Energia: guerra do Irã ameaça a transição energética da Europa
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Luis Augusto Medeiros Rutledge
Geopolítica Energética
As consequências da guerra no Irã estão lançando uma sombra sobre a transição energética da Europa devido às pressões inflacionárias que podem resultar em um aumento no preço dos equipamentos de energia renovável.
A guerra no Oriente Médio ocorre em um momento decisivo, quando a União Europeia enfrenta críticas internas crescentes por suas políticas climáticas. Isso se reflete nos apelos de governos nacionais e líderes do setor para aumentar a pressão sobre de comércio de emissões da Europa, ou até mesmo para reduzir as metas de emissões de carbono para veículos novos. Assim, a alta dos preços do petróleo e gás desde o início da guerra contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026 representa um risco significativo para o progresso da transição energética da Europa.
A guerra no Oriente Médio é o mais recente sinal de alerta para a Europa, que enfrenta o dilema de depender das importações de energia para atender à crescente demanda interna.
Embora os primeiros sinais dos formuladores de políticas apontem para um aumento este ano dos investimentos no setor de energia renovável, os riscos inflacionários estão iminentes como resultado da guerra apoiada pelos EUA contra o Irã.
A crise do Irã evidenciou as repercussões da dependência da Europa em importações de energia. Mais ainda, evidenciou, de muitas maneiras, as vulnerabilidades do velho continente. O que está acontecendo é que a exposição da Europa ao risco se deslocou dos oleodutos russos para as importações de GNL, geralmente vindas dos Estados Unidos e do Oriente Médio.
Os preços do petróleo e gás também aumentaram após os ataques militares dos EUA e de Israel contra o Irã. Isso faz reviver a crise do gás natural após o início da guerra da Ucrânia. A Europa, naquele momento, enfrentava uma grande crise energética que pressionou os líderes europeus para acelerar seus esforços em políticas energéticas visando a implantação de energia renovável, além de garantir o fornecimento de gás após a interrupção do fluxo de suprimentos russos.
Está muito clara a urgência em continuar melhorando a funcionalidade do mercado de energia, atrair mais investimentos em inovação tecnológica e avançar na transição para a energia limpa produzida localmente. Uma coalizão global com foco em acelerar a transição para energia limpa, através das energias renováveis, juntamente com armazenamento de eletricidade, resiliência e outras opções de energia de baixo carbono, são meios de fontes de infraestrutura resiliente e de proteção das economias dos choques nos preços da energia.
Apesar de grandes volumes de instalações de energia solar e eólica e a aceleração da implantação de veículos elétricos continuarem em crescimento, a dependência do petróleo é real e imediata.
Na União Europeia (UE), as metas climáticas e seu respectivo cronograma estão comprometidos desde sua implementação, pelo menos desde o início da guerra Rússia-Ucrânia e suas repercussões, que afetaram significativamente a segurança energética e a estabilidade das economias europeias.
Diversos relatórios em energia preveem que as emissões da UE não atingirão suas promessas líquidas de cerca de 684 milhões de toneladas por ano até 2050, de acordo com as políticas atuais, apesar dos Estados-membros terem concordado com a meta de atingir as emissões líquidas até 2050.
Para que o mundo alcance a neutralidade de carbono, as metas climáticas da UE devem ser atendidas até 2048 para compensar outras regiões que continuarão a emitir emissões na próxima década e além, como China e Índia.
A China e outros países se comprometem a alcançar a neutralidade de carbono até 2060, enquanto a Índia se compromete a alcançá-la até 2070, ao contrário da Europa e da América, que estão comprometidos a alcançá-la até 2050, segundo a Unidade de Pesquisa em Energia.
A UE continua sendo líder na transição energética com metas ambiciosas, mas o início turbulento da década, especialmente desde a invasão da Ucrânia e a atual guerra no Golfo, levanta dúvidas e aumenta ainda mais os obstáculos.
No entanto, as metas climáticas da UE até 2050 ainda são alcançáveis se os investimentos em energia renovável e tecnologias emergentes como hidrogênio e captura de carbono aumentarem, ao mesmo tempo em que aumentam o compromisso político e estimulam a demanda futura.
O atual cenário geopolítico com guerras sem fim deixa claro que economias pequenas precisarão de apoio à eletricidade por meio do financiamento de infraestrutura crítica, fornecimento de eletricidade de baixo carbono e incentivos públicos, enquanto economias grandes estarão em melhor situação, refletindo sobre a lacuna na adoção e implementação de tecnologias limpas nesses países.
Um outro agravante precisa ser abordado e está diretamente relacionado com um sério perigo à saúde e ao meio ambiente. A guerra no Irã corre o risco de gerar uma poluição global.
Atentados dos EUA e de Israel têm como alvo refinarias no Irã, que respondeu atacando locais de petróleo e navios no Golfo, um sério perigo à saúde e ao meio ambiente.
Especialistas alertam sobre possíveis mortes ligadas a esses vapores de dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de nitrogênio (NOx) criados pela combustão de óleo, além de enxofre, benzeno e sulfeto de hidrogênio. Podemos ver que essa poluição já está se espalhando para os outros países do Golfo.
Embora os locais petrolíferos sejam frequentemente alvo de guerras, incêndios em Teerã são incomuns, pois é raro que tais incidentes ocorram em uma área tão densamente povoada e tenham o potencial de afetar diretamente a saúde e o bem-estar de uma população civil tão numerosa. Os senhores da guerra deveriam ter levado em conta na decisão de atacar esses locais.
Em conclusão, estamos vivenciando um momento único e negativo. Rotas de suprimentos de matérias-primas com dificuldades logísticas, um reflexo imediato nos investimentos relacionados com a implementação de tecnologias para geração limpa de energia e uma inesperada poluição que afetará gerações persas e árabes.
A guerra envolvendo o Irã no Golfo Pérsico tem potencial para provocar fortes distorções no mercado energético global, mas dizer que o mundo está prestes a “voltar à era do carvão” é mais uma metáfora sobre segurança energética do que um cenário literal. Ainda assim, o risco de maior uso de carvão no curto prazo é real.

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.





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