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Reflexões sobre Segurança Internacional

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Há um desafio ao se escrever um texto sobre Segurança Internacional que ocupará posição de certa “permanência” no portal do Núcleo de Estudos Multidisciplinar de Relações Internacionais (NEMRI) dos alunos do curso de Pós-Graduação Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). A tarefa requer uma análise mais estrutural, sistêmica e do ponto de vista da teoria dos estudos de segurança do que um estudo de caráter mais conjuntural. Todavia, na atualidade as relações internacionais são testemunhas de acontecimentos de conjuntura que têm desdobramentos sistêmicos.

Retomando os ensinamentos das aulas da disciplina de Segurança Internacional, embora haja divergências quanto ao objeto, há um consenso mínimo entre os estudiosos no sentido de que segurança significa a liberdade de ameaças a valores fundamentais. Os temas de guerra e paz são centrais para a área de conhecimento de Relações Internacionais, a qual, inclusive, surgiu após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com o objetivo de evitar o uso da guerra como um mecanismo para a resolução de conflitos internacionais. Passado mais de um século, esta questão ainda não foi totalmente resolvida e a máxima do clássico estudioso do fenômeno da guerra, Clausewitz, permanece atual: “a guerra é como um camaleão”.

Inicialmente, com o surgimento do moderno Estado-Nação, após a Paz de Westfália (1648), a segurança de um Estado era basicamente entendida como uma segurança nacional de cunho militar, preocupada em proteger o território geográfico contra ameaças e ataques externos. Com o passar do tempo isso muda. Das Ciências Militares, atravessando os Estudos Estratégicos e chegando aos Estudos de Segurança, a sobrevivência em um ambiente de anarquia internacional tem sido assunto fundamental para os praticantes e os estudiosos das relações internacionais. Ultrapassadas as expectativas de uma Nova Ordem Mundial após o fim da Guerra Fria, as rivalidades geopolíticas retornam de maneira expressiva ao centro da política internacional.

Da guerra assimétrica do Onze de Setembro de 2001, passando pelo declínio relativo do poder norte-americano, a configuração de um mundo “G-Zero” (caracterizado pela ausência de liderança) à tomada da Crimeia pela Federação Russa, o tema da segurança internacional foi, é e ainda será um dos cernes das Relações Internacionais, as quais em geral são marcadas na atualidade por uma transição caracterizada por potências “revisionistas” (China, Rússia e Irã), insatisfeitas com o status quo, e uma tendência a um mundo mais policêntrico. O Brasil, inclusive, tem um papel a desempenhar neste campo da segurança internacional.

Talvez a grande característica brasileira seja o seu papel “híbrido” no sistema internacional, isto é, possui características tanto de país em desenvolvimento quanto de país desenvolvido. Isso permite adequada desenvoltura na construção de diálogos em entre os mais ricos e os mais pobres, podendo construir consensos e trazer estabilidade, pilar da segurança internacional. Brasília oscila e tergiversa quanto ao seus papel no mundo, variando de potência média à “grande potência”. De uma contribuição mais do ponto de vista das idéias à uma contribuição mais a la hard power, o Brasil precisa decidir que caminho seguirá, embora sua contribuição à segurança internacional tenha se dado basicamente através da diplomacia, cooperação e das operações de paz.

Para finalizar, o desafio do estudioso da segurança internacional é ter uma visão crítica dos fatos e fenômenos, não aceitando de pronto como verdadeiros discursos dos mais variados que se apresentam como a realidade. Para isso é necessária mente curiosa, discernimento, julgamento, observação, leitura e reflexão. A tarefa do analista de segurança internacional será identificar e realizar as principais perguntas, esclarecer conceitos relevantes, traçar distinções apropriadas, investigar fatos históricos e formular argumentos coerentes e abrangentes. O futuro se mostra bastante promissor e convida a pensar, agir e transformar as relações internacionais.

Colaboração


Bernardo

Analista e Professor de Relações Internacionais (RI), com foco em Geopolítica e Segurança Internacional. Bacharel (IRI-USP) e Mestre (Programa San Tiago Dantas – UNESP, UNICAMP e PUC-SP) em RI, leciona no curso de graduação em RI da FMU-SP e no curso de pós-graduação Política e RI da FESPSP.

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