top of page

As ações de um Império desgastado: doutrina Donroe para América Latina e a instabilidade associada

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • 2 de jul.
  • 14 min de leitura

Flávia Abud Luz


Ao longo do governo Trump 2.0 temos observado fenômenos interessantes que me lembraram alguns trechos da argumentação de Paul Kennedy em Ascensão e Queda das Grandes Potências (ano) em que o autor discute que em momentos de declínio de poder relativo uma potencia tenderia a buscar formar de “reagir”, ou seja, de expressar que contínua relevante para as relações e política internacionais a partir de atos grandiosos de reforço de segurança (considerando a dinâmica de autoajuda em um sistema internacional anárquico). Assim, podemos pensar que em um contexto como o atual em que os Estados Unidos tem perdido espaço para potências como a China, é interessante observar que o primeiro parece assumir a postura descrita por Kennedy ao gastar mais com segurança, aspecto que faz com que a escolha racional da alocação de recursos se volte para elementos voltados ao poder material, ou seja, bélico.

A chamada Doutrina Donroe, estabelecida com a recondução de Donald Trump à presidência dos EUA em 2024, deixou de lado uma postura baseada em cautela e certo distanciamento com relação à política interna dos países da região da América Latina e passou a agir a partir do chamado princípio de excepcionalismo, elemento já observado anteriormente na política externa norte-americana no contexto da Doutrina Monroe (formalizada em 1823), por exemplo, em que em seu contexto inicial tinha como objetivo impedir a atuação espanhola e de outras potências europeias no hemisfério ocidental. Ao passar das décadas a doutrina foi revisitada, tendo talvez o seu auge a partir da atuação do presidente Theodore Roosevelt, que sob a política do “Big Stick” passou usar o pretexto de proteger a segurança da América (enquanto continente) para realizar intervenções de cunho político e militar em países da América Latina e Caribe.

O presente artigo possui como objetivo central analisar, mesmo de que maneira breve, a recente atuação dos EUA na América Latina, considerando seus impactos de curto e médio prazo em temas já complexos para a região, tais como as discussões em torno do conceito de soberania, a estabilidade política interna, a segurança de fronteiras e os crimes transacionais. A hipótese discutida aqui é a de que tais ações (ou até mesmo discursos, como no caso do apoio à Rodrigo Paz na Bolívia) podem ser interpretados como uma forma desesperada dos EUA de evitar a contestação do status quo por potências como a China. Assim, o desgastado império norte-americano caminha a passos largos em uma investida para garantir as “lealdades” políticas locais, garantir recursos naturais e ao mesmo tempo tentar manter a região sob sua influência.

 

 

Excepcionalismo e política externa dos EUA para a América Latina e Caribe

O princípio de excepcionalismo, baseado na ideia de que os EUA (por conta de seus valores de liberdade e democracia) possuem uma missão de liderança no mundo, é um dos pilares da política externa norte-americana. O excepcionalismo teve grande peso político no século XIX e uma forma popular do mesmo foi amplamente difundida a partir da filosofia do Destino Manifesto, uma espécie de crença popular de cunho quase messiânico de que o povo americano seria “guiado por Deus” para expandir seu território por todo o continente americano, entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

Mais do que uma filosofia, o Destino Manifesto mobilizou ações nos campos interno e externo, ou seja, na política interna e na política externa dos EUA ainda ao longo do século XIX. No âmbito interno o maior fato foi justamente a chamada Marcha para o Oeste, um movimento agressivo de ocupação territorial de territórios como a Califórnia e Oregon em um processo que trouxe muita violência com relação às comunidades indígenas existentes nos territórios que passaram a ser alvo da ocupação, bem como com relação aos recursos naturais presentes nos mesmos e que ao serem descobertos foram explorados de forma não sustentável.

No contexto externo é possível destacar o inicialmente pacífico movimento de aquisição de territórios por parte dos EUA a partir de negociações e acordos financeiros com potências europeias na região, como foi o caso da França, da Espanha e da Rússia, países dos quais foram aquiridos por meio de compensações econômicas respectivamente os territórios da Louisiana, da Califórnia e do Alasca.

Além disso, a expansão trouxe à tona processos relevantes para a consolidação territorial norte-americana, tais como a Guerra Mexicano-Americana (entre 1846 e 1848) em que México e EUA apresentavam visões bem particulares sobre os limites territoriais do Texas (considerando que o território englobava também Colorado, Novo México) e buscavam justificar sua presença e controle da região.  

No que diz respeito à atuação na América Latina é possível destacar a Doutrina Monroe (formalizada em 1823), por exemplo, que em seu contexto inicial tinha como objetivo impedir a atuação espanhola e de outras potências europeias no hemisfério ocidental. Com o passar das décadas a doutrina foi revisitada, tendo talvez o seu auge a partir da atuação do presidente Theodore Roosevelt, que sob a política do “Big Stick” passou usar o pretexto de “proteger a segurança da América” (enquanto continente) para realizar intervenções de cunho político e militar em países da América Latina e Caribe. Assim, é possível observar que a doutrina desenvolveu um padrão moral duplo de atuação que ao mesmo tempo que queria “impedir” a projeção de poder de países europeus na região não hesitava em transformá-la em uma espécie de tabuleiro de geopolítica próprio. 

Entre as décadas de 1960 e 1980 a retórica de valores democráticos que norteou o e excepcionalismo norte-americano, principalmente na primeira metade do século XX, se desfez. No contexto da Guerra Fria a defesa abstrata da "democracia" foi substituída por uma lógica que visava priorizar a contenção do comunismo, sob a égide da Doutrina de Segurança Nacional (DSN). Diferentemente das teorias militares tradicionais, que tendiam a ver a figura do inimigo na forma de uma força externa tentando invadir as fronteiras do Estado, a DSN o perigo real estaria dentro do território, ou seja, sob a lógica da Guerra Fria, qualquer forma de ação compreendida como dissidência política (tais como movimento social, sindicato, grupo estudantil ou intelectual) era rotulada como “subversiva”. Assim, a nova lógica de inimizade passou a ter o próprio cidadão que questionasse a ordem estabelecida como principal alvo.

A DSN moldou a política externa dos EUA para a América do Sul ao treinar as forças armadas de diversos países da região a partir da Escola das Américas, ao promover o combate ao "inimigo interno" (dissidentes políticos, movimentos sociais e guerrilhas) e a inteligência americana também foi conivente com a rede de repressão clandestina transnacional que resultou em diversas execuções, torturas e desaparecimentos.

O retorno de Donald Trump à Casa Branca consolidou uma mutação profunda no uso do excepcionalismo: a retórica tradicional de “exportar a democracia” e atuar como a “liderança do mundo livre” foi amplamente abandonada em prol de um nacionalismo rígido, sintetizado no slogan “America First” e oficializado na Estratégia de Segurança Nacional baseada em três elementos centrais.

Primeiro, a atuação de Trump para a região deixou de ser pautada pelo desenvolvimento econômico ou ajuda humanitária (com cortes drásticos no orçamento da USAID), algo observado nos governos anteriores. Em vez disso, Trump focou-se na discussão sobre a segurança doméstica dos EUA. Sob a justificativa de combater o narcotráfico e o crime organizado, a administração passou a agir de forma agressiva e unilateral, exemplificada pela intensificação da Operação Southern Spear no Caribe e no Pacífico Leste, que recorre a bloqueios navais e demonstrações de força.

Segundo, o desenvolvimento de medidas de sufocamento econômico e isolamento contra países como Cuba, Nicarágua e Venezuela, ação que esteve alinhada às ações diretas e unilaterais nas rotas caribenhas, bem como o bloqueio total a navios petroleiros sancionados.

E o terceiro elemento se manifestou no estabelecimento de alianças ideológicas com governos alinhados à direita na região, tornando os EUA um parceiro prioritário (em uma tentativa de isolar a ação da China na região) a partir do condicionamento comercial à cooperação absoluta na contenção de fluxos migratórios.

Discurso e tentativa de contenção das manifestações populares na Bolívia

            A recente estratégia norte-americana para a Bolívia foca em três grandes eixos interligados: a corrida global pelos recursos minerais, a contenção de rivais extrarregionais e o realinhamento ideológico na América do Sul. Tal desenho estratégico pode ser considerando por conta de uma mudança central na Bolívia: a derrota eleitoral do partido MAS (Movimento ao Socialismo) no pleito presidencial realizado no segundo semestre de 2025 e a subsequente posse de Rodrigo Paz, que em suas primeiras ações como governante já retomou canais diplomáticos entre La Paz e Washington que estavam inoperantes há anos.

            De um ponto de vista pragmático o eixo mais relevante da estratégia norte-americana parece ser mesmo a corrida por recursos minerais, considerando que a Bolívia possui as maiores reservas conhecidas de lítio do mundo (Ledebur e Weinthal, 2025) e é justamente a magnitude desse estoque que atrai o interesse predatório de corporações transnacionais e potências estrangeiras na corrida pela descarbonização.

Apesar de deter esse estoque massivo concentrado no Salar de Uyuni, a Bolívia enfrenta imensos desafios socioeconômicos e tecnológicos para transformá-lo em produção efetiva. Desde 2010, o país adotou uma estratégia de extração liderada pelo Estado (através da estatal Yacimientos de Litio Bolivianos - YLB), mas nos últimos anos começou a assinar contratos complexos com investidores estrangeiros para tentar viabilizar a industrialização desse estoque. Tal mudança de atuação por parte do governo boliviano transformou a região em um laboratório de alto risco para os direitos indígenas, pois a pressão geopolítica e o interesse predatório global em acessar a quantidade imensa de minerais críticos atropelou os processos de consulta prévia locais, ou seja, os direitos das comunidades indígenas locais têm sido desrespeitados.

            Sob a liderança de Donald Trump e do governo de Rodrigo Paz foram firmadas negociações para construir acordos de cooperação tecnológica que ampliariam a presença norte-americana como importante ator na Bolívia, sobretudo pela promessa de investimentos financeiros e tecnológicos para impulsionar a produção boliviana, que historicamente ficou muito atrás de vizinhos como o Chile e a Argentina.

            O segundo eixo da atuação do governo de Trump na Bolívia está diretamente relacionado ao primeiro e em suma visa garantir a contenção de rivais extrarregionais, ou seja, conter a ação de atores como China e Rússia, visto que ao longo das décadas de governo liderado pelo partido MAS (Movimento ao Socialismo) tais países aproximaram-se da Bolívia em negociações relacionadas à extração direta do lítio. A aproximação gerou a celebração de consórcios com as estatais chineses (como a CBC) e russos (Uranium One).

            Considerando os objetivos geopolíticos dos EUA na região da América do Sul o interesse geopolítico atual de Washington é usar o novo governo de centro-direita em La Paz para enfraquecer ou revisar os supramencionados contratos, limitando a presença de tecnologia e capital chinês e russo em setores estratégicos e na infraestrutura crítica do continente.

            Já o último eixo de atuação, o realinhamento ideológico na América do Sul, está relacionada à percepção do governo norte-americano de que a orientação política da Bolívia afeta diretamente o equilíbrio de poder regional. A aproximação de La Paz com Washington serviria, assim, para fortalecer um bloco de governos alinhados ao espectro liberal-conservador e pragmático na região, complementando o diálogo que os EUA mantêm com outros governos de direita e centro-direita na América do Sul, tais como a Argentina sob a liderança de Javier Milei.

            Esse “realinhamento político-ideológico” gerou uma forte reação da sociedade civil boliviana:  o governo de Rodrigo Paz passou a enfrentar uma intensa onda de protestos, greves e rebeliões sociais lideradas por movimentos indígenas, mineradores e sindicatos ligados ao MAS e a Evo Morales, que contestam as agendas de privatização e a forte inflação. E recentemente, no dia 20 de junho de 2026[1], após cerca de 50 dias de protestos e convulsão social, o presidente boliviano Rodrigo Paz declarou estado de emergência, medida esta que conferiu ao presidente poderes constitucionais para “restaurar a ordem”, tais como o envio de forças armadas para garantir a liberação de áreas e estradas que vivem bloqueios.  

O interesse dos EUA, assim, também reside em monitorar e tentar garantir a estabilidade do governo aliado frente ao risco de convulsão social, visto que as atuações dos manifestantes foram inclusive descritas em manifestação recente do governo norte-americano como uma “ameaça à segurança e à democracia” boliviana.

As garras da águia chegam ao norte do Brasil: a recente classificação do CV e do PCC como terroristas pela Casa Branca

A recente classificação das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas por parte do governo dos EUA reforça a ingerência do governo Trump na região da Pan-Amazônia, sobretudo ao justificar tal ação como parte do “compromisso” da referida administração com relação ao enfrentamento às organizações criminosas que atuam em diferentes vértices dos crimes transnacionais, mas sobretudo no narcotráfico. Para compreender melhor os últimos fatos são importante analisarmos todos os elementos que compõe a conjuntura.

Primeiro, a decisão tomada pela Casa Branca na última semana de maio de 2026 possui um importante fator ligado ao possível desenvolvimento de ações unilaterais por parte dos EUA para “neutralizar ameaças” à sua segurança, ou seja, estaríamos diante da formação de um discurso, movido pelos EUA, que visa securitizar um tema (no caso seria teoricamente o combate ao narcotráfico e crimes transnacionais correlatos na região da pan-amazônia) e garantir assim que qualquer atitude tomada para interceptar aeronaves, barcos vindos do Brasil em espaço aéreo ou marítimo internacional.

Segundo, e diretamente vinculado ao tópico anterior, está o perigoso precedente de tais interceptações ou intervenções “menores” abram espaço para uma espécie de “tutela” do território brasileiro, desafiando a sua soberania para tratar do tema da violência e crimes relacionados às ações das organizações criminosas (CV e PCC) no país. Aqui o que pode ser discutido é justamente o questionamento da soberania territorial brasileira, ou seja, o fato de que um ator externo (os EUA) pode ingerir em aspectos da gestão populacional e da violência que configuram aspecto central da soberania estatal e que pautou o desenvolvimento dos Estados modernos.

Ressurge, assim, a já questionada ideia da soberania compartilhada, baseada na possibilidade de cooperação entre Estados em uma determinada temática, flexibilizando a noção de soberania mais restrita. Tal discussão também acende a reflexão sobre o que seria a erosão da soberania estatal, considerando que em alguns territórios que são controlados por organizações criminosas o próprio Estado possui dificuldades de atuar e exercer seu poder, seja por meio da aplicação das leis ou mesmo por meio de políticas públicas ou serviços básicos (saneamento, segurança).

A forma com que a Casa Branca atuou ao classificar o CV e o PCC gerou, em certa medida, ruídos e obstáculos nas relações bilaterais entre ambos os países, sobretudo se observamos que o governo brasileiro e o norte-americano tinham há pouco menos de dois meses firmado uma cooperação internacional pelo Projeto MIT (Mutual Interdiction Team), oficializado no site do governo brasileiro em 10 de abril de 2026, em que a Receita Federal Brasileira e a agência de fronteiras norte-americana tinham se comprometido a trocar informações de inteligência para interceptar remessas ilícitas de dinheiro e armamento. A iniciativa foi fruto de uma aproximação entre EUA e o Brasil ainda em janeiro de 2026, momento em que ambos os países discutiram a possibilidade de ações mais efetivas entre ambos para lidar com as diversas frentes de ação criminosa, sobretudo na Tríplice Fronteira. No entanto, a recente ação unilateral norte-americana invisibiliza uma iniciativa conjunta que parecia promissora e ao mesmo tempo fragiliza o governo brasileiro, que passa a ser cobrado a desenvolver medidas mais energéticas para lidar com a segurança regional (pensando em um recorte da Pan-Amazônia, por exemplo) e fazer frente às diversas ações criminosas desenvolvidas pelas facções que atuam em território nacional.

É importante ressaltar também que a atualmente a Lei Antiterrorismo no Brasil é restrita em sua definição de terrorismo, visto que enquadra como tal apenas práticas ou atos violentos que sejam motivados por elementos como xenofobia e discriminação (baseada em cor, raça, etnia ou religião) e que possuam o intuito de gerar certa desordem social. Assim, as organizações criminosas como CV e PCC não são classificadas como terroristas pelo Estado brasileiro, sobretudo considerando que a motivação financeira (lucros por mio do tráfico de drogas, armas e outros crimes financeiros, como lavagem de dinheiro e especulação imobiliária) é o principal elemento que ainda as mantém na “categoria” de facção criminosa.

No dia 02 de junho de 2026 deputados protocolaram na Câmara dos Deputados projetos de lei que visam mudar a forma com que o Brasil lida com o tema das facções criminosas e suas atividades. O surgimento de tais projetos reforça uma percepção de que o governo brasileiro irá sofrer uma pressão interna também no que diz respeito a referida temática. Entre os projetos apresentados figuram a revisão da Lei Antiterrorismo (de 2016), considerando uma mudança na definição de terrorismo vigente; enquanto outro projeto trata da discussão da Lei de Migração (de 2017), considerando as possíveis implicações de restrição da entrada para as pessoas que possuam qualquer tipo de vínculo comprovado com organizações criminosas.

Considerando a atuação conjuntura e a existência do Projeto MIT (Mutual Interdiction Team) é possível apontar também que o único possível ponto de cooperação entre EUA e Brasil seria a ação para conter o fluxo de dinheiro levado do país para paraísos fiscais, ou seja, a asfixia financeira das atualmente classificadas facções criminosas seria um ponto de convergência.

A partir dos últimos desenvolvimentos podemos pensar sobre os impactos econômicos, militares e logístico-operacionais mais diretos para o Brasil, sobretudo aos estados da região norte, explico. Considerando que a região é um ponto crucial da logística da Pan-Amazônia e, no caso do Amazonas é vizinho direto dos maiores produtores de drogas da região (Peru e Colômbia), é possível que a recente ação da Casa Branca traga, no aspecto econômico-logístico, faça com que empresas que operam nos setores de transporte fluvial, aviação, comércio de combustíveis e de alguns insumos agrícolas tenham que lidar com uma fiscalização mais intensa, ou seja, medidas mais rígidas de auditorias/compliance, já que a partir da definição de terrorismo da Casa Branca o simples envolvimento com atividades vinculadas às organizações CV e PCC, ainda que por meio de extorsão ou coerção, pode fazer com que pessoas e empresas sejam “enquadradas” como agentes que financiam atividades de terrorismo.

Com relação ao aspecto militar, é possível destacar que para fazer frente às acusações de incapacidade de proteger suas fronteiras o governo brasileiro busque intensificar as ações em tais áreas, sobretudo na Tríplice Fronteira, o que deve gerar um aumento no contingente militar e no orçamento destinado à defesa. Assim, seriam esperadas maiores atuações nas calhas dos rios Solimões, Negro e Japurá. E por último, ainda no tópico militar e econômico podemos pensar no aumento da pressão advindas das cidades de fronteira (como Tabatinga-Letícia-Santa Rosa) por possíveis operações de contraterrorismo nas fronteiras, aspecto que pode elevar a violência e os custos logísticos na região.

As ações de um Império desgastado

Ao longo do presente artigo busquei analisar, mesmo de que maneira breve, a recente atuação dos EUA na América Latina, considerando seus impactos de curto e médio prazo em temas já complexos para a região, tais como as discussões em torno do conceito de soberania, a estabilidade política interna, a segurança de fronteiras e os crimes transacionais.

A hipótese discutida aqui se confirma a partir do momento em que observamos a postura desesperada dos EUA de evitar a contestação do status quo na região da América do Sul por potências como a China e ao mesmo tempo garantir o acesso à minerais críticos, como é o caso da atuação na Bolívia. No caso do Brasil, a insistência dos EUA em interferir em processos locais, no caso trazer a questão da qualificação das facções criminosas como terroristas, representa o interesse norte-americano em garantir acesso à Amazônia e estabelecer governos de lealdade na América do Sul. Assim, o desgastado império norte-americano caminha a passos largos em uma investida para garantir as “lealdades” políticas locais, garantir recursos naturais e ao mesmo tempo tentar manter a região sob sua influência que paradoxalmente representa o questionamento de seu poder na região.

 

 

Referências

HAESBAERT, Rogério; BÁRBARA, Marcelo de Jesus. Da Doutrina Monroe à “Doutrina Donroe”: breve análise da territorialização geopolítica colonial-imperial dos estados unidos no “hemisfério ocidental”. GEOgraphia, Niterói, v. 28, n. 60, 2026.

LEDEBUR, Kathryn; WEINTHAL, Erika. Critical minerals governance in Bolivia: Prior consultation, rights, and international standards. Environment and Security, [s. l.], v. 2, nov. 2025.

 


Flávia Abud Luz

Professora de Relações Internacionais. Doutora em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Esp. em Política e Relações Internacionais pela FESPSP e Bacharel em Relações Internacionais pela FAAP. Áreas de interesse: Teorias pós-coloniais, Relações Sociais de Gênero, Direitos Humanos e Movimentos de Mulheres, Conflitos Internacionais, Política e Religião, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico); política doméstica libanesa.  Autora dos livros " Feminismo Islâmico, Movimentos Sociais e a Reconstrução dos Direitos das Mulheres no Marrocos (Editora Appris, 2025)" e "A apropriação dos conceitos de martírio e jihad pelo Hezbollah e a questão da violência como resistência (Editora Appris, 2020)". Atualmente desenvolve pesquisa acerca das relações entre gênero, religião e Relações Internacionais. Integrante dos grupos de pesquisa Ylê-Educare: Educação e Questões Étnico-Raciais (PPGE/Uninove); Gina - Grupo de Pesquisa em Gênero, Raça e Interseccionalidades; Direito à Educação, Direitos Humanos e Políticas Públicas (UNIAN/SP); Grupo de Estudos e Pesquisa em Movimentos, Interseccionalidade e Políticas Educacionais na América Latina - GEMINAL (Univas/MG). É filiada à Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).

 


Comentários


NOSSOS HORÁRIOS

Segunda a Sábado, das 09:00 às 19h.

VOLTE SEMPRE!

NOSSOS SERVIÇOS

Siga nossas redes sociais!

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram

O CERES é uma plataforma para a democratização das Relações Internacionais onde você é sempre bem-vindo!

- Artigos

- Estudos de Mercado

- Pesquisas

- Consultoria em Relações Internacionais

- Benchmarking

- Palestras e cursos

- Publicações

© 2021 Centro de Estudos das Relações Internacionais | CERESRI - Imagens By Canvas.com - Free Version

bottom of page