Quem vai traduzir essa mobilização em participação efetiva? Uma análise dos protestos de setembro de 2025 no Nepal à luz dos conceitos de violência e agência de Frantz Fanon
Flávia Abud Luz
Nas primeiras semanas de setembro de 2025, o Kathmandu e diversas outras cidades do Nepal foram palco de manifestações massivas — lideradas majoritariamente por jovens da “Geração Z” — que protestavam contra uma ação governamental de bloquear plataformas de redes sociais. Somado a isso temos como cenário de fundo uma sociedade marcada desemprego, desigualdade (social e econômica), corrupção e crises de legitimidade política em um movimento que já foi observado em alguns momentos na história recente de sociedades no Oriente Médio e Norte da África que passaram por processos de questionamento político e social no último quarto do século XX e ao longo das primeiras décadas do século XXI.
Um aspecto central da cobertura midiática dos eventos ocorridos no país asiático foi o questionamento sobre o uso da violência. De um lado foram noticiadas informações de atos violentos por parte de alguns manifestantes. Enquanto que do outro, temos a violência perpetrada por parte das forças de segurança do Estado em sua tentativa de reprimir as mobilizações, fato que gerou até mesmo uma nota de posicionamento do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos[1].
O presente artigo possui como objetivo central analisar, mesmo de que maneira breve, a conjuntura nepalense à luz do pensamento de Frantz Fanon — especialmente sua reflexão sobre violência nos processos de descolonização territorial e epistêmica — para investigar a hipótese de que tais protestos podem ser interpretados como uma forma de contestação do status quo e um sistema político e econômico que ainda reproduz assimetrias de poder — tal como Fanon sugeriria em contextos de colonialismo. Ou seja, embora o Nepal não tenha vivenciado um processo de colonização direta foi historicamente palco de influência e disputa por parte de Estados que buscavam aumentar sua projeção de poder na Ásia. A referida influência e disputa de poder teve consequências significativas para o processo de formação de uma elite político-econômica capaz de ser sensível à influência externa e às pressões da política doméstica também.
Assim, seria possível conjecturar que no pequeno país asiático persistiram as estruturas de poder, hierarquias e modos de dominação que remetem a uma centralização de poder interno; elemento este que os recentes protestos capitaneados pela juventude nepalense buscaram questionar.
Setembro de 2025: eclosão de protestos frente ao congelamento institucional
É crucial analisar as manifestações populares que tomaram as ruas do Nepal em 2025 à luz de um histórico de turbulências políticas e descontentamento que se intensificou após a extinção da monarquia, em 2008. Atos de violência envolvendo as forças de segurança estatais e manifestantes tinham sido de tal gravidade em ações ainda em 2006 (em abril e em novembro), quando o Rei Gyanendra foi retirado do poder e um acordo de cessar fogo foi celebrado entre as forças governamentais e o Partido Comunista Nepal-Maoísta[2]. A mudança para o sistema republicano e a criação da Constituição de 2015 geraram esperanças de participação, equidade social e progresso econômico.
Contudo, a inabilidade dos governos que se seguiram em estabelecer instituições democráticas robustas, juntamente com a divisão entre os partidos e os conflitos internos, culminou em um governo caracterizado por indecisão, corrupção e pouca atenção aos anseios da população. Essa situação incentivou uma crescente descrença nas lideranças políticas, especialmente entre os jovens das cidades, que lideraram os protestos mais recentes.
O crescente descontentamento foi impulsionado pela crise financeira, intensificada pela retração econômica na região e pela forte dependência das transferências de dinheiro de trabalhadores que migraram. Inúmeros jovens, mesmo com boa formação, lutam contra o desemprego ou trabalhos precários, e as áreas rurais permanecem deixadas de lado no que diz respeito à infraestrutura e à disponibilidade de serviços governamentais. A fúria da população cresceu após a resposta brutal do governo, que empregou força letal e bloqueou o acesso às redes sociais por um período.
A impressão de que o governo não apresenta perspectivas de futuro palpáveis – especialmente em uma nação assolada por desigualdades contínuas entre etnias e castas – fomenta um ambiente favorável ao protesto.
A censura online, em especial, carregou um forte significado: em um país onde os jovens se organizam politicamente através de plataformas digitais, a interrupção do acesso à internet foi vista como um golpe direto à liberdade de expressão e ao direito de participação na política, transformando o espaço digital em um novo palco de conflito entre o governo e a população. Assim, as manifestações de 2025 surgem como consequência de uma mistura de decepção socioeconômica e exaustão política que se acumulou.
Frantz Fanon e suas reflexões sobre violência nos processos de descolonização territorial e epistêmica
O pensamento de Frantz Fanon, especialmente em Os condenados da terra (1968), oferece instrumentos teóricos potentes para compreender como estruturas de dominação podem persistir mesmo após o fim de um regime formalmente opressivo. Fanon argumenta que a violência é constitutiva da ordem colonial e que, portanto, a descolonização, para ser efetiva, precisa romper com essa lógica, não apenas no plano institucional, mas também no plano subjetivo.
A violência estrutural — expressa na marginalização de grupos étnicos, castas subordinadas e jovens desempregados — revela a permanência de um sistema que Fanon descreveria como incompatível com a emancipação popular.
Um elemento fundamental na teoria fanoniana é a crítica ao impacto psicológico da dominação. Para ele, o colonizado internaliza a inferioridade, o medo e a passividade. A ação política insurgente, nesse sentido, tem um efeito “catarse libertadora”, permitindo que os sujeitos oprimidos se reconheçam como agentes históricos. mobilização rompe com a apatia induzida por anos de promessas não cumpridas e por estruturas políticas rígidas que limitam a participação popular. A repressão estatal, o controle dos corpos e a criminalização das manifestações revelariam, assim, a intenção as elites políticas de preservar uma ordem que Fanon consideraria “desumanizante”, pois negligencia aos cidadãos a possibilidade de afirmar plenamente sua agência política.
A elite pós-colonial tende a ocupar o lugar do colonizador – reproduzindo as mesmas lógicas de privilégio, clientelismo e exploração que o autor descreve como ações centrais de um grupo que não busca a real transformação da ordem social, mas apenas a administração da estagnação e da assimetria de poder existentes. Tal crítica às ações das elites políticas se converte em uma espécie de alerta: sem participação popular genuína e sem ruptura profunda com a lógica colonial, a independência corre o risco de se tornar apenas formal, deixando intactas as hierarquias sociais e a marginalização das massas.
Protestos nepalenses à luz da teoria fanoniana
As manifestações populares que irromperam no Nepal em setembro de 2025 podem ser vistas como um reflexo moderno das dificuldades persistentes nos processos de descolonização inconclusos. Apesar de o país não ter sofrido uma colonização formal como a europeia, sua história recente revela a continuidade de sistemas de poder que perpetuam desigualdades raciais, de casta, de gênero e de classe — sistemas que, numa perspectiva inspirada em Fanon, mantêm a mentalidade colonial viva sob novas formas.
A juventude nepalense que protagonizou os protestos expressa um movimento que Fanon chamaria de reapropriação da agência política. O bloqueio das redes sociais, determinado pelo governo, não foi apenas uma medida administrativa, mas uma tentativa de controle sobre o espaço discursivo — um gesto de “violência simbólica” que, ao restringir a comunicação e a crítica, reafirma a autoridade do Estado sobre os corpos e as vozes. A reação popular, em contrapartida, pode ser lida como um ato de resistência ontológica: um esforço para romper com a condição de passividade e afirmar a própria voz política.
Nesse sentido, a violência que emerge — tanto a repressão estatal quanto a resistência nas ruas — adquire uma dimensão dialética. No Nepal, a violência institucional do Estado — materializada no uso de força letal contra manifestantes — reflete a incapacidade das elites políticas de lidar democraticamente com o dissenso e a contestação popular. Ao mesmo tempo, a insurreição popular, ainda que não armada, revela a potência política da violência simbólica como forma de ruptura. Essa dialética lembra a análise de Fanon segundo a qual o colonizado só conquista sua humanidade no contexto em que se liberta — um processo que requer enfrentamento, e não conciliação.
O verdadeiro desafio é o momento posterior à revolta — o da reconstrução política e social. Essa análise se encaixa muito bem na situação do Nepal. Depois que a monarquia acabou, o país passou por vários governos de coalizão que não conseguiram colocar em prática ações para dividir a riqueza de forma mais justa ou dar mais voz à população. O sistema de vários partidos do Nepal, onde as regras do jogo ainda são determinadas por figuras antigas e jogos de influência, virou um lugar perfeito para a decepção dos jovens, que esperavam democracia e progresso, e se depararam com um nacionalismo de elite onde o governo ajuda um pequeno grupo de pessoas ricas, em vez de servir a todos.
Visto por esse ângulo, as manifestações de 2025 representam um choque frontal com um projeto específico de nacionalismo e a falta de mudanças significativas, ou seja, evidenciam a grande distância entre uma independência apenas no papel e a verdadeira libertação, entre uma república no plano político e a subordinação econômica e cultural. Assim, a luta atual não é entre colonizador e colonizado, mas entre o povo e as elites que reproduzem o sistema de exclusão — um embate entre a promessa de uma nova sociedade e a realidade de um Estado que resiste à transformação.
A nomeação de um governo interino, conduzido pela Primeira Ministra Sushila Karki ainda em outubro, trouxe consigo a promessa de um tipo de “pacificação” nacional em meio à contante percepção de uma impunidade com relação a uma série de violações de direitos humanos no país, bem como a subsequente impunidade enraizada nas elites políticas locais em momentos de grande convulsão social, como aqueles ocorridos entre 1996 e 2006. Ainda nesse sentido, o governo de Karki[3] se comprometeu a liberar no contexto pós-eleições de março de 2026 uma série de documentos, relatórios e inquéritos sobre tais fatos e afirmou compreender que os chamados protestos da “Geração Z”, ocorridos em setembro de 2025 revelavam justamente a frustração popular com as gestões anteriores e eram um clamor para o desenvolvimento de um novo pacto social e político, voltado para a real melhoria na condição de vida das pessoas.
Em março de 2026 as eleições no Nepal trouxeram um relevante ponto de inflexão: a chegada ao poder nacional de Balendra Balen Shah, uma jovem liderança política fora do contexto tradicional que desde o fim da monarquia era marcado pela manutenção de figuras políticas mais velhas que utilizavam do sistema para a manutenção de privilégios econômicos e políticos.
A vitória de Shah representou uma importante quebra na forma com que o sistema político nepalense se estruturava; mas o mais relevante aqui é não apenas observar tal fato, mas contextualizá-lo, compreender as complexas forças políticas que o tornaram possível, explico. Durante alguns ciclos eleitorais diversos setores da população, principalmente os jovens, demonstraram sua insatisfação com as condições de vida no país: desigualdade social, corrupção, deterioração econômica, elevado índice de desemprego, fato que intensificou o fluxo migratório para outros países.
Em 2022 Shah apareceu no cenário político de Katmandu ao lançar-se como candidato independente e vencer a eleição para prefeito com uma plataforma político-social baseada na demanda por transparência, luta anticorrupção, reformas econômicas e questionamento da estrutura partidária tradicional. Anos mais tarde, e sobretudo após os massivos protestos de 2025, Shah tornou-se uma personificação da vontade de mudança expressa nas ruas.
Contudo, permanecia a dúvida fanoniana: a energia revolucionária da juventude será canalizada para uma transformação estrutural, ou seria absorvida pelas mesmas elites que a reprimiram historicamente?
A resposta à duvida é complexa por conta de aspectos que relacionam a política interna e os interesses geopolíticos mais diretos de potências regionais, a saber a Índia e a China. A Índia historicamente enxerga o Nepal como parte de sua esfera de influência natural, sustentada por uma fronteira aberta, laços comerciais profundos e uma parceria crescente em energia hidrelétrica. A China, por sua vez, ampliou de forma constante sua presença nos últimos anos, financiando corredores de transporte e infraestrutura ligados à Iniciativa Belt and Road, e mais recentemente avançando também sobre áreas como conectividade digital e capacitação da administração pública, terrenos estes antes ocupados quase exclusivamente por doadores ocidentais.
Shah não vem de nenhuma das redes políticas tradicionais que Índia e China aprenderam a lidar ao longo das últimas décadas. Isso não significa uma ruptura na política externa nepalesa, visto que a geografia e a dependência econômica continuam impondo limites reais a qualquer governo em Katmandu, mas abre espaço para uma diplomacia menos previsível, conduzida por uma geração de líderes sem os mesmos vínculos herdados com as elites regionais. Para Índia e China, a incógnita não é se o Nepal vai mudar de lado, mas se vai se tornar um parceiro mais difícil de decifrar.
Quem vai traduzir essa mobilização? Considerações sobre possíveis passos
O Nepal concentra parte considerável das nascentes que alimentam os grandes rios do sul asiático, e seu potencial hidrelétrico ainda pouco explorado é frequentemente citado como peça relevante nas transições energéticas da região. Com o derretimento acelerado das geleiras himalaias e a crescente disputa por recursos hídricos, decisões tomadas em Katmandu sobre gestão da água e comércio transfronteiriço de energia deixam de ser um assunto puramente doméstico, ou seja, passam a ser observados de perto pelos países vizinhos, sobretudo a Índia e a China.
Outro ponto precisa ser destacado é o desmonte de boa parte da cooperação norte americana para o desenvolvimento de programas que sustentavam a sociedade civil, o combate à corrupção e o fortalecimento da governança local nepalesa.
A vitória eleitoral de Balen Shah é, em si, um marco para a política nacional pois demonstra que uma parcela relevante do eleitorado nepalês estava disposta a abandonar partidos tradicionais. No entanto, sabemos que eleições resolvem disputas de poder, não problemas de capacidade estatal, ou seja, ao longo dos próximos meses o governo precisará demonstrar resultados em pelo menos uma frente concreta — como o combate à corrupção, a busca pela geração de emprego ou fortalecimento das instituições locais — sob pena de ver dissolvida rapidamente a energia política que o trouxe ao poder. Em uma região onde clima, água e equilíbrio de poder entre gigantes vizinhos se cruzam de forma cada vez mais tensa, a maneira como Katmandu vai se governar nos próximos anos terá peso que ultrapassa, de longe, as fronteiras do país.
Referências Bibliográficas
AMNESTRY INTERNATIONAL. Nepal: Publish Reports on Violent Crackdowns on Protests. Disponível em: https://www.amnesty.org/ru/documents/asa31/0715/2026/en/ . Acesso em: jul 2026.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.
HUMAN RIGHTS WATCH. Nepal: events of 2006. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2007/country-chapters/nepal. Acesso em: jun 2025.
OFFICE OF THE HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Nepal: Call for prompt, transparent investigation into killings of protesters. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/09/nepal-call-prompt-transparent-investigation-killings-protesters. Acesso em: jul 2026.
Flávia Abud Luz
Professora de Relações Internacionais. Doutora em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Esp. em Política e Relações Internacionais pela FESPSP e Bacharel em Relações Internacionais pela FAAP. Áreas de interesse: Teorias pós-coloniais, Relações Sociais de Gênero, Direitos Humanos e Movimentos de Mulheres, Conflitos Internacionais, Política e Religião, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico); política doméstica libanesa. Autora dos livros " Feminismo Islâmico, Movimentos Sociais e a Reconstrução dos Direitos das Mulheres no Marrocos (Editora Appris, 2025)" e "A apropriação dos conceitos de martírio e jihad pelo Hezbollah e a questão da violência como resistência (Editora Appris, 2020)". Atualmente desenvolve pesquisa acerca das relações entre gênero, religião e Relações Internacionais. Integrante dos grupos de pesquisa Ylê-Educare: Educação e Questões Étnico-Raciais (PPGE/Uninove); Gina - Grupo de Pesquisa em Gênero, Raça e Interseccionalidades; Direito à Educação, Direitos Humanos e Políticas Públicas (UNIAN/SP); Grupo de Estudos e Pesquisa em Movimentos, Interseccionalidade e Políticas Educacionais na América Latina - GEMINAL (Univas/MG). É filiada à Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).
[1] https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/09/nepal-call-prompt-transparent-investigation-killings-protesters
2 Human Rights Watch. Nepal: events of 2006. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2007/country-chapters/nepal






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