Geopolítica: França e Alemanha e suas abordagens divergentes para atingir a segurança energética
- CERES

- há 15 horas
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Luis Augusto Medeiros Rutledge
Geopolítica Energética
O presidente dos Estados Unidos procura moldar a política europeia segundo seus próprios interesses estratégicos, valendo-se das contradições estruturais que atravessam a União Europeia — sobretudo das tensões recorrentes entre França e Alemanha, os dois eixos centrais da engrenagem política e econômica do bloco.
Nesse contexto, a influência norte-americana sobre a política europeia manifesta-se de forma particularmente evidente nos campos da energia, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da segurança continental. A guerra na Ucrânia reforçou a dependência europeia do guarda-chuva militar dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que redirecionou o abastecimento energético do continente — antes fortemente ancorado no gás russo — para fontes alternativas, incluindo o gás natural liquefeito norte-americano.
Essa reconfiguração ampliou a convergência estratégica com Washington, mas também expôs divergências internas entre França e Alemanha: enquanto Paris defende maior autonomia estratégica europeia, Berlim tende a priorizar a solidez de um vínculo que permita maior segurança energética. Assim, ao explorar essas assimetrias, os Estados Unidos preservam sua centralidade na arquitetura de segurança europeia e mantêm capacidade significativa de influenciar os rumos geopolíticos do bloco.
Há desacordos, senão contradições, entre Berlim e Paris, nas figuras políticas do chanceler alemão Friedrich Merz e do presidente francês Emmanuel Macron em questões como lidar com a guerra na Ucrânia e diminuir a dependência energética. Somamos a isso, outra questão que ganha força a cada dia, as oscilações da política interna norte-americana na gestão atual de Donald Trump.
Hoje, desde a criação da União Europeia, França e Alemanha têm sido os pilares da União Europeia. A Alemanha continua sendo a grande potência econômica e industrial, mas quem disse que isso é suficiente para acabar com as diferenças atuais.
A conexão entre as divergências franco-alemãs e a geopolítica da energia tornou-se ainda mais evidente após a guerra da Ucrânia, que provocou uma reconfiguração estrutural do sistema energético europeu.
Em outubro de 2025, meu artigo “Geopolítica: Impactos nas relações comerciais e no setor de energia” publicado no Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES), já sinalizava uma frágil governança na União Europeia no xadrez da geopolítica energética. A simples troca de bandeira influente e, forçosamente imperialista, ao permitir que os Estados Unidos ocupassem o lugar da Rússia como maior fornecedor de gás natural liquefeito (GNL) para os países europeus.
Neste novo eixo energético, a geopolítica passou por um realinhamento que posicionaram os Estados Unidos como ator central cada vez mais sólido, com o GNL norte-americano representando 60% das importações da União Europeia neste início de 2026.
Quase quatro anos após o início da crise energética na Europa no final de 2021, o continente passou de uma fase de resposta emergencial para uma reformulação completa de seu sistema. No entanto, a União Europeia ainda não está fora de perigo, a fragilidade permanece, e o progresso rumo a suprimentos limpos, seguros e acessíveis está avançando em um ritmo desequilibrado de país para país.
A política energética europeia precisa ser analisada atualmente como um ambiente geopolítico instável e competitivo. Em 2021, cerca de 62,5% da energia disponível no bloco era importada, com níveis particularmente críticos para petróleo e gás natural.
Sob uma ótica geopolítica, esses números evidenciam três transformações estruturais. Primeiro, a energia deixou de ser apenas um tema econômico para reassumir centralidade estratégica: depender de fornecedores externos significa exposição direta a crises, sanções e disputas de poder. Segundo a substituição do gás russo por fontes alternativas — especialmente o LNG americano — não elimina a dependência, mas a reconfigura, deslocando o eixo energético europeu do espaço eurasiático para o atlântico. Terceiro, essa reorganização reforça o vínculo transatlântico ao mesmo tempo em que reduz a margem de autonomia estratégica da Europa.
Para a Alemanha, cuja competitividade industrial foi historicamente sustentada por energia abundante e barata, o desafio é ainda mais profundo. A nova realidade implica aceitar custos potencialmente mais altos em troca de segurança energética — uma escolha que, na prática, redefine prioridades de política externa, industrial e de defesa.
Assim, mais do que uma simples adaptação de mercado, a política energética europeia tornou-se um instrumento de posicionamento geopolítico. Garantir acesso estável à energia passou a significar preservar soberania econômica, resiliência industrial e capacidade de influência internacional em um sistema cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências.
A França possui uma visão sensivelmente distinta da Alemanha em sua atual geopolítica energética — diferença que não é apenas técnica, mas estratégica, pois envolve autonomia, segurança e projeção de poder dentro da própria Europa.
É importante compreender que os dois países estruturaram matrizes energéticas quase opostas ao longo das últimas décadas. A França construiu sua segurança energética com base na energia nuclear, enquanto a Alemanha optou por abandonar essa tecnologia, utilizar gás natural dos gasodutos conectados à Rússia e acelerar a transição para renováveis.
A energia tornou-se um dos principais vetores de reorganização do poder dentro da União Europeia, deslocando gradualmente o eixo tradicional franco-alemão e redefinindo quem exerce maior influência estratégica no bloco. Esse processo não se limita à economia — ele envolve segurança, autonomia geopolítica e capacidade de projeção internacional.
A energia está redefinindo a hierarquia europeia porque passou a funcionar como um ativo geopolítico equivalente ao poder militar ou financeiro.
A União Europeia necessita de uma nova Estratégia de Segurança Energética capaz de refletir as realidades geopolíticas contemporâneas e os rápidos avanços tecnológicos do setor energético. A experiência recente demonstrou que a dependência externa de combustíveis fósseis e de cadeias críticas de suprimento constitui uma vulnerabilidade estratégica, passível de exploração política e econômica por atores revisionistas.
Nesse contexto, a expansão das fontes de energia domésticas — em particular a bioenergia — deve ser compreendida não apenas como um imperativo climático, mas como um pilar central da soberania energética europeia. Contudo, o pleno aproveitamento desse potencial exige a consolidação de um mercado energético verdadeiramente integrado, baseado em interconexões físicas, harmonização regulatória e coordenação supranacional do planejamento e do financiamento da infraestrutura.
Paralelamente, a infraestrutura energética europeia deve ser tratada como ativo de segurança estratégica, necessitando proteção reforçada contra riscos climáticos extremos, ataques cibernéticos e ameaças híbridas. À medida que a eletrificação avança, aumenta também a criticidade das redes, dos sistemas de armazenamento e dos corredores energéticos transfronteiriços.
Por fim, o objetivo de maior autonomia energética requer o fortalecimento de parcerias estratégicas para o fornecimento de matérias-primas críticas, essenciais para tecnologias renováveis, baterias e redes inteligentes. Assim, uma ofensiva estratégica baseada em fontes domésticas de energia deve combinar cooperação aprofundada no planejamento e financiamento da infraestrutura com uma abordagem integrada de segurança, capaz de antecipar e mitigar ameaças à infraestrutura crítica europeia.

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.





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