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Nova Doutrina Modi: A Caxemira como epicentro de uma nova ordem geopolítica

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    CERES
  • 5 de jun.
  • 4 min de leitura

O atentado terrorista de abril de 2025, que ceifou 26 vidas na Caxemira administrada pela Índia, reacendeu um dos conflitos mais voláteis do cenário internacional. Ao prometer represálias firmes contra os responsáveis, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, não apenas reafirmou sua política de linha dura, mas também sinalizou intenções estratégicas mais profundas, com implicações que extrapolam a disputa bilateral com o Paquistão. À sombra desse episódio sangrento, a Caxemira volta a ser o palco onde se entrecruzam rivalidades regionais, alianças globais e interesses estratégicos de longo alcance.


A resposta da Índia ao atentado difere qualitativamente de episódios anteriores, como a crise de 2019. O rompimento unilateral do Tratado das Águas do Indo, um acordo que, por mais de seis décadas, garantiu ao Paquistão acesso a rios vitais, evidencia uma mudança na doutrina indiana: a incorporação de instrumentos de coerção estrutural à sua estratégia de dissuasão. A água, recurso escasso e essencial à sobrevivência do Paquistão, foi politizada e transformada em arma diplomática. Essa inovação, que Islamabad classifica como "terrorismo hídrico", marca uma perigosa escalada, pois desestabiliza um dos poucos pilares de estabilidade entre os dois países.


A tensão, contudo, não se limita ao histórico embate indo-paquistanês. A Índia atual atua em um tabuleiro geopolítico mais complexo, no qual a rivalidade com a China ocupa papel central. Desde o confronto de Ladakh em 2020, Nova Déli passou a estruturar sua política de defesa para enfrentar possíveis choques simultâneos em duas frentes: contra o Paquistão e contra a China. O atentado de abril, nesse contexto, oferece a oportunidade de testar essa capacidade. Mais do que uma reação a um ataque terrorista, a resposta indiana pode ser lida como ensaio de uma postura regional mais afirmativa e, até certo ponto, provocadora.


Há, ainda, um cálculo geopolítico mais sofisticado por trás dessa escalada. Ao confrontar o Paquistão de forma incisiva, a Índia coloca à prova a solidez da parceria entre Islamabad e Pequim. O Paquistão tornou-se peça-chave na estratégia regional chinesa, especialmente por meio do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), uma iniciativa que conecta os interesses estratégicos e comerciais dos dois países. Ao ameaçar diretamente a segurança e os equipamentos militares paquistaneses, muitos deles fornecidos por Pequim, a Índia busca criar rachaduras nessa aliança. O objetivo parece ser forçar a China a assumir uma posição mais clara, revelando possíveis tensões ocultas na coalizão sino-paquistanesa.


Neste cenário, os Estados Unidos surgem como ator externo com papel ambíguo. De um lado, Washington apela por moderação, consciente dos riscos de um conflito entre potências nucleares. De outro, acelera sua aproximação com a Índia, com vistas a conter a influência chinesa no Sul Global. A Índia, ao alinhar-se progressivamente aos interesses americanos, parece se afastar de sua neutralidade estratégica, uma transformação com potencial de alterar o equilíbrio regional e de afetar a coesão de blocos como o BRICS.


Internamente, essa guinada também tem implicações. A crescente centralização política e a repressão na Caxemira agravam a alienação da população local, majoritariamente muçulmana, e alimentam a insurgência. A narrativa do governo Modi, que apresenta a repressão como combate ao terrorismo, ignora as causas profundas da instabilidade: a ausência de diálogo político, o desrespeito a direitos fundamentais e a militarização sistemática da região. A política de força pode fortalecer o nacionalismo no curto prazo, mas não oferece soluções duradouras.


A crise de 2025, portanto, não é apenas mais um capítulo na disputa indo-paquistanesa. Trata-se de um momento de inflexão, em que a Índia busca se posicionar como potência regional autônoma, capaz de reconfigurar alianças, conter rivais e moldar a ordem asiática a seu favor. Ao mesmo tempo, essa ambição a coloca sob intensa pressão, pois exige uma diplomacia habilidosa, uma política externa coerente e uma gestão interna que evite o colapso de sua própria coesão social.


Em última instância, a Caxemira volta a ocupar o centro de uma disputa geopolítica de múltiplas camadas, em que terrorismo, recursos naturais, alianças militares e narrativas de poder se entrelaçam. Como sempre, quem mais sofre são os civis da região, aprisionados entre o fogo cruzado de interesses que lhes são alheios. E, neste cenário, a paz parece mais distante do que nunca.


João Pedro do Nascimento
João Pedro do Nascimento

João Pedro do Nascimento

Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Atua como editor-chefe de um site especializado em análises internacionais e tem experiência em tradução, mediação de negócios e cooperação internacional. Fluente em inglês e espanhol, já colaborou com empresas e organizações em contextos multilíngues e multiculturais.


Referências Bibliográficas

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