Belarus e a estratégia russa no conflito da Ucrânia: valor estratégico, dilemas e possíveis desdobramentos
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Eduardo Correia Leal
Introdução
No mês de junho de 2026, observa-se uma intensificação do suporte prestado por Belarus à Rússia. Minsk, que desde o início da guerra consolidou-se como um dos principais aliados estratégicos de Moscou, vem ampliando gradualmente sua cooperação em áreas como infraestrutura militar, logística, treinamento de tropas, integração entre as indústrias de defesa, apoio econômico e coordenação estratégica. Embora o país continue evitando um envolvimento direto nas operações de combate, as recentes movimentações indicam um aprofundamento de sua participação no esforço de guerra russo, podendo indicar um aumento da possibilidade de Belarus obter um papel mais ativo no conflito.
Nesse contexto, as mudanças observadas em Belarus podem representar novos paradigmas para a dinâmica do conflito. A construção e expansão de bases militares, a ampliação de campos de treinamento, o fortalecimento da presença e da integração militar russa, além de um processo gradual de militarização interna, demonstram que Minsk vem aumentando sua capacidade de apoiar Moscou em diferentes frentes, ainda que isso não signifique, necessariamente, uma entrada imediata na guerra.
Nesse contexto, surgem dúvidas acerca da postura de Belarus em relação ao conflito, e como tal postura pode influenciar novas dinâmicas no teatro de operações e futuro da guerra.
Contexto histórico
A aproximação entre Rússia e Belarus antecede em muito o atual conflito russo-ucraniano. Desde a criação da União Estatal entre os dois países, no final da década de 1990, Moscou e Minsk desenvolveram uma relação marcada por forte integração política, econômica e militar. Exercícios conjuntos tornaram-se frequentes, os sistemas de defesa passaram a operar de forma cada vez mais coordenada e Belarus consolidou-se como o principal aliado russo na Europa Oriental.
Esse processo ganhou intensidade após a crise política de 2020, quando Alexander Lukashenko enfrentou grandes manifestações internas que contestavam sua permanência no poder. O isolamento internacional imposto ao governo bielorrusso aumentou sua dependência em relação ao Kremlin, o que consequentemente fortaleceu ainda mais os laços entre os dois países, ampliando a influência russa sobre decisões estratégicas tomadas em Minsk.
Quando a invasão da Ucrânia teve início, em fevereiro de 2022, Belarus desempenhou um papel decisivo para a estratégia russa. Seu território foi utilizado como ponto de concentração de tropas, corredor logístico e plataforma para o lançamento de ataques contra alvos ucranianos, especialmente durante a ofensiva em direção a Kiev. Embora as Forças Armadas bielorrussas não tenham participado diretamente dos combates, o apoio oferecido por Minsk permitiu à Rússia abrir um dos principais eixos da invasão.
Nos anos seguintes, Lukashenko procurou manter esse equilíbrio pragmático. Por um lado, preservou sua aliança política com Moscou e continuou oferecendo infraestrutura, apoio logístico e cooperação militar. Porém, por outro, evitou envolver diretamente as tropas bielorrussas no conflito, buscando reduzir os riscos políticos internos de uma participação formal no conflito. Essa postura também demonstrava a percepção estatal de que uma entrada direta poderia aumentar a pressão da sociedade civil, ampliar o isolamento internacional de Belarus e transformar o próprio território bielorrusso em alvo de operações militares ucranianas, que poderiam causar danos à infraestrutura crítica do país.
Enquanto isso, a integração entre os dois países continuou avançando. A presença militar russa tornou-se mais permanente, Belarus passou a integrar aspectos da estratégia nuclear russa e a cooperação entre as indústrias de defesa dos dois países ganhou novos níveis de profundidade, tornando cada vez mais difícil separar as capacidades militares russas das estruturas estratégicas bielorrussas.
Contexto atual
As movimentações observadas ao longo de junho de 2026 podem sugerir que essa integração entrou em uma nova etapa. Em vez de uma mobilização imediata para uma nova ofensiva terrestre, o que se demonstra é um processo contínuo de fortalecimento da capacidade militar de Belarus. Novas bases vêm sendo construídas, campos de treinamento estão sendo ampliados e diferentes instalações destinadas ao apoio de tropas passaram a ser desenvolvidas no interior do país.
Ao mesmo tempo, Belarus também passa por mudanças internas que indicam um processo mais amplo de militarização. Nos últimos meses foram observadas iniciativas voltadas para a expansão das reservas militares, alterações na legislação de defesa, fortalecimento da preparação militar da sociedade e maior mobilização de instituições civis para atividades relacionadas à segurança nacional. Somadas à ampliação da cooperação militar com a Rússia, essas medidas sugerem que Minsk busca aumentar sua capacidade de sustentar operações militares caso o ambiente estratégico assim o exija.
Outro aspecto importante é o aprofundamento da participação bielorrussa no esforço de guerra russo sem o envio direto de tropas. Empresas do complexo industrial de defesa de Belarus passaram a fornecer componentes empregados em sistemas de mísseis, drones, equipamentos de guerra eletrônica e defesa antiaérea, enquanto refinarias bielorrussas ganharam crescente importância para o abastecimento energético da Rússia após sucessivos ataques ucranianos contra instalações localizadas em território russo. Dessa forma, Belarus amplia sua contribuição para a sustentação da guerra mesmo permanecendo oficialmente fora das operações de combate.
Essa evolução ocorre em um momento particularmente sensível do conflito. Os ataques de longo alcance tornaram-se mais frequentes, drones e mísseis passaram a atingir com maior intensidade tanto Kiev quanto Moscou, e os dois lados procuram ampliar suas vantagens estratégicas e capacidades de defesa e ataque como forma de preparo a retaliações entre si. Nesse ambiente, qualquer alteração na postura de Belarus tende a produzir impactos que ultrapassam sua própria capacidade militar, afetando diretamente o planejamento estratégico da Rússia e da Ucrânia.
Embora até o momento não sejam apresentadas declarações ou evidências formais que sugiram a entrada bielorrussa no conflito de forma direta, a Ucrânia vem demonstrando estar alerta a possibilidade. Isso pode ser evidenciado com o reforço de fortificações na fronteira norte, ampliamento de sistemas de vigilância, instalação de novos obstáculos defensivos e intensificação do seu monitoramento das atividades militares em Belarus. As medidas demonstram que, embora uma nova frente de combate não seja considerada inevitável, o fortalecimento gradual da integração entre Minsk e Moscou já produz efeitos concretos sobre o planejamento militar ucraniano e sua percepção em relação à Belarus.
O valor estratégico de Belarus e possibilidades para o futuro
A relevância estratégica de Belarus para a Rússia vai além da possibilidade de uma eventual participação direta de Minsk nas operações militares. Sua principal contribuição reside na combinação entre posição geográfica privilegiada, integração militar, capacidade logística e apoio ao esforço industrial de guerra russo, fatores que ampliam significativamente as opções estratégicas disponíveis ao Kremlin.
Sob o aspecto geográfico, Belarus ocupa uma posição de alta importância no teatro de operações da Europa Oriental. Por possuir extensa fronteira com a Ucrânia e localizar-se relativamente próxima à capital Kiev, o território bielorrusso representa uma plataforma estratégica para o emprego de diferentes capacidades militares russas. Por exemplo, a utilização desse espaço para o lançamento de ataques aéreos e com mísseis reduz o tempo de reação das defesas ucranianas, amplia as direções de onde os ataques podem ser conduzidos e aumenta a complexidade do planejamento defensivo de Kiev. Ainda que a defesa antiaérea ucraniana tenha evoluído significativamente desde 2022, a diversificação dos vetores e locais de origem de ataques podem ser benéficas à Moscou, por diminuir a previsibilidade de ataque e dificultar o tempo de reação das defesas ucranianas. Além disso, Belarus também mantém um importante eixo potencial para operações terrestres. Embora a ofensiva conduzida a partir do território bielorrusso nos primeiros meses da guerra não tenha alcançado seus objetivos, especialmente diante da resistência ucraniana e das dificuldades logísticas encontradas pelas forças russas, a proximidade geográfica com Kiev continua conferindo relevância estratégica à região. Atualmente, a Ucrânia reforçou significativamente suas defesas ao longo da fronteira norte, por meio da construção de fortificações, instalação de obstáculos, campos minados, cercas de proteção e outras medidas de contingência. Ainda assim, a possibilidade de uma nova ofensiva faz com que Kiev precise manter efetivos militares, sistemas de defesa aérea e recursos logísticos permanentemente mobilizados nesse setor, reduzindo a disponibilidade desses meios para outras frentes de combate, como na região do Donbass, o que consequentemente ajuda na manutenção russa de preservar seus territórios conquistados.
Paralelamente, Belarus consolidou-se como importante elemento de sustentação da máquina de guerra russa. Além de disponibilizar infraestrutura militar, centros de treinamento e capacidade logística, observa-se um aprofundamento da cooperação entre as indústrias de defesa dos dois países, com empresas bielorrussas participando da produção, manutenção e fornecimento de equipamentos empregados pelo esforço militar russo. As recentes informações sobre a expansão de bases militares, campos de treinamento e outras instalações em território bielorrusso reforçam essa tendência de integração estrutural entre Moscou e Minsk, ainda que não indiquem, por si só, uma ofensiva imediata.
Caso Belarus venha a ampliar sua participação no conflito, inclusive por meio do emprego direto de suas Forças Armadas, um novo conjunto de dinâmicas poderá emergir no teatro de operações. A abertura de um novo front ao norte da Ucrânia implicaria Kiev a redistribuir parte de seus recursos militares, produzindo um potencial alívio operacional para as forças russas nas regiões atualmente mais disputadas, especialmente no leste do país. Sob essa perspectiva, a ampliação da participação bielorrussa poderia contribuir para reduzir parte da pressão exercida sobre posições russas no Donbass, além de oferecer maior flexibilidade ao planejamento estratégico de Moscou.
Do ponto de vista econômico e logístico, uma participação mais intensa de Belarus também poderia ampliar sua contribuição ao esforço de guerra russo. Embora a capacidade econômica bielorrussa seja significativamente inferior à da Russa, o aprofundamento da cooperação industrial, da produção de equipamentos militares e da utilização compartilhada de infraestrutura logística contribuiria para fortalecer a sustentação das operações russas em uma conjuntura marcada pelo alto desgaste provocado por mais de quatro anos de conflito e pelo impacto das sanções internacionais, que já demonstram insatisfação crescente internamente na sua sociedade civil.
Entretanto, essa possibilidade também apresenta custos e riscos consideráveis para Moscou. A entrada formal de Belarus na guerra poderia estimular uma intensificação do apoio militar europeu à Ucrânia, fortalecendo o consenso político em torno da continuidade da assistência ocidental e ampliando o fornecimento de armamentos, treinamento e recursos financeiros. Em um contexto recente marcado pelo aumento da intensidade dos ataques contra grandes centros urbanos, incluindo bombardeios direcionados a Kiev e Moscou, a ampliação do conflito tenderia a elevar os riscos de escalada regional, distanciando o conflito de um fim.
O dilema biolorusso
Para Belarus, como já mencionado anteriormente, esse cenário também representa um importante dilema estratégico. Embora a crescente integração política, econômica e militar com a Rússia tenha ampliado significativamente sua participação no esforço de guerra, uma entrada formal no conflito poderia produzir consequências consideráveis para Minsk. Entre elas destacam-se a ampliação da pressão interna sobre o governo de Alexander Lukashenko, o aprofundamento do isolamento internacional, o aumento dos custos econômicos decorrentes de uma mobilização militar mais ampla e, sobretudo, a possibilidade de que o território bielorrusso passe a figurar como alvo direto de operações ucranianas contra instalações militares e infraestrutura estratégica.
Por outro lado, a permanência fora das operações de combate também apresenta desafios. Desde a crise política de 2020, o governo de Lukashenko tornou-se cada vez mais dependente do apoio político, econômico e de segurança oferecido por Moscou. Essa relação reduz parte da autonomia estratégica de Minsk e amplia a capacidade da Rússia de exercer pressão para um aprofundamento da cooperação militar, especialmente em momentos nos quais o Kremlin busca ampliar suas alternativas estratégicas no conflito.
Nesse contexto, Belarus encontra-se diante de um equilíbrio delicado. Ao mesmo tempo em que procura preservar sua estabilidade interna e evitar os custos de uma participação direta no conflito, também necessita manter sua relação estratégica com a Rússia, principal aliada externa do atual governo. As recentes medidas de militarização observadas no país, como a expansão da infraestrutura militar, o fortalecimento das reservas, alterações na legislação de defesa e a ampliação da cooperação entre as estruturas militares e industriais dos dois países, demonstram que Minsk vem aumentando gradualmente sua capacidade de apoiar Moscou. Ainda que essas mudanças não representem uma decisão definitiva de ingressar no conflito, elas ampliam as opções disponíveis ao governo bielorrusso e tornam mais plausível um aprofundamento de sua participação caso o contexto estratégico venha a exigir.
Conclusão
As recentes movimentações observadas em Belarus evidenciam um aprofundamento gradual de sua integração ao esforço de guerra russo. A ampliação da infraestrutura militar, o fortalecimento da cooperação entre as estruturas de defesa dos dois países, o crescimento da participação bielorrussa na indústria militar e as mudanças internas voltadas à militarização demonstram que Minsk vem expandindo suas capacidades de apoio à Rússia muito além do campo político e diplomático, o que consequentemente abre questionamentos acerca de um aumento de seu papel na guerra.
Ao longo do conflito, Belarus consolidou-se como um importante elemento da estratégia russa, oferecendo vantagens geográficas, logísticas, industriais e operacionais que ampliam as possibilidades de atuação de Moscou. Ainda que uma entrada formal de suas Forças Armadas represente apenas um dos cenários possíveis, o fortalecimento dessa parceria já produz impactos concretos sobre o planejamento militar ucraniano, fazendo com que Kiev tenha que manter recursos significativos na fronteira norte e adaptar continuamente suas medidas de defesa.
Porém, qualquer aprofundamento da participação bielorrussa tende a produzir consequências para todos os atores envolvidos. Para a Rússia, a abertura de novas possibilidades estratégicas pode representar vantagens operacionais, mas também ampliar os riscos de escalada e estimular uma intensificação do apoio ocidental à Ucrânia. Para Belarus, ao mesmo tempo em que sua dependência em relação a Moscou aumenta a pressão por uma cooperação mais profunda, uma entrada direta na guerra poderia gerar elevados custos políticos, econômicos e militares, colocando em risco sua própria estabilidade interna.
Assim, o debate sobre Belarus não deve limitar-se à possibilidade de sua entrada formal na guerra, mas à forma como sua crescente integração com a Rússia vem ampliando as alternativas estratégicas disponíveis ao Kremlin. Ao mesmo tempo que persistem incertezas quanto ao grau de envolvimento que Minsk poderá assumir nos próximos meses, também torna-se evidente que Belarus já desempenha um papel estratégico de grande relevância para a condução do conflito. Assim, qualquer alteração em sua postura terá potencial para influenciar não apenas a dinâmica militar do conflito, mas também seus desdobramentos políticos subsequentes.
Referências:
LIUBAKOVA, HANNA. https://www.atlanticcouncil.org/blogs/ukrainealert/belarus-is-quietly-preparing-to-play-a-larger-role-in-russias-ukraine-war/. Atlantic Council, 25 Jun. 2026. Acesso em: 29 jun. 2026.
SAVIC, Nina. https://www.kyivpost.com/post/78989. Kyev Post, 25 jun. 2026. Acesso em: 29 jun. 2026.
BEAUMONT, Peter. https://www.theguardian.com/world/2026/jun/18/ukraine-bolsters-its-northern-defences-amid-fears-belarus-is-being-dragged-into-war. The Guardian, 18 jun. 2026. Acesso em: 29 jun. 2026.
ROMANENKO, Valentyna. https://www.pravda.com.ua/eng/news/2026/06/26/8041202/index.amp. Ukrainska Pravda, 26 jun. 2026. Acesso em: 29 jun. 2026.
RASPE, Jonathan; PEROVIĆ, Jeronim. Belarus in the shadow of Russia’s War in Ukraine. Zurique. ETH Zurich Research Collection, 2026.

Eduardo Correia Leal Maranhão
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade La Salle (RJ), com interesse em política externa, geopolítica e segurança internacional. Atua como pesquisador da região Europa no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval e realizou estágio voluntário no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, com apoio a treinamentos de peacekeepers da ONU. Foi medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Geopolítica, promovida pela Seleta Educação, e obteve desempenho de alta performance na Odisseia Brasileira de Diplomacia e Relações Internacionais, promovida pelo Grupo Ubique Júnior.
Link LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/eduardo-correia-857851353





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