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O que nos une? A necessidade de pensar os sentidos da lusofonia a partir da literatura Africana.

Atualizado: 26 de set. de 2023

Flávia Abud Luz O termo lusofonia costuma ser utilizado para designar os países que possuem a língua portuguesa como oficial ou língua materna,sendo que no contexto das relações estabelecidas entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP, criada em 1996) observa-se um tom mais estratégico, por assim dizer, que implica no desenvolvimento de projetos de cooperação entre os paísesque a compõem. Outro sentido interessante e mais recente para o termo – como apresentou Paula Medeiros (2006) – é justamente seu caráter histórico e político, ou seja, retomando a relação direta entre a atuação colonial portuguesa e seus reflexos para os países quecompartilharam aspectos como o domínio e a violência. Medeiros (2006) argumenta, então, que a noção de lusofonia pressupõe esse movimento duplo de reflexão que se localiza no limiar entre a memória do passado colonialrecente (principalmente considerando o tardio processo de descolonização portuguesa de países no continente africano) e a possibilidade de esquecimento do mesmo sob a égide da construção de novos Estados.Além disso, a autora destacaa dimensão ideológica da língua no desenvolvimento de identidades cultural e nacional, sobretudo ao apontar as relações de poder e ahierarquia que permearamtais processos. Ao longo do texto pretendo discutir a importância de refletirmos sobre identidade, cultura, materialidade ao apresentar aspectos dos debates acerca da valorização de saberes locais na América Latina com o intuito de refletir sobre os múltiplos sentidos que podem ser atribuídos à noção de lusofonia com base nos estudos acerca da literatura lusófona africana e seus principais expoentes.


Discussões sobre decolonialidade e saberes locaisna América Latina A atuação de movimentos sociaise grupos identitários foi fundamental para o levantamento de temáticas que não cabiam mais na lógica fragmentada e disciplinar como a violência, os direitos humanose a educação. No campo do pensamento decolonial observamos na década de 1990 o desenvolvimento de uma série de discussões por parte do grupo Modernidade/Colonialidade (formadopor pesquisadores avindos da América Latina e que atuavam em universidades norte-americanas) que tinham como centralidade a reflexão sobre as consequências políticas, raciais, econômicas e socias deixadaspelo colonialismo europeuque atingiu os povos da América Latinamesmo após os processosde descolonização. Walter Mignolo, Aníbal Quijano, Catherine Walsh e Maria Lugones figuram entre os principais nomes desse movimento do pensamento decolonial e trouxeram importantes contribuições para pensarmos a importância que deve ser atribuída aos conhecimentos, saberes, ensinamentos e forma de vivência que tradicionalmente foram colocados às margens e foram pouco valorizados pela academia e instituições formais de ensino no em diferentes regiões do mundo, mesmo aquelas – como a América Latina e África – que viveram e ainda convivem com os efeitos epistêmicos da colonização. A reflexão epistemológica proposta pelos autoresdo pensamento decolonial apresentou as contradições dos processos de dominação desenvolvidos pela Europa em seu controlee exploração de recursos de diferentes regiõesdo mundo, ou seja, apontouque as dinâmicas de poder estabelecidas para garantir os objetivos europeusconduziram à um processo de subalternização dos povos locais que foram dominados que foi complexo e multifacetado. Tal complexidade esteve relacionada as formas de opressão social, economia, racial e de gênero que controlaram as relações entre os povos dominados e dominadores, principalmente se observarmos aspectos como o controle e a construção das subjetividades dos indivíduos, a ameaça às práticas culturaispré-existentes, bem como os saberesacumulados por geraçõesacerca da natureza, dos cuidados comunitários e das formas de viver coletivo.


A partir de tal contexto a proposta foi justamente de refletir acerca da construção do conhecimento articulado com as relações de poder que assumiram contornos próprios em nas sociedades subjugadas e em momentos históricos, de acordo com a marcha imperial europeiapara América, África,Ásia, por exemplo,e com as formas de resistência/ insurgência locais para fazer frente ao podercolonial. A colonialidade do saber, tal qual cunhadapor Walter Mignolo(2005), aponta as desigualdades e contradições das formas de conhecimento desenvolvidas a partir da subjugação dos povos não-europeus ao argumentar que a valorização das formas de conhecimento europeias dificultou que os indivíduos dos povos dominados fossem capazes de valorizar as suas próprias epistemes como formas válidas de ler e entender o mundo que os cercava. Maria Lugones ampliouas discussões iniciadaspor Aníbal Quijanoacerca da colonialidade do poder ao apontar que os efeitos da colonialidade nos processos de subjetividade dos indivíduos pertencentes aos povos dominados, principalmente ao interligarem aspectoscomo gênero, raça e sexualidade como elementos estruturadores universais das sociedades, algo que silenciou e em muitos casos apagou a existência de outras formas de vivência e organização de papeis nas sociedades na África, Ásia e AméricaLatina. Um dos desafios da valorização dos saberes tradicionais, mesmo que na perspectiva da pesquisa interdisciplinar, concerne ao fato de seu reconhecimento científico passar por uma avaliação e certificação científica, considerando que é necessário redefinirpadrões/ critérios de avaliação para pesquisas interdisciplinares tendo em vista a diversidade metodológica e complexidade. A experiência observadajunto aos movimentos de mulheres bolivianas sob a égide do feminismocomunitário, por exemplo,permite observar a importância da retomada de formas de pensar e viver que foram subjugadas ao longo do processo colonial, como a noçãode bem viver, que partede uma série de conhecimentos e memórias transmitidos entre gerações, e que conferecorpo a uma série de práticas comunitárias acerca da relaçãoentre as pessoas,bem


como de sua relação com a natureza, modelos econômicos e formas de organização da vida social. A retomada de tais saberes e formas de viver coletivos acima mencionada possui um caráter contra hegemônico ao questionar o individualismo, iniciando uma ética de mobilização capaz de romper com os efeitos da colonialidade a partir das relações cotidianas estabelecidas entre os indivíduos de tais sociedades, ou seja, questionando aspectos como a hierarquia de força, de poder, de gênero, bem como os sistemas de trabalho e economia que se desenvolveram a partir de tal lógica, com vistas a fazer alterações no tecido social. (Re)pensar as fronteiras: a literatura lusófonaafricana como chave de leitura A utilização da língua portuguesa em países africanos após as independências com relação ao poder português é um aspecto recorrente no debate entre autores que se dedicaram a compreender os processos de libertação nacional e também pode ser observado na área da literatura. O teórico, pedagogo e político guineense Amílcar Cabral; o professor e crítico literário brasileiro Mario Cesar Lugarinho; e o escritorportuguês Alfredo Margarido figuram entre os nomes que se colocaram no referido debate, tendo elaborado contribuições importantes desde as últimas décadasdo século XX. O teórico, pedagogo e político guineense Amílcar Cabral (1924-1973), nome central no movimento de independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde, trouxe reflexõesimportantes acerca do desenvolvimento da consciência revolucionária e o uso da línguaportuguesa como forma de alcançar um tipo de unidade em torno da pauta nacionalista, por exemplo. Cabral apostava na busca pelo desenvolvimento de uma consciência coletiva que fosse capaz de desenvolver as mudanças políticas e sociais almejadas, sendo que nesse contexto a língua era fundamental para exprimir a realidade vivenciada, fazer um diagnóstico sobre os caminhos a serem seguidos no processo emancipatório.


A língua e a literatura foram de grande importância nesse contexto de organização dos movimentos de independência, principalmente pelo fato de elaborar a realidade da forma que se compreendesse melhor.Além disso, Cabral também destacoua importância da educação e da reforma do sistema educacional colonial como aspectos essenciais no processo de formação e afirmação das identidades nacionais. O professor e crítico literário brasileiro Mario CesarLugarinho destacou o lugar da língua portuguesa junto aos movimentos nacionalistas, tendo destacadoo seu uso na literatura, principalmente dos anos 1950 e 1960, como forma de reivindicação deidentidades social e política. Lugarinho apontou que a descoberta, por parte de autores africanos, da literatura brasileira trouxe uma perspectiva importante para inspiração em modelos literários que falam de si mesmos, de interpretações sociais e políticas de sua realidade, evitando assim a repetição dos modelos portugueses. Ao tomar como base a poesia da angola Paula Tavares, Lugarinho aponta a necessidade de refletir acerca da construção de um sujeitopoético que ao mesmo tempo distanciava-se de grandes mitose discursos sobre a nacionalidade (do imediato pós-independência) e apontava para a valorização de vozes silenciadas, como a vozes femininas, suas conexões com a ancestralidade e a importância de discutir as relações ne gênero na sociedade. Assim, Lugarinho argumenta que a poesia de Tavares seria “(...) a subversão da de uma ordem bináriaque pressupõe um dominador e um dominado,um sujeito e um objeto (LUGARINHO, 2003, p.316) ” pois em temas como o amor a poetisaapresenta um sujeitoque é ao mesmo tempo objeto esujeito das ações apresentadas. O escritor português Alfredo Margarido trouxe uma perspectiva crítica com relação ao processo de imposição da língua portuguesa junto as colôniasna África e Ásia, apontando elementos de extrema importância que permearam a experiência colonial: como o reforço às hierarquias raciais,sociais, de gênero e linguísticas. Margarido apontou de maneira assertiva algumas falhas do discurso que se pretende universalista e homogêneo com relação aos países que falam português – a lusofonia. Aqui o autor enfatizou que existiam contradições entre o dito reconhecimento de um espaço e uma históriaem comum, de um lado, e de outro o reconhecimento das violências produzidas ao longo da colonização e a dificuldade dos países recém independentes (considerando


que alguns alcançaram a independência apenas na década de 1970) e suas populações se integrarem à dinâmica capitalista da Europa, que insistia em manter uma distância entre sie o restante do mundo.


Ao tomar a literatura lusófonaafricana como uma chave de leiturados possíveis sentidos da lusofonia sugeri uma reflexão sobre a valorização das realidades dos paísesafricanos de língua portuguesa, bem como a importância de refletirmos sobre identidade, cultura,materialidade, aspectos que têm sido mobilizados pelo debate pós- colonial e decolonial desde o final do século XX.



FLÁVIA ABUD LUZ, Doutoranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Mestre em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), possui especialização em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escolade Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado (2014). Membro fundadora do NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar de Relações Internacionais posterior CERES. Autora do livro: A Apropriação dos conceitos de Martírio e Jihad pelo Hezbollah e a questãoda violência como resistência.




Referências


LUGARINHO, Mário César. “Dizer ‘eu’ Em África – Poesia E Subjetividade”. Scripta, 7 (13), 314-19, 2003.

MARGARIDO, Alfredo. A lusofonia e os lusófonos: novos mitos portugueses. Lisboa: EdiçõesUniversitárias Lusófonas, 2000.

MEDEIROS, Paula Cristina Pacheco. Lusofonia: Discursos e Representações. O Cabo dos Trabalhos: Revista Eletrônica dos Programas de Mestrado e Doutoramento do CES/FEUC/FLUC, nº1, p.1-28, 2006.

MIGNOLO, Walter. A colonialidade de cabo a rabo: o hemisfério ocidental no horizonte conceitual da modernidade. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciênciassociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005, p. 71-103.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.In: LANDER, Edgardo(org.). A colonialidade do saber: Eurocentrismo e ciências sociais.Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO,2005, p.33-49.

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