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Geopolítica: Síria e os desafios do setor energético

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    CERES
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Luis Augusto Medeiros Rutledge

Geopolítica Energética

 

Ao observar o desenvolvimento da indústria petrolífera síria, é indispensável pensar nas questões geopolíticas quando destacamos a localização estratégica do país entre os vastos campos petrolíferos do Iraque e dos países do Golfo. Este posicionamento geográfico confere ao país um papel potencialmente central na construção de oleodutos transnacionais, capazes de escoar hidrocarbonetos em direção à costa oriental do Mar Mediterrâneo, criando rotas alternativas de exportação para os mercados europeus e ocidentais.


A geografia do país permite que essas infraestruturas atravessem seu território, reduzindo distâncias logísticas, custos de transporte e riscos associados às instabilidades na cadeia de suprimento energético em rotas marítimas tradicionais, como o Estreito de Ormuz ou o Canal de Suez. Nesse sentido, a Síria não se destaca apenas como produtora — ainda que modesta em termos de reservas —, mas sobretudo como corredor energético estratégico, cuja função de trânsito, similar à Ucrânia antes da invasão russa, amplia sua relevância geopolítica no sistema energético regional.


Essa centralidade explica por que o controle do território sírio e de suas rotas energéticas tem sido historicamente um elemento-chave nas disputas regionais e internacionais. Oleodutos que conectem o Oriente Médio ao Mediterrâneo transformariam a Síria em um hub energético euroasiático, com impactos diretos sobre a segurança energética europeia, o equilíbrio de poder regional e as estratégias de atores como Rússia, Irã, Turquia, países do Golfo e potências ocidentais.


Diante dos desafios enfrentados pelo setor energético na Síria, a questão da soberania sobre os recursos naturais está emergindo como um dos arquivos nacionais com dimensões econômicas e políticas entrelaçadas.


A recente afirmação oficial do Ministério de Energia sírio de que o petróleo e o gás natural constituem uma riqueza nacional e um direito soberano do povo sírio reafirma a importância de restaurar a administração nacional desses recursos, como um pilar fundamental para apoiar a estabilidade econômica e garantir as necessidades dos cidadãos por energia e serviços básicos.


Atualmente, as grandes áreas da geografia rica em petróleo e gás da Síria, representando quase 70% da produção de petróleo e gás, está atualmente fora do controle do Estado. Isso escancara a necessidade de que esses recursos sejam devolvidos à administração nacional, para garantir que todos os sírios se beneficiem deles de forma justa.


Entretanto, a realidade geopolítica da Síria impede os avanços da energia nacional. A geografia do sul da Síria está se transformando em uma arena não declarada de confronto, onde as guerras não são mais travadas com canhões, mas com gasodutos. A área que vai de Daraa a Quneitra e Sweida tornou-se um centro vital na luta energética regional, após a convergência das linhas de grandes projetos, a linha Catar-Turquia, que foi retomada em 2025, e a linha EastMed israelense, que conecta os campos Leviathan e Tamar aos mercados europeus. Aqueles que controlam esses corredores controlam não apenas o fluxo de gás, mas também o ritmo das decisões políticas no Mediterrâneo Oriental.


Após a decisão europeia de acabar com a dependência do gás russo até 2027, o projeto do gasoduto Catar-Turquia está novamente na mesa como uma alternativa mais viável ao projeto EastMed de Israel. Turquia e Catar buscam passagem segura para a Europa, enquanto Israel vê o gasoduto como uma ameaça direta à lucratividade de suas exportações e à sua supremacia no mercado de energia.


O campo Leviathan sozinho fornece à Europa mais de 13 bilhões de metros cúbicos por ano, enquanto Tamar está adicionando quantidades adicionais pelo Mediterrâneo Oriental.


Qualquer sucesso do projeto catar-turco necessariamente significa preços mais baixos do gás israelense e uma queda na posição de Tel Aviv como um dos principais fornecedores da Europa. Portanto, Israel vê o sul da Síria não apenas como uma área de fronteira, mas como uma válvula que controla seu futuro econômico.


Nesta guerra não declarada, Israel opta deliberadamente por instrumentos indiretos e assimétricos, evitando o emprego direto de forças convencionais e privilegiando o controle territorial, a vigilância e a intermediação de atores locais.


A partir de posições dominantes em Jabal al-Sheikh (Monte Hermon) e na cadeia montanhosa de Rahba, Israel mantém capacidade permanente de monitoramento e interdição preventiva sobre fluxos logísticos sensíveis — em especial o deslocamento de caminhões, maquinário pesado e equipamentos necessários à escavação e instalação de dutos energéticos.


Esse controle de altitude confere superioridade estratégica para detectar, dissuadir e neutralizar qualquer avanço físico associado a projetos de infraestrutura transnacional, transformando a geografia em um instrumento ativo de coerção geopolítica. A lógica não é a destruição aberta, mas a inviabilização silenciosa.


Em Sweida, essa estratégia se materializa de forma ainda mais explícita por meio da Guarda Nacional Drusa, uma força semi-autônoma. Dependente de financiamento direto israelense, essa formação impõe toques de recolher seletivos, conduz inspeções arbitrárias e exerce controle administrativo sob o discurso de segurança comunitária. Na prática, trata-se de um mecanismo de bloqueio político-logístico, destinado a interromper qualquer atividade de investimento, reconhecimento técnico ou preparação operacional vinculada ao projeto catar-turco de corredores energéticos.


Esse modelo de atuação permite a Israel negar plausivelmente envolvimento direto, ao mesmo tempo em que mantém capacidade efetiva de veto sobre iniciativas estratégicas adversas. O resultado é a criação de um ambiente estruturalmente hostil ao investimento energético, onde a incerteza regulatória, a fragmentação do poder local e a coerção indireta substituem o confronto militar aberto.


Assim, o teatro sírio revela uma dinâmica em que oleodutos são combatidos antes de existirem, e onde milícias locais, checkpoints e inspeções administrativas funcionam como armas geopolíticas, integradas a uma estratégia mais ampla de contenção regional e preservação do equilíbrio energético-estratégico no Levante e no Mediterrâneo Oriental.

Israel entende que o controle da energia é a nova face da soberania. Sua economia depende cada vez mais das exportações de gás, que são um dos pilares do orçamento de defesa. Qualquer projeto alternativo, como a linha Catar-Turquia, ameaça não apenas receitas, mas também o status de Israel como fornecedor confiável da União Europeia. Portanto, está trabalhando para reexportar gás liquefeito, fortalecendo seus contratos de longo prazo com empresas europeias para estabilizar sua posição no mercado.


A equação é simples. Enquanto o sul da Síria permanecer uma região turbulenta e insegura, poucos investimentos em projetos que serão aplicados na região. Assim, aos olhos de Israel, a divisão síria torna-se uma linha estratégica de defesa que protege seu domínio sobre os corredores de gás no Mediterrâneo Oriental.



 

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.

 

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