O que esperar da Aliança Índia-UE?
- CERES

- há 11 horas
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O anúncio do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e a Índia, selado em janeiro de 2026, foi recebido com a pompa reservada aos grandes marcos civilizatórios. Apelidado pelo primeiro-ministro Narendra Modi como a "mãe de todos os acordos", o pacto desenha uma zona de livre comércio que une o maior bloco comercial do mundo à nação mais populosa do planeta. Juntos, representam 2 bilhões de consumidores e 25% do PIB global.
No entanto, por trás da retórica otimista e dos apertos de mão em Nova Délhi, esconde-se uma aposta de alto risco que pode redefinir, para o bem ou para o mal, o futuro econômico da Europa.
O fim das barreiras e o risco geopolítico
Para a indústria europeia, especialmente a alemã, o tratado pode ser visto positivamente. Após duas décadas de negociações arrastadas, a Índia finalmente cedeu em setores historicamente protegidos.
· Setor automotivo: tarifas que antes chegavam a 110%, cairão gradualmente para 10%.
· Bens de luxo e consumo: vinhos, chocolates e massas europeias agora terão um caminho livre para a crescente classe média indiana, com reduções tarifárias que chegam a 130 pontos percentuais.
A estratégia por trás dessa abertura é o que o mercado chama de friendshoring. Na prática, o friendshoring é o redirecionamento das cadeias de suprimentos para países considerados aliados políticos e ideológicos. Diferente do antigo offshoring, focado apenas em custo, esta modalidade prioriza a segurança nacional e a estabilidade diplomática, buscando evitar que insumos críticos fiquem reféns de regimes em conflito direto com os interesses do bloco. Em um contexto de guerra tarifária com os EUA de Donald Trump e de uma dependência perigosa da China, a Índia se apresenta como um hub de produção com custos significativamente menores, mas com uma fachada democrática que agrada aos investidores europeus.
O ponto mais sensível do acordo, no entanto, reside na geopolítica. Há uma crença latente em Bruxelas de que o fortalecimento dos laços comerciais resultará em um alinhamento automático da Índia contra o eixo Moscou-Pequim. Esta é, talvez, a maior ilusão do acordo.
Narendra Modi não governa para ser um aliado subalterno do Ocidente. Sua ideologia é pautada pelo nacionalismo e pela "multilateralidade". A Índia que agora abre as portas para a tecnologia europeia é a mesma que atua como um dos principais compradores do petróleo russo (até o momento) e mantém investimentos cruzados com a China. Para o governo indiano, o acordo pode ser visto como um instrumento para acumular capital e tecnologia para se tornar uma hiperpotência independente. A Europa corre o risco de financiar a emergência de um gigante que, em breve, não terá qualquer compromisso com os interesses estratégicos europeus.
Desindustrialização europeia
Enquanto o setor de alta tecnologia e luxo do norte da Europa celebra, o sul e o leste do continente olham para o tratado com desconfiança. Com salários na indústria indiana sendo, em média, seis vezes inferiores aos chineses e vinte e oito vezes menores que os alemães, o risco de uma nova onda de desindustrialização europeia é real. O setor têxtil da Itália e de Portugal, bem como a indústria de medicamentos genéricos, podem ser devastados por uma enxurrada de produtos indianos que, paradoxalmente, utilizam insumos chineses baratos.
Essa disparidade toca em um ponto nevrálgico, a fragmentação política da própria UE. O acordo tende a cristalizar uma divisão na qual o setor de alta tecnologia se consolida, enquanto os que ainda dependem da manufatura tradicional, ficam expostos a uma concorrência imbatível. No final do dia, o pacto pode acabar beneficiando uma elite industrial alemã enquanto corrói a base produtiva das nações europeias menos competitivas, agravando as tensões internas no bloco. Além disso, ao abrir o mercado agora para ganhar fôlego no setor automotivo, a Europa pode estar entregando o know-how necessário para que a Índia substitua as importações europeias por produção nacional própria em menos de uma década.
O desafio econômico
O acordo Índia-UE é, inegavelmente, um passo histórico e necessário para a resiliência das cadeias de suprimento globais em um século marcado por rupturas. Em meio ao esgotamento do modelo de interdependência total com a China e à imprevisibilidade das diretrizes de Washington, o pacto oferece uma alternativa viável ao duopólio hegemônico China-EUA, abrindo as comportas de mercados que permaneceram trancados por gerações sob o ferrolho do protecionismo de Nova Deli.
Entretanto, se a Europa se limitar a reeditar a velha receita de exportar bens de luxo e tecnologia de ponta para uma elite emergente enquanto importa produtos manufaturados de baixo valor e alta intensidade de mão de obra, ela não terá diversificado seus parceiros, mas apenas terceirizado sua própria vulnerabilidade. Ao fazer isso, a UE não estará construindo um aliado, mas sim, como mencionado anteriormente, alimentando as bases de um novo concorrente hegemônico que, em menos de duas décadas, poderá utilizar o próprio capital europeu para expulsar as indústrias do continente de seus nichos históricos.
O verdadeiro sucesso deste tratado não virá da burocracia das cotas alfandegárias ou da contabilidade imediata do superávit comercial, mas sim da coragem em promover uma inovação tecnológica radical e uma proteção inteligente de setores estratégicos. É imperativo que a UE entenda que, no tabuleiro do século XXI, o livre comércio não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta de poder. Sem mecanismos que garantam a reciprocidade real e impeçam o dumping social e ambiental, a "mãe de todos os acordos" corre o risco de ser lembrada apenas como algo tardio e frágil. A Europa está diante de um desafio.
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João Pedro do Nascimento
Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Atua como editor-chefe de um site especializado em análises internacionais e tem experiência em tradução, mediação de negócios e cooperação internacional. Fluente em inglês e espanhol, já colaborou com empresas e organizações em contextos multilíngues e multiculturais.





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