"Remigração": um suicídio econômico e político disfarçado de patriotismo – A vez da Espanha fechar as fronteiras...
- CERES
- 9 de jul.
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A ascensão de discursos xenófobos na Europa não é um fenômeno novo, mas o caso espanhol recente tem despertado especial atenção, sobretudo por sua forma particularmente agressiva e contraditória com os fundamentos da ordem democrática e do sistema produtivo contemporâneo. A proposta de “remigração”, defendida por setores da extrema direita espanhola – principalmente o partido VOX e segmentos mais conservadores do Partido Popular – consiste, essencialmente, na expulsão em massa de imigrantes, mesmo os legalizados e naturalizados, além de seus descendentes. Em nome de um suposto “patriotismo”, propõe-se nada menos que uma “depuração” demográfica em pleno século XXI.
A ideia de “recuperar a Espanha para os espanhóis” não apenas desconsidera a realidade social e constitucional do país, como também ignora – ou pior, deliberadamente oculta – os dados que evidenciam o papel essencial da migração para a sustentabilidade econômica e demográfica da Espanha contemporânea. Esta narrativa populista, desprovida de embasamento jurídico e econômico, representa um grave retrocesso ideológico, mas sobretudo, um suicídio econômico com potencial destrutivo para o próprio modelo de bem-estar europeu.
1. O paradoxo da identidade nacional: quem é “espanhol”?
No plano conceitual, o discurso da remigração parte de uma noção ultrapassada e biologizante de identidade nacional. A pergunta “quem é espanhol?” torna-se fundamental. A Constituição Espanhola de 1978 garante a igualdade de todos os cidadãos perante a lei (art. 14), vedando qualquer forma de discriminação por origem. O artigo 11 impede, ainda, que um espanhol de origem seja privado de sua nacionalidade. No entanto, os defensores da remigração insistem em uma narrativa baseada em “pureza étnica”, promovendo auditorias de nacionalidade e sugerindo que filhos de imigrantes não são plenamente espanhóis. Isso não apenas viola o marco constitucional, como desconstrói os pilares de um Estado democrático de Direito.
A tentativa de estabelecer uma hierarquia entre “espanhóis de primeira” e “de segunda” baseia-se em critérios étnicos e não cívicos, enfraquecendo os princípios da cidadania moderna e abrindo margem para a erosão da coesão social. Para pesquisadores de Relações Internacionais, este fenômeno se insere nos debates sobre nacionalismo étnico versus nacionalismo cívico e remete a perigosas experiências históricas no continente europeu.
2. A migração como motor da economia espanhola
Segundo dados da Fundação de Estudos Econômicos Aplicados (Funcas), 84% do crescimento populacional espanhol nos últimos anos foi impulsionado por imigrantes. Em um país com taxa de natalidade decrescente e população em envelhecimento acelerado, são os imigrantes que sustentam os pilares econômicos e sociais: aumentam o consumo, contribuem com impostos, alimentam o sistema de seguridade social e preenchem lacunas em setores-chave como agricultura, construção civil, turismo, cuidados e serviços.
A ideia de que a economia poderia se manter funcional sem a força de trabalho estrangeira não apenas é ilusória, mas refutada por inúmeros estudos e relatórios oficiais. Setores como a agricultura já contam com mais de 30% de sua força de trabalho composta por estrangeiros. No turismo e hotelaria, esse índice gira em torno de 25% a 29%. Mesmo nas áreas de assistência domiciliar e residências de idosos, praticamente metade da força de trabalho é composta por imigrantes. A exclusão sistemática dessas populações representaria um colapso imediato em setores essenciais da economia.
3. Remigração e a inviabilidade fiscal do Estado de bem-estar
O sistema previdenciário espanhol, como o de muitos países europeus, depende diretamente da contribuição dos trabalhadores em atividade para financiar as aposentadorias da população idosa. Os dados mais recentes revelam que as contribuições dos trabalhadores imigrantes superaram os 15 bilhões de euros em um único ano, o que equivale ao financiamento de praticamente duas folhas mensais de pagamento das pensões por aposentadoria.
Projeções do Instituto Nacional de Estatística da Espanha (INE) indicam que, até 2074, a proporção de espanhóis nativos cairá para 61%, caso o atual saldo migratório seja mantido. A única forma de sustentar o crescimento demográfico e garantir o equilíbrio fiscal do Estado de bem-estar é, portanto, por meio da migração internacional. Mesmo o Banco da Espanha já alertou que, para manter o atual índice de dependência (população ativa por aposentado), seria necessário um fluxo migratório ainda maior do que o projetado.
Para os estudiosos das políticas públicas e das relações internacionais, o caso espanhol torna-se um laboratório empírico para se observar como os fluxos migratórios se tornaram estruturais e insubstituíveis no modelo socioeconômico europeu. A remigração, portanto, não é apenas uma aberração ética, mas uma ameaça objetiva à sustentabilidade fiscal do Estado.
4. Impactos sociais e coesão nacional: a dimensão estratégica da migração
Além do impacto econômico, a presença imigrante tem contribuído para manter a vitalidade de zonas rurais em franco despovoamento, fenómeno conhecido na Espanha como a "España vaciada". Em províncias como Cuenca, Zamora ou Guadalajara, há evidências de que famílias de imigrantes e refugiados têm repovoado vilarejos, reativando economias locais, mantendo escolas abertas e dando continuidade à vida social.
No espaço urbano, a diversidade cultural tem sido fonte de dinamismo e inovação. Cidades que acolhem populações diversas tendem a ser mais resilientes, abertas à inovação e competitivas internacionalmente. Estudos sobre “cidade global” e “governança migratória” apontam que a gestão inteligente da diversidade é uma vantagem competitiva nos mercados globalizados.
Portanto, rejeitar a migração é também recusar a adaptação do país às exigências de um mundo interconectado, onde a fluidez humana, o intercâmbio de competências e o pluralismo cultural são elementos-chave do soft power e da inserção internacional.
5. Lições comparadas: aprendizados de outras realidades
Ao contrário do discurso de remigração, a maioria dos países desenvolvidos reconhece e institucionaliza a migração como eixo estratégico de crescimento. O Canadá, por exemplo, possui mais de 21% da sua população composta por imigrantes e desenvolve políticas públicas para atrair talentos de todo o mundo. A Alemanha, que recebeu milhões de trabalhadores estrangeiros no pós-guerra, reconhece a contribuição dos chamados “gastarbeiter” para o seu milagre econômico. Nos Emirados Árabes Unidos, mais de 90% da população é estrangeira, e mesmo assim o país sustenta um dos maiores PIBs per capita do mundo.
Esses exemplos ilustram como a migração bem gerida pode ser vetor de dinamismo econômico, inovação social e estabilidade demográfica. O discurso xenófobo, ao contrário, isola o país, compromete sua atratividade internacional e empobrece sua capacidade de se adaptar às transformações globais.
Considerações finais
Para os pesquisadores de Relações Internacionais, o debate sobre remigração na Espanha revela uma tensão fundamental entre os valores liberais-democráticos e a ascensão de populismos excludentes. A tentativa de vincular cidadania a critérios étnicos desconsidera os princípios do constitucionalismo moderno e compromete a legitimidade das instituições estatais.
Além disso, evidencia-se um descompasso entre o discurso político e a lógica econômica: expulsar quem sustenta o sistema é uma contradição em termos. A remigração não apenas destrói pontes com o mundo – em termos de comércio, cooperação e credibilidade externa – mas ameaça a coesão interna e a viabilidade futura do país.
Neste sentido, estudantes, pesquisadores e profissionais da área devem estar atentos a esses discursos que, embora travestidos de patriotismo, colocam em risco as conquistas sociais e econômicas de décadas. É dever da academia analisar criticamente, com base empírica, os impactos da migração e defender modelos inclusivos que respeitem os direitos humanos e promovam a prosperidade compartilhada.

Wesley Sá Teles Guerra
Fundador CERES e Paradiplomata. Poliglota. Formado Negociações Internacionais pelo CPE (Barcelona), Bacharel Administração pela UCB, Pós graduado Relações Internacionais e Ciências Políticas FESPSP, Mestrado Políticas Sociais e Migrações UDC (Espanha), MBA Marketing Internacional MIB (Massachussetts-EUA), Global MBA ILADEC, Mestrado Smarticities UC (Andorra), Doutorando Sociologia UNED (Espanha). Especialista Paradiplomacia, Desenvolvimento Econômico e Cidades Inteligentes. Autor livro Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Comentarista convidado da CBN Recife e finalista do prêmio ABANCA para investigação acadêmica.
Atuou como Paradiplomata do Governo da Catalunha durante o "procés" processo de autodeterminação da região da Catalunha (Espanha), também foi membro do IGADI, Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e coordenador do OGALUS, Observatório Galego da Lusofonia, sendo o responsável pelo estudo Relações entre Galicia e Brasil. Assim mesmo foi o primeiro brasileiro a se candidatar em uma eleição na cidade de Ourense (Espanha).
Foi editor executivo da revista ELA do IAPSS e é membro de diversas instituições tais como CEDEPEM, ECP, Smartcities Council e REPIT.
Referências bibliográficas
FUNCAS – Fundación de las Cajas de Ahorros. “La inmigración aporta el 84% del crecimiento de la población española.” 2024. https://funcas.es
Instituto Nacional de Estadística (INE), Proyecciones de Población 2024-2074. https://ine.es
El Economista. “Los trabajadores extranjeros salvan la hostelería española.” 15/09/2024. https://eleconomista.es
Público. “Las cotizaciones de los trabajadores extranjeros ya cubren dos nóminas de pensiones.” 19/08/2023. https://publico.es
Banco de España. Relatório sobre sostenibilidad del sistema de pensiones. 2024.
ACNUR. “Las familias refugiadas enriquecen y revitalizan pueblos de la España rural.” 09/05/2023. https://acnur.org
Tatsachen über Deutschland. “Immigration und Integration.” Governo Federal da Alemanha. https://tatsachen-ueber-deutschland.de
Portal Datosmacro – Demografía Canadá 2024, Emirados Árabes Unidos 2025. https://datosmacro.expansion.com
Constituição Espanhola, artigos 11 e 14. https://boe.es
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