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Geopolítica: eventual desgaste dos EUA no Irã representa um risco para Cuba

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    CERES
  • há 14 minutos
  • 4 min de leitura

Luis Augusto Medeiros Rutledge

Geopolítica Energética

 

À medida que o conflito no Oriente Médio se intensifica, cresce também a pressão sobre a Casa Branca para demonstrar força e resultados concretos no cenário internacional. Em contextos de guerra ou instabilidade prolongada, governos tendem a buscar vitórias políticas, militares ou diplomáticas que reforcem sua posição interna e sua credibilidade externa.

 

A ideia de que dificuldades dos Estados Unidos no Irã possam representar um risco para Cuba faz sentido dentro de uma leitura geopolítica mais ampla, especialmente quando se observa o encadeamento de crises energéticas.

 

Nesse ambiente, o presidente Donald Trump pode redirecionar sua atenção para regiões historicamente sensíveis à política externa americana, como Cuba. A ilha, devido à sua proximidade geográfica e ao histórico de tensões com os Estados Unidos, especialmente desde a Revolução Cubana, continua sendo um ponto estratégico de influência no hemisfério ocidental.

 

Vale lembrar que a região ocidental, especialmente Cuba, registrou ao longo da última década um aumento consistente de investimentos oriundos da China em setores estratégicos. Esses aportes se concentraram principalmente em infraestrutura, energia, telecomunicações e modernização portuária, ampliando a presença econômica chinesa no Caribe. Porém, a atual asfixia energética fez tudo desmoronar.

 

Uma eventual frustração estratégica dos Estados Unidos em um confronto direto ou indireto com o Irã tenderia a gerar pressões políticas internas e externas sobre a Casa Branca para recompor sua capacidade de dissuasão e liderança global. Nesse contexto, Cuba poderia emergir como alternativa dentro de uma lógica de reposicionamento geopolítico no hemisfério ocidental.

 

Do ponto de vista geopolítico, alguns fatores estruturais explicam essa possível movimentação. Cuba permanece como um dos poucos países do continente americano fora da órbita direta de influência de Washington, com forte carga histórica desde a Crise dos Mísseis de Cuba. Uma ação mais assertiva na ilha teria impacto imediato na percepção de controle regional por parte dos EUA.

 

Outro ponto importante, destaca-se a necessidade de reafirmação de poder após desgaste internacional. Um revés frente ao Irã comprometeria a imagem de força militar e diplomática dos EUA, abrindo espaço para rivais estratégicos. Nesse cenário, atuar em Cuba é relativamente barato onde os custos operacionais e logísticos são significativamente menores — poderia ser visto como uma forma de demonstrar capacidade de ação rápida e eficaz.

 

E, talvez o fator mais sensível para o presidente norte-americano, seja justamente a intensificação da competição entre grandes potências em Cuba. A crescente presença de China e Rússia em Cuba, por meio de investimentos, cooperação tecnológica e possíveis acordos estratégicos, transforma a ilha em um ponto sensível no tabuleiro global. Uma investida americana poderia ter como objetivo conter ou reverter essa influência, evitando a consolidação de um polo adversário próximo ao território continental dos EUA.

 

Há ainda o componente de segurança energética e rotas estratégicas. O Caribe é uma região relevante para fluxos marítimos, incluindo rotas de energia e comércio. Em um cenário de instabilidade no Oriente Médio, diversificar áreas de controle indireto sobre corredores logísticos ganha importância adicional.

 

Um importante ponto, não se pode ignorar o fator de política doméstica. Governos sob pressão tendem a buscar agendas externas que possam ser convertidas em ganhos políticos internos. Uma postura mais dura em relação a Cuba historicamente mobiliza setores políticos nos EUA, especialmente em estados-chave, reforçando narrativas de firmeza contra regimes adversários.

 

Entretanto, essa estratégia carrega riscos significativos. Uma escalada sobre Cuba poderia reativar dinâmicas de confronto semelhantes às da Guerra Fria, aumentar tensões com potências externas e gerar instabilidade regional, especialmente na América Latina. Além disso, o custo político internacional de uma ação percebida como intervencionista poderia aprofundar o isolamento diplomático dos EUA, agravando justamente o problema que se buscaria resolver.

 

Assim, uma possível investida em Cuba, após um fracasso no Oriente Médio, deve ser compreendida não como um movimento isolado, mas como parte de uma tentativa mais ampla de reequilibrar poder, restaurar credibilidade e conter avanços de rivais em um sistema internacional cada vez mais multipolar.

 

Fazendo um paralelo com a última atuação norte-americana na América, o atual governo norte-americano que se caracteriza pelo belicismo enxerga a experiência recente na Venezuela como um precedente positivo para aumentar o controle político regional. A operação que resultou na queda de Nicolás Maduro, presidente venezuelano, foi apresentada por Washington como demonstração de força e capacidade de intervenção rápida, sinalizando que os EUA ainda mantêm poder decisivo no hemisfério.

 

Nesse contexto, a leitura estratégica aplicada a Cuba passa por uma tentativa de replicar, por meios distintos, um resultado semelhante: a substituição da atual liderança. As supostas negociações mencionadas se encaixam em uma abordagem clássica de pressão combinada: sanções, isolamento e contatos indiretos com elites políticas e militares.

 

O alvo central dessa estratégia seria o presidente Miguel Díaz-Canel. A hipótese levantada por analistas é que Washington buscaria incentivar uma transição interna de poder, evitando os custos e riscos de uma intervenção direta.

 

Atualmente, o cenário de extrema influência geopolítica dos EUA se traduz em controle dos setores energético e político. Cuba sempre esteve na mira do governo Trump, especialmente do secretário de Estado Marco Rubio, um cubano-americano. O caminho para a mudança de regime em Cuba, nos círculos políticos conservadores dos EUA, foi iniciado em Caracas através de três etapas. Cortar o petróleo venezuelano, acelerar a crise econômica, acabar com o regime cubano.

 

A Casa Branca efetivamente bloqueou Havana do petróleo venezuelano após a captura de Maduro, causando uma crise energética e econômica na ilha. Mesmo a quarentena do governo Kennedy, no auge da Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, impediu Cuba de ter acesso a importações essenciais e petróleo. O bloqueio atual da administração Trump vai além.

 

Por fim, Cuba está sendo pressionada economicamente, diplomaticamente, isolada e abertamente ameaçada por um presidente dos EUA que já mostrou que vai puxar o gatilho. O bloqueio é mais apertado do que qualquer coisa vista desde a Crise dos Mísseis. O regime está mais fraco do que esteve em décadas.

 

 

 

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.

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