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Guerra do Iraque 20 anos depois: precisamos falar sobre isso

Atualizado: 26 de set. de 2023

*Flávia Abud Luz


A Invasão do Iraque em 2003, bem como a deposição do líder iraquiano Saddam Hussein e a posterior instabilidade gerada pela articulação para a mudança de regime, a crise política no Líbano instaurada em 2005, entre outros eventos do início do século XXI, inseriram as comunidades xiitas no centro de conflitos e importantes processos de transformação no Oriente Médio, sobretudo no Golfo Pérsico e Levante (Síria e Líbano).


A denominada Guerra ao Terror, capitaneada pelos Estados Unidos com o apoio do Reino Unido e da Espanha, figurou no centro da politica externa norte-americana; definiu alianças ocidentais no Oriente Médio e Norte da África e orientou também mudanças na atuação de países como a China no sistema internacional, sobretudo por conta a estreita relação sino-americana por conta do aumento da dívida externa e o fato de que o país asiático se tornou um dos maiores credores dos Estados Unidos.


Tomando como base as principais discussões acerca da segurança regional do Oriente Médio, bem como o ordenamento de forças com a invasão ao Iraque, o presente texto busca discutir as principais consequências da Guerra do Iraque – inserida no grande discurso da Guerra ao Terror – para o Oriente Médio e Norte da África, sobretudo ao analisar as relações entre Estados Unidos, Arábia Saudita, Irã e Iraque. Entre as principais consequências destaco três, a saber:


a) as alterações nas relações entre Arábia Saudita, Irã e Iraque;

b) a percepção de regimes do golfo e da mídia ocidental acerca de uma ameaça vinda da denominada “crescente xiita”;

c) a constatação de que o perigo à segurança regional advinha, na realidade, das interpretações radicais da vertente sunita do islã, sobretudo wahabista (que inclusive declara os xiitas como hereges), observados com a formação e avanço do Estado Islâmico.


A divisão sectária retornou ao centro das discussões de segurança regional no Oriente Médio e a ideologia – compreendida ao longo deste artigo de acordo com o conceito de THOMPSON (2011) como a produção de sentido (formas simbólicas que compõem discursos) a serviço do poder – demonstrou ser um fator determinante para os discursos e tomada de decisão acerca da estabilidade da região, sob a retórica do desenvolvimento e amadurecimento (em âmbito regional) do que se convencionou chamar de Crescente Xiita.


Inicialmente parecia existir entre estudiosos e formuladores de política externa das elites árabes sunitas que governavam Estados com importantes comunidades xiitas (como a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes, Egito) um entendimento de que a expansão do xiismo “guiado pelos interesses de Teerã” (BARZEGAR, 2008a) era uma espécie de projeto do Irã, que se utilizaria das alianças com os governos xiitas ideologicamente simpatizantes para projetar seus interesses hegemônicos na região.


As abordagens mais comumente utilizadas para a compreensão do ressurgimento da divisão sectária entre xiitas e sunitas no Oriente Médio estiveram relacionadas, no campo das Relações Internacionais, às teorias racionalistas (como a realista e suas vertentes) ou epistêmicas/ontológicas (como a construtivista). Análises baseadas em princípios do neorrealismo, por exemplo, tendiam a observar a “sectarização da política regional” no período posterior à queda de Saddam Hussein como um produto do reajustamento das relações de poder que tomaram forma no Iraque e na relação de balanceamento de poder entre a Arábia Saudita e Irã no novo cenário geopolítico.


No entanto, alguns questionamentos podem ser feitos com relação ao período pós-invasão do Iraque: a denominada “Crescente Xiita” é um fenômeno verificável na política do Oriente Médio? E ainda neste sentido, ela representaria um movimento dos diferentes grupos que compõem o Estado ou as identidades sectárias seriam usadas por Estados governados por sunitas para se referir ao medo das supostas ambições de poder iranianas na região e os reflexos da mesma em sua segurança doméstica? O Irã possui interesse em se aproximar dos diferentes grupos xiitas no Iraque, Levante (Síria e Líbano) e Golfo Pérsico para ampliar seu poder na região?


Para lidar com tais questões é preciso justamente observar as consequências da Guerra do Iraque para a região, tal qual mencionado no inicio do texto. Assim, sigo com uma breve análise das três principais consequências para alcançar o final da mesmo o que acredito ainda ser uma resposta provisória para os questionamentos acima e para um período tão complexo das relações internacionais do Oriente Médio.

  1. As alterações nas relações entre Arábia Saudita, Irã e Iraque

As discussões acerca dos contornos e desenvolvimento dos arranjos de segurança na sub-região do Golfo Pérsico foram constantes desde a queda do regime baathista de Saddam e das alterações na tradicional estratégia do balanço de poder desenvolvido na região.


Desde a década de 1970, momento em que os Estados do Golfo Pérsico vivenciaram a retirada das tropas britânicas, a arquitetura de segurança regional foi desenvolvida de acordo com a constatação das posteriormente denominadas “ameaças tradicionais”, tais como o aumento do poder relativo dos Estados, a influência de identidades transnacionais e as rivalidades em torno das ambições regionais, enfrentadas pelos países.


A estratégia desenvolvida – o balanço de poder – detinha um caráter ofensivo, marcado pelo aumento do poder relativo dos Estados em um jogo de soma zero, foi baseada em três aspectos principais, a saber: o triângulo formado pela Arábia Saudita, Irã e Iraque – países detentores de petróleo que possuíam uma relação de rivalidade baseada na busca pelo domínio regional; as ações dos Estados da península para alcançar seus objetivos políticos domésticos e regionais; e a interferência de atores externos, sobretudo os Estados Unidos.


Ao longo da década de 1970 e no contexto da Guerra Fria, marcado pela disputa entre EUA e URSS por áreas de influência no mundo, Irã e Arábia Saudita foram o centro preferencial da política norte-americana para a região do Golfo. Existia a preocupação norte-americana de que grupos políticos nos países da região que fossem aliados soviéticos alcançassem o poder, o que traria alterações no tênue balanço de poder existente.


A construção de aliados locais fortes, como foi o caso da política dos chamados “pilares ou hegemonias locais” ou “twin pillars”, baseada no apoio voltado à monarquia saudita (casa de Al-Saud) e ao governo do Xá Reza Pahlevi no Irã, foi implementada pelos Estados Unidos com o intuito de atuar juntamente com os “pilares ou hegemonias locais”. A interferência da política norte-americana fica ainda mais evidente após a Revolução Iraniana (1979) com a estratégia de desenvolver um balanço de poder “puro”, baseado em conceitos como deterrência (política de intimidação), contenção (impedir o avanço de uma possível ameaça à segurança) e equilíbrio (evitar que um determinado Estado altere uma dinâmica de poder estabelecida), que incluía o apoio de inteligência e financeiro para o Iraque em sua guerra contra o Irã (1980-1988). A referida estratégia forjou o desenvolvimento do poder ofensivo militar iraquiano e acabou ampliando a instabilidade na região, sobretudo porque tendo se desenvolvido militarmente, o Iraque passou a ser uma ameaça maior aos Estados vizinhos, e os cálculos de poder de Saddam Hussein acabaram por considerar a expansão de seu poder através da subjugação de Estados mais fracos, como foi observado com a invasão ao Kwuait, em 1991.


A dinâmica regional, pautada na atuação do Irã, da Arábia Saudita e do Iraque, foi repleta de alianças inconstantes e conflitos em torno da noção de segurança e ameaça. Ao longo das décadas, o Iraque e o Irã balancearam seu poder, sobretudo através da busca de alianças com países da região e externos à mesma, como as alianças estabelecidas entre os Estados Unidos e as monarquias saudita e jordaniana. Quando o partido baathsta tomou o poder no Iraque pela segunda vez, o Irã e a Arábia Saudita aproximaram-se devido ao receio acerca das intenções militares do novo regime iraquiano.


No entanto, quando ocorreu a Revolução Islâmica em 1979, a Arábia Saudita e Iraque aproximaram-se para juntos fazerem frente à ameaça ideológica que o xiismo revolucionário persa proporcionava para a manutenção dos regimes da casa de Al-saud e baathista, respectivamente, pelo fato de que em ambos os países as populações xiitas encontravam-se reprimidas e subjugadas a regimes que pouco lhes representava.


Para GAUSE (2009) as ambições por domínio regional por parte do Iraque, Irã e Arábia Saudita, bem como os esforços para contrabalancear um possível hegemon, foram importantes para os referidos países assim como para outros em diferentes regiões e períodos, ou seja, tais ambições e estratégia de contenção baseada na criação e manutenção de um status quo não figuram como uma especificidade da referida sub-região. Dessa forma, era necessário utilizar variáveis intervenientes, de natureza diversa como cultural e política, que operam na tomada de decisão dos para compreender a complexidade das alianças e relações estabelecidas, bem como o impacto de fatores domésticos (como a mudança de regime) na arquitetura de segurança regional.


Entre estas variáveis, destacam-se a preocupação de manter a estabilidade nacional, tanto do ponto de vista da manutenção do regime estatal (de acordo com a idéia de segurança de regime desenvolvida por GAUSE (2009) a respeito às ações realizadas para manter um determinado grupo no poder) quanto da constatação e atuação de identidades transnacionais que operam no Golfo, tais como o nacionalismo árabe iraquiano e o xiismo revolucionário iraniano, e as alterações na política externa americana para a região.


No caso da Irã, por exemplo, a política externa para com o Iraque no imediato período pós-Saddam Hussein foi marcada por uma estratégia racional e pragmática – tendo em vista a percepção de ameaças à sua segurança causadas pela chegada e manutenção de tropas norte-americanas na região – e não apenas ideológica, como na primeira década da Revolução Iraniana. Assim, como analisou assertivamente BARZEGAR (2008; 2010a), se observou o engajamento para criação de coalizões e/ou alianças junto a “governos xiitas amigos” de forma a garantir interesses regionais em um contexto de crise política regional.


b) A percepção de regimes do golfo e da mídia ocidental acerca de uma ameaça vinda da denominada “crescente xiita”


A crise política iraquiana – decorrente da deposição de Saddam Hussein e da instabilidade marcada pelos conflitos entre os grupos religiosos com relação à formulação de um novo governo – figurou como uma espécie de ponto de inflexão com relação à percepção de ameaças tradicionais à segurança dos Estados que compõem a referida sub-região, sobretudo por conta do deslocamento de uma ameaça baseada no poder militar projetado por um Estado para ameaças de natureza diversa, como a identidade transnacional que o xiismo representa, e trouxe a noção de ameaça relacionada à expansão do xiismo “guiado pelos interesses de Teerã”, visto que de acordo com o ponto de vista das elites árabes sunitas o Irã se utilizaria das alianças com os governos xiitas simpatizantes para projetar seus interesses hegemônicos na região. Além disso, a possibilidade do país persa tornar-se capaz de ditar as políticas de segurança e energética, bem como de intervir em políticas domésticas dos governos vizinhos em prol das comunidades xiitas locais despertou a pressão acerca de formas de conter o Irã.


Ao considerar os diversos elementos que constituem o surgimento dos xiitas na política do Oriente Médio na primeira década do século XXI, os principais questionamentos acerca da validade da retórica da Crescente Xiita são: a) a concepção dos xiitas como um bloco único; b) a natureza da política externa iraniana, nomeadamente defensiva ou ofensiva, e seu potencial desestabilizador da arquitetura de segurança do Golfo; e c) os objetivos dos países árabes governados por elites sunitas ao apresentarem os xiitas como uma ameaça transnacional à estabilidade e à segurança regional.


Diferentemente desta noção de unicidade permeada pelos países governados majoritariamente por elites sunitas, seus aliados ocidentais (como os Estados Unidos e o Reino Unido) e a mídia, as comunidades xiitas no Oriente Médio, especificamente no Golfo Pérsico e Levante (considerando Síria e Líbano), estão longe de serem politicamente homogêneas e que elas possuem, desde as moderadas até as extremistas, suas próprias visões sobre como o governo de seus países deve ser, em amplo sentido.


Além disto, o ressurgimento dos xiitas no início do século XXI esteve relacionado diretamente às dinâmicas internas dos países em que estes estavam inseridos, fato que dificilmente é observado quando uma análise reducionista para lidar com a questão é desenvolvida. Os grupos xiitas que atuam em países como Arábia Saudita e Bahrein, por exemplo, tal qual discutido por TERHALLE (2007) possuem agendas próprias relacionadas a maior representatividade política no país em que estão inseridos, demanda esta que não implica no desmantelamento da estrutura do Estado em si em prol de um grupo sectário específico, mas sim na busca de alterações que permitam aos grupos locais uma maior ação.


Tendo como base os interesses das elites sunitas, Haji-Yousefi (2009) argumenta que, em um cenário em que os Estados Unidos deram início à “Grande Iniciativa para o Oriente Médio” e à política de promoção da democracia no Oriente Médio, os Estados governados por regimes autocráticos passaram a enfrentar um dilema: por um lado, buscavam a segurança e proteção norte-americana e de outro passaram a sofrer pressões para a realização de alterações em sua política doméstica e eleitoral, sendo que estas últimas conduziriam os países a uma instabilidade interna, relacionada às demandas de comunidades reprimidas pelos regimes. Desta forma, alguns regimes – como Jordânia, Arábia Saudita e Egito – prenderam-se aos desenvolvimentos do Iraque pós-invasão de 2003 e para retirar a atenção internacional de seus déficits democráticos passaram a mencionar constantemente seus temores acerca da criação e ampliação da chamada Crescente Xiita. Parte dos referidos temores acerca da tal movimentação eram ditados por aspectos geopolíticos, como a competição por poder na região (poder este tradicionalmente “balanceado” entre os principais países do Golfo Pérsico) e o domínio iraniano, e aspectos relacionados à legitimação dos regimes existentes nos países, tendo como exemplo a idéia de segurança do regime que visava à manutenção do status quo da divisão de poder, evitando o acesso de certos grupos religiosos ao poder, e a questão de uma eventual guerra civil entre sunitas e xiitas na região.


Assim, é possível questionar que para os regimes árabes a principal fonte de ameaça da referida Crescente Xiita não estaria relacionada à ascensão de membros da referida comunidade ao poder no Iraque, mas sim ao temor de que a pressão norte-americana para a democratização da região alcançasse seus regimes autoritários – sendo que alguns deles, como o saudita, por décadas figuraram como principais aliados do país americano na região e estabeleceram uma relação pragmática baseada em interesses mútuos –, visto que o ressurgimento xiita na região demonstrou de maneira clara o questionamento da legitimidade dos governos árabes (majoritariamente sunitas) dominantes.


O aspecto mais controverso do debate acerca da ideia de crescente xiita está centrado na dita política expansionista iraniana – propagada de forma exaustiva por autoridades como o Rei Abdullah da Jordânia e o então presidente do Egito Hosni Mubarak –, que supostamente buscaria fazer o melhor uso dos desenvolvimentos políticos do Iraque no período posterior à invasão de 2003 para garantir o seu empoderamento como potência regional. Em um primeiro momento, a reação de grande parte dos nacionalistas iranianos foi a de observar a movimentação dialética introduzida pela Jordânia e propagada por países como o Egito e Arábia Saudita como uma ameaça aos seus interesses, tais como a segurança nacional, e posteriormente investir em uma retórica voltada para refutar tal ameaça.


A política externa iraniana no período imediato à invasão do Iraque esteve baseada em aspectos racionais e pragmáticos, relacionados ao histórico conturbado de competição e desconfiança que norteou as relações entre Irã e o governo do Iraque (sobretudo após a Guerra Irã-Iraque) – e que aparentemente a remoção de Saddam Hussein de seu cargo de presidente não conseguiu conter – e fatores mais imediatos como conter a ameaça relacionada à presença de tropas norte-americanas nas fronteiras do país persa e o desenvolvimento de novos arranjos de segurança (convergência de interesses iranianos e norte-americanos junto ao novo governo iraquiano).


Tendo em vista os desenvolvimentos do período posterior à invasão e ocupação do Iraque por tropas estrangeiras e colocando os referidos aspectos históricos em perspectiva, Haji-Yousefi (2009) questionou a noção de uma crescente xiita liderada pelo Irã ao argumentar que no momento em que a referida noção foi introduzida pelo governo da Jordânia as lideranças iranianas se viram em uma situação semelhante àquela ocorrida após a Revolução Islâmica – em que a opinião pública internacional e os formuladores de política externa passaram a “alimentar” a ideia de uma divisão étnico-religiosa junto à comunidade muçulmana com o intuito de isolar o Irã – e buscaram alternativas para lidar com as possíveis ameaças à sua segurança. Assim, entre as reações preliminares do governo de Teerã figuraram conter e resistir à hegemonia dos Estados Unidos na região; melhorar ou até mesmo intensificar seus laços com os países de seu entorno; manter sua parceria estratégica e suporte junto à Síria e manter seu programa nuclear.


c)A constatação de que o perigo à segurança regional advinha, na realidade, das interpretações radicais da vertente sunita do islã

Em artigo que discutiu a noção de crescente xiita e seus impactos no Iraque pós-Saddam e em meio à crise política o analista Vali Nasr (2006) já apontava uma preocupação com relação à movimentação/organização de grupos políticos em torno da doutrina sunita. Neste sentido, o autor argumentava que a militância sunita teria surgido na região em um momento específico, marcado pela divisão ideológica da Guerra Fria (embate entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética), como forma de manter balanço de poder a favor dos sunitas, mas a queda de Saddam Hussein alterou a referida balança.


No contexto do pós-invasão de 2003 a militância sunita e o ativismo wahabista que se converteria na principal fonte de ameaça aos interesses norte-americanos na região e à estabilidade regional (Golfo e Levante), visto que a ação sunita era vista pelo autor como ascendente, violenta e ideológica, que além de anti-xiita era antiamericana, questionava a atuação externa na região.


Observou-se entre as análises de intelectuais dedicadas à região um consenso a noção de que a ação norte-americana no Iraque realmente trouxe alterações políticas e de segurança à região: a queda do governo de Saddam Hussein trouxe ao Irã a neutralização de uma ameaça à sua segurança, no entanto os desenvolvimentos em solo iraquiano – sobretudo o fortalecimento político dos grupos xiitas lá existentes – trouxeram à países como Jordânia, Egito e Arábia Saudita temores quanto ao potencial expansionista da política iraniana para o Iraque e região (Golfo Pérsico e Levante), o que ocasionou a formação e desenvolvimento de um movimento dialético, posteriormente endossado por autoridades ocidentais (EUA e Inglaterra), que posicionou o Irã como o centro da instabilidade regional no Oriente Médio.


Um exemplo das capacidades beligerantes induzidas por interpretações equivocadas do islã foi observado com o surgimento e ampliação do denominado Estado Islâmico da Síria e Iraque (também conhecido na mídia internacional como ISIS ou Daesh). O grupo surgiu em 2006 um contexto particular no Iraque, marcado pela instabilidade política no período pós-Saddam Hussein e, principalmente, na atuação estrangeira no país, visto que a mesma elevou a violência e o número de mortos e deslocados relacionados ao conflito civil e à iniciativa norte-americana na região. Somado aos elementos já complexos da arquitetura de segurança regional pós-Saddam, a Primavera Árabe, mais especificamente o levante que deu origem à guerra civil síria a partir de 2010, mostrou a insatisfação de parcelas da dos sunitas sírios com relação à distribuição de poder no país, visto que o regime dos Assad teve início ainda na década de 1970.


No caso específico do Iraque o conflito civil teve início na insurgência de diversos grupos que não aceitaram um governo de transição xiita (eleito em 2005) e após a retirada das forças norte-americanas do país a tensão pela disputa do poder politico ampliou-se, ficou mais violenta. A partir de 2014 o grupo Estado Islâmico passou a conquistar territórios – sobretudo na Síria, onde obteve também o controle do petróleo produzido pelo país – e direcionou suas ações para a conquista de território que formaria o autoproclamado Califado.


A violência empregada pelos membros do Estado Islâmico trouxe morte e destruição em diversas cidades sírias e iraquianas, trouxe a importância de pensarmos sobre a situação complexa dos curdos residentes na região (que careciam de representação política e reivindicação seu território) e também fez com que a mídia internacional se voltasse para a cobertura das ações e ameaças propagadas pelo Estado Islâmico.


Algum encaminhamento em vista?


A denominada Guerra ao Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, figurou no centro da política externa norte-americana; definiu alianças ocidentais no Oriente Médio e Norte da África e orientou também mudanças na atuação de países como a China no sistema internacional, sobretudo por conta a estreita relação sino-americana por conta do aumento da dívida externa e o fato de que o país asiático se tornou um dos maiores credores dos Estados Unidos.


Ao longo da breve análise que desenvolvi aqui busquei discutir aquelas que considero serem as principais consequências da atuação norte-americana com a invasão e posterior ocupação do Iraque a partir de 2003. É possível argumentar que uma série de elementos conduziram à consequências graves para as populações do Iraque e Síria (sobretudo quando da formação e ampliação do Estado Islâmico), as noções de baçanço de poder que organizavam a arquitetura de segurança da região do Golfo e Levante foram alteradas pela percepção de que os xiitas seriam uma ameaça aos governos sunitas da região, e a instabilidade política iraquiana demonstrou a falácia de que a atuação norte-americana seria pautada na “promoção da democracia e segurança”, visto que a mudança de regime no Iraque desestabilizou acordos/alianças políticas nacionais e regionais, promoveu a morte e deslocamento de milhares de pessoas e dificultou a estabilização política do referido país. O terror propagado pelos membros do Estado Islâmico reacendeu inimizades de cunho sectário e/ou confessional, bem como um sentimento de raiva e necessidade de mudança que foi canalizado pela organização do grupo para a conquista de territórios por meio da violência.


Muitas peças deste complexo quebra-cabeça que é a política do Oriente Médio e Norte da África ainda necessitam de maior aprofundamento teórico, principalmente se considerarmos o tempo cronológico (os vinte anos) e a velocidade com que as alterações políticas, sociais e econômicas influenciam os atores envolvidos. Fica aqui uma reflexão (ainda que parcial) com o intuito de traçar o contexto dos eventos e analisar as suas principais consequências.



FLÁVIA ABUD LUZ, Doutoranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Mestre em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), possui especialização em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escolade Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado (2014). Membro fundadora do NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar de Relações Internacionais posterior CERES. Autora do livro: A Apropriação dos conceitos de Martírio e Jihad pelo Hezbollah e a questãoda violência como resistência.


Referências


GAUSE, F. Gregory, The International Politics of the Gulf. In: FAWCETT, Louise (org.). International Relations of the Middle East. Oxford University Press, 2009, p.272-289.

HAJI-YOUSEFI, Amir M. Whose Agenda Is Served by the Idea of a Shia Crescent?. Alternatives: Turkish Journal of International Relations, v. 8, n. 1, p. 114-135, 2009.

NASR,Vali. Regional Impliactions of Shi’a Revival in Iraq. The Washington Quarterly, vol. 27, n.3, p. 7-24, 2006.

KRAIG, Michael. Assessing Alternative Security Frameworks for the Persian Gulf. Middle East Policy, vol.11, n.3, 2004.

_____________. Forging a New Security Order for the Persian Gulf. Policy Analysis Brief, The Stanley Foundation, 2006.

TERHALLE, Maximilian. Are the shia rising?. Middle East Policy, v. 14, n. 2, 2007.

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