensões vividas no período do ludismo. Os ludistas (operários ingleses do início da Revolução Industrial), ficaram conhecidos por destruir máquinas instaladas nas fábricas. Contudo, o seu protesto não se dirigia contra a tecnologia enquanto tal, mas contra a forma como estava a ser implementada, frequentemente à custa dos trabalhadores.
A sua luta centrava-se na substituição de profissionais qualificados por processos mecanizados destinados a maximizar a produção e o lucro, desconsiderando o valor humano envolvido. As máquinas eram atacadas, mas o objectivo não era travar o desenvolvimento industrial, e sim contestar a injustiça social que dele resultava.
Grande parte dos ludistas era composta por artesãos habilidosos, detentores de conhecimentos técnicos profundos. O que os indignava não era a existência das máquinas, mas a rapidez com que o seu saber (até então fundamental), se tornava descartável.
O descontentamento que muitos escritores manifestam perante o avanço das inteligências artificiais na produção literária não nasce apenas do receio de perder espaço no mercado editorial. Há, acima de tudo, um conflito mais profundo, um conflito de inserção criativa e narrativa, num tempo em que máquinas são capazes de gerar textos com fluência, coerência e até mesmo uma suposta “sensibilidade”. Esta preocupação ganhou, nos últimos anos, expressão pública e académica.
A questão deixou de ser apenas uma preocupação difusa e tornou-se tema central de debates, encontros e mesas-redondas. Um exemplo recente dessa mobilização ocorreu na Universidade de Cabo Verde, que promoveu, a 16 de Outubro deste ano (2025), uma conversa subordinada ao tema “Independência, Literatura, Inteligência Artificial”, integrada no XIII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. O painel reuniu figuras como Princezito, Manuel Pereira da Silva, Nardi Sousa, Paulo Veríssimo, Ozias Filho e Ricardo Araújo Pereira, além de autores convidados da Galiza e de Moçambique.
Este encontro, que se estendeu por vários dias e incluiu sessões dedicadas a temas como “Literatura e Desenvolvimento” e “Cultura e Inteligência Artificial”, espelhou um movimento mais amplo dentro da lusofonia. Os debates mostraram que o receio ou desconforto dos escritores face à IA não é apenas técnico; é profundamente existencial.
No painel da universidade, vários autores sublinharam a especificidade humana do acto de escrever. Ricardo Araújo Pereira recordou que o humor literário depende de uma consciência crítica que a máquina não possui: “Eu escrevo textos humorísticos (…) cujo propósito é fazer com que as pessoas se riam. (…) O riso humorístico é o mais interessante de todos, porque ri do que é mau”. Esta afirmação traduz uma preocupação comum entre escritores. Isto é, a ideia de que certas dimensões da linguagem, como o humor, a ironia, a dor, e a memória, emergem de vivências humanas e não de padrões estatísticos.
Já o escritor moçambicano, Sérgio Raimundo, partilhou uma visão igualmente crítica e pessoal, afirmando que escreve para “tapar os buracos da minha existência e os buracos disfarçados do meu país; enquanto existirem buracos, continuarei a ser escritor.” A literatura, nesse sentido, aparece como acto de cidadania, como gesto de reparação, função que dificilmente se delega a um sistema automático. Avelino Pereira, João Branco e Silvino Évora reforçaram esta ideia, discutindo processos de migração, edição, pertença múltipla e os desafios de fazer circular obras dentro do espaço lusófono.
E é exactamente aqui que entra um ponto realmente importante, que raramente é discutido sobre o ludismo. Fala-se pouco do impacto positivo que o movimento teve. Embora os ludistas não reivindicassem direitos laborais no sentido moderno do termo, eles desempenharam um papel pioneiro na organização da resistência dos trabalhadores face aos abusos do nascente sistema industrial. A sua acção marcou o início de um debate essencial, mostrou que a classe trabalhadora não estava condenada à passividade diante das transformações tecnológicas, e que era capaz de se mobilizar colectivamente. Esse posicionamento gerou pressões significativas sobre empregadores e autoridades públicas, abrindo caminho para formas posteriores de organização laboral.
Agora, tal como os ludistas do século XIX, estes escritores não se opõem ao avanço tecnológico em si. O que contestam é a forma como a tecnologia está a ser integrada num mercado que privilegia a velocidade, o lucro e a reprodução em massa de conteúdos, frequentemente à custa da criatividade humana. No encontro, tornou-se evidente que a questão central não é “parar a IA”, mas sim garantir que o futuro literário não seja construído à margem daqueles que lhe dão alma.
Portanto, o estudo do ludismo histórico e das suas repercussões contemporâneas evidencia que a resistência perante mudanças tecnológicas não é uma rejeição do progresso, mas sim uma forma de preservar o valor humano face à automatização. Tal como os ludistas do século XIX contestavam a substituição dos seus saberes por máquinas, os escritores de hoje questionam a forma como a inteligência artificial está a ser integrada na produção literária e cultural.
Os encontros recentes, como o realizado na Universidade de Cabo Verde, demonstram que a resistência não se limita a uma dimensão económica ou profissional, trata-se de uma defesa da experiência, da criatividade e da sensibilidade humana. Elementos que conferem significado à literatura e à arte. Ao afirmar-se, a classe artística mostra que continua activa, consciente e capaz de influenciar a forma como a tecnologia é adoptada, promovendo debates éticos, culturais e sociais sobre a IA.
Em última análise, a reflexão histórica e os movimentos contemporâneos convergem para uma ideia central, que, como tal, sugere que o avanço tecnológico é inevitável, mas o modo como ele se instala e as prioridades que orienta podem e devem ser moldadas pela intervenção humana.

Gomes Dias: Formado em Comunicação Social, pela Universidade Agostinho Neto (UAN). Tem pesquisa académica em torno das redes sociais, com ênfase no processo de ensino e aprendizagem; e Inteligência Artificial. É Director Institucional da Juventude Unida dos Países de Língua Portuguesa (JUPLP). É também membro associado júnior da Associação Angolana dos Profissionais de Comunicação Institucional (AAPCI). Pesquisador e membro do Conselho de Pesquisa do CERES.
Redes sociais:
Instagram: https://www.instagram.com/gomes_dias9/
Email: gomesdiasgd99@gmail.com
Referência Bibliográfica





Comentários