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Obama, Trump e Biden: Liderança, Crises e a Política Externa que Nasce do Indivíduo

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Júlia Saraiva


A análise de política externa tradicionalmente se concentra em fatores estruturais – como distribuição de poder, instituições internacionais e capacidades materiais – ou em fatores domésticos – como burocracias, grupos de interesse e polarização. Contudo, uma vertente analítica robusta, desenvolvida por autores como Alexander George, Margaret Hermann, Fred Greenstein, Betts, Hudson, Holsti e aprofundada na literatura do realismo neoclássico (Rose, Schweller), enfatiza que o líder político funciona como um agente filtrador, interpretando e selecionando opções de política externa à luz de suas crenças, experiências pessoais, emoções e estilo de liderança.


Essa perspectiva é particularmente relevante quando aplicada ao caso dos Estados Unidos, onde o presidente detém alto grau de autonomia na condução da política externa e onde o sistema político concede enorme peso à personalidade do chefe do Executivo. A comparação entre Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden evidencia como fatores individuais – biográficos, psicológicos e até escandalosos – moldam respostas a crises, afetam relações internacionais e produzem impactos duradouros na inserção externa norte-americana.


Barack Obama


Embora Barack Obama fosse frequentemente percebido como um líder altamente diplomático, racionalista e avesso a intervenções militares, sua política externa revela um paradoxo central: ele foi um dos presidentes contemporâneos que mais recorreu ao uso estruturado e tecnológico da força no Oriente Médio e no Norte da África. Essa discrepância entre discurso e prática ajuda a entender como o estilo pessoal influencia a forma de militarização da política externa, mesmo quando o líder constrói imagem oposta.


Obama expandiu significativamente o uso de drones armados, tornando-os um instrumento regular da política de contraterrorismo. Estima-se que, durante seus dois mandatos, foram realizados mais ataques de drones do que em toda a era Bush, inclusive em países onde os Estados Unidos não estavam oficialmente em guerra, como Paquistão, Iêmen e Somália. O caráter cirúrgico desses ataques – apresentados como de “alta precisão” – reforçou a estética do presidente tecnocrático que prefere intervenções discretas. No entanto, estudos posteriores revelaram elevado número de vítimas civis, muitas vezes subnotificadas, o que suscitou debates éticos intensos.


Além disso, Obama autorizou operações militares clandestinas e o uso sistemático de Forças de Operações Especiais, ampliando a presença militar em regiões sensíveis. Sua intervenção na Líbia (2011), embora embasada em resolução da ONU e apresentada como medida humanitária para evitar massacre em Benghazi, desencadeou um colapso estatal que resultou na multiplicação de milícias e no surgimento de novos fluxos migratórios. O próprio Obama mais tarde classificou a Líbia como “a pior decisão de sua presidência” — não por sua motivação, mas pela falta de planejamento pós-intervenção.


Na Síria, apesar de evitar uma guerra de grande escala, Obama apoiou grupos armados rebeldes e autorizou operações secretas da CIA (Programa Timber Sycamore), aprofundando a dinâmica militar do conflito. Ao mesmo tempo, sua hesitação em agir após o uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad expôs a tensão entre sua visão moral e sua aversão ao custo político de novas guerras. Essa ambivalência consolidou a percepção de um presidente diplomático na forma, militarizado no conteúdo.


No Iraque, Obama ordenou ataques aéreos contra o Estado Islâmico a partir de 2014, reinstalando presença militar em um país do qual havia se retirado anos antes. A campanha contra o ISIS, apesar de efetiva em degradar o grupo, mostrou que sua política de “pé leve” não significava ausência de força, mas sim transformação da forma como a força era aplicada.


Esse conjunto revela um líder que, apesar do discurso pacificador, mobilizou poder militar de maneira sistemática, porém tecnocrática, seletiva e calculadamente invisível, evitando compromissos terrestres prolongados, mas expandindo a lógica de guerra permanente e remota.


Donald Trump


A política externa de Donald Trump é a que mais claramente revela a influência direta do indivíduo sobre o Estado. Seu estilo personalista, impulsivo e transacional moldou desde negociações com aliados até confrontos com adversários. Trump rompeu com padrões tradicionais da diplomacia norte-americana ao colocar sua imagem, seus interesses políticos imediatos e sua lógica de poder acima das instituições. Sua personalidade — marcada por narcisismo político, necessidade de afirmação constante e desprezo por mediações burocráticas — converteu a diplomacia em extensão de sua persona.


Durante seu governo, decisões estratégicas frequentemente refletiam impulsos pessoais. A saída dos EUA do Acordo de Paris, por exemplo, foi anunciada como uma “vitória simbólica” contra elites globalistas que ele dizia combater. Suas tensões com a OTAN não derivavam apenas de debates técnicos sobre orçamento, mas de ressentimentos pessoais, como quando acusou aliados europeus de “explorar” os EUA. Sua postura em relação à Coreia do Norte oscilou entre hostilidade extrema (“fogo e fúria”) e afeto performático, como as cartas trocadas com Kim Jong-un, que ele dizia ser seu “amigo”.


Trump também enfrentou diversos escândalos, como o caso da interferência russa nas eleições de 2016 e o uso de pressões sobre a Ucrânia, episódio que resultou em seu primeiro impeachment. Esses escândalos, longe de enfraquecerem sua postura, reforçaram seu estilo combativo — ele transformava cada acusação em ferramenta política, alegando ser vítima de perseguição, o que influenciava diretamente sua forma de conduzir relações internacionais, especialmente com países que ele considerava “hostis” à sua imagem.


Sua postura em relação à Faixa de Gaza também evidenciou o peso do indivíduo. Em um episódio emblemático, Trump passou a se apresentar como responsável direto por pressões que levariam a um cessar-fogo, enquadrando a ação não como parte de uma estratégia institucional, mas como um ato “heroico” pessoal. Ao mesmo tempo, surgiram relatos de propostas extremamente controversas, como o plano de redesenhar Gaza sob controle norte-americano — algo que misturava fantasia geopolítica, impulsividade e desejo de protagonismo. Esses episódios demonstram como sua abordagem ao Oriente Médio sempre combinou interesses estratégicos com afirmações simbólicas destinadas a consolidar sua imagem.


No caso da Venezuela, Trump está adotando uma política de pressão máxima que vai além de cálculos tradicionais. Suas sanções severas, apoio explícito à oposição e ameaças diretas ao regime de Nicolás Maduro tem forte componente pessoal: Trump enxerga o tema como uma oportunidade de reforçar seu discurso antissocialista e seu papel de líder de uma cruzada ideológica. Sua abordagem combina coerção econômica e retórica de campanha doméstica, mostrando como suas convicções identitárias influenciavam decisões de alto impacto internacional.


Outro exemplo relevante é sua relação com o caso Epstein. Embora Trump tenha negado envolvimento após a prisão e morte de Jeffrey Epstein, sua associação prévia com o bilionário — registrada em fotos, eventos sociais e depoimentos da época — voltou ao debate público. Trump está reagindo ao escândalo de modo típico: em vez de distanciamento institucional, optou por transformar o tema em arma política, alegando que a “verdadeira corrupção” estava entre seus adversários. Isso ilustra sua tendência de utilizar crises pessoais como instrumentos diplomáticos e domésticos, reforçando sua narrativa de perseguição e sua visão maniqueísta de política externa.


O conjunto dessas ações demonstra como o indivíduo Donald Trump não apenas afeta a política externa, mas se torna o próprio eixo estruturador dela. Seus escândalos, impulsos e disputas pessoais transbordam para a arena internacional, onde aliados precisam lidar com seu temperamento volátil e adversários tentam explorar suas vulnerabilidades. A política externa, nesse sentido, não é articulada a partir de instituições estáveis, mas de um líder que faz da diplomacia palco de sua narrativa pessoal.


Joe Biden


A análise de Joe Biden sob a lente da política externa baseada no indivíduo revela um padrão fundamental: a profunda dissonância entre sua postura pública — calma, conciliadora e quase paternal — e suas ações concretas, marcadas por decisões agressivas, controversas e muitas vezes mal articuladas. Biden não é um presidente guiado por empatia; ele é guiado por cálculo político, reminiscências da Guerra Fria, crença profunda em alianças tradicionais e uma tendência histórica a justificar medidas duras como se fossem “necessárias” ou “inevitáveis”.


Essa discrepância se manifesta logo no início de seu governo. Em menos de um mês na presidência, Biden ordenou o bombardeio de posições na Síria (fevereiro de 2021), um ataque justificado como resposta a ações de milícias iranianas, mas que contradizia completamente sua retórica eleitoral de reduzir intervenções militares. Esse é um exemplo claro do que Hudson (2014) chama de “role dissonance”, quando o líder projeta uma identidade conciliadora, mas adota medidas que pertencem a scripts de liderança agressiva.

Outro episódio ainda mais marcante é a retirada desastrosa do Afeganistão, em agosto de 2021. Embora o plano de saída tivesse sido iniciado por Trump, Biden assumiu integralmente a decisão e a execução final — e o resultado expôs sua rigidez cognitiva e sua insistência em “cumprir a palavra”, mesmo diante de alertas da inteligência. A pressa caótica, a queda de Cabul, o colapso imediato do governo afegão, as cenas de civis caindo de aeronaves militares e a morte de 13 soldados americanos no atentado no aeroporto demonstram como as escolhas individuais do presidente geraram uma crise humanitária e estratégica de proporções históricas. Sua suposta serenidade, nesse caso, funcionou como manto retórico para justificar uma decisão inflexível e politicamente calculada.


Além disso, Biden enfrentou vários escândalos que fragilizaram sua liderança, contradizendo a ideia de estabilidade e prudência associada à sua persona. As investigações envolvendo Hunter Biden — desde acusações de tráfico de influência até questões fiscais — não apenas tornaram-se munição política, mas também afetaram a credibilidade moral do presidente. Em vez de empatia, o que se vê é opacidade, defensividade e distância, traços comuns em líderes que buscam evitar que problemas pessoais contaminem sua autoridade pública.


Sua política externa, em geral, segue esse padrão: fala-se em diplomacia, mas pratica-se dureza estrutural. Com a Rússia, Biden adotou uma postura agressiva desde o início, apostando em sanções amplas que, embora justificadas pela invasão da Ucrânia, revelam sua tendência de usar instrumentos coercitivos de modo amplo. Em relação à China, seguiu e até ampliou políticas de contenção herdadas de Trump, apesar de se apresentar como defensor da “cooperação estratégica”.


Essa contradição entre discurso e prática faz de Biden um caso exemplar para os estudos de política externa centrados no indivíduo: um líder cuja autoimagem pacífica mascara uma orientação profunda para o uso de força, coerção e decisões arriscadas, mesmo que envoltas em linguagem moderada. Assim como Obama, e de forma ainda mais visível que este, Biden demonstra como líderes podem manipular percepções públicas para legitimar ações que, na realidade, contradizem a identidade política que pretendem projetar.


Em resumo, Biden não representa uma liderança empática; representa uma liderança moderada apenas na superfície, mas guiada por rigidez, agressividade calculada e justificativas retóricas de serenidade. A diferença entre o “Biden público” e o “Biden que age” é central para entender os rumos de sua política externa.


Comparação Crítica: o indivíduo como variável determinante


A comparação entre Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden evidencia de forma contundente que a política externa dos Estados Unidos, longe de ser mera expressão das instituições, é profundamente moldada pelos indivíduos que ocupam a presidência. A psicologia política, desde Alexander George até Margaret Hermann, demonstra que líderes funcionam como filtros perceptivos que selecionam, interpretam e hierarquizam ameaças. O mesmo acontece no realismo neoclássico, que destaca como as escolhas de política externa dependem da interação entre estrutura internacional e características pessoais do líder. No caso dos últimos três presidentes, essa relação torna-se ainda mais evidente, sobretudo em momentos de crise.


Barack Obama representa o modelo do líder que privilegia análise racional, cautela estratégica e busca por legitimidade internacional. Sua postura pública — serena, calculada e retoricamente diplomática — sugere aversão a conflitos. Mas, na prática, essa serenidade se traduz em uma forma tecnocrática de uso da força, não em pacifismo. Obama recorremassivamente a drones, operações especiais e medidas militares de baixa visibilidade, em parte porque sua personalidade altamente analítica rejeita ações caóticas, mas aceita coerção seletiva que minimize custos e preserve a aparência de controle. Assim, sua frieza e lentidão decisória evitam escaladas, mas podem produzir indecisão e transmitir ambiguidade, como se viu na Síria.


Donald Trump, por outro lado, encarna o extremo oposto: um líder cuja política externa é extensão direta de sua personalidade. Sua impulsividade, necessidade de afirmação e estilo confrontacional moldam ações que frequentemente ignoram conselhos burocráticos ou análise de longo prazo. Rupturas abruptas — da saída de acordos internacionais às tensões com aliados históricos — revelam como seu personalismo transforma cada decisão em um gesto performático, frequentemente guiado por emoções e ressentimentos. Seus escândalos pessoais, longe de serem periféricos, entrelaçam-se com a diplomacia: eles influenciam a forma como enfrenta adversários, usa crises internacionais como arma política e negocia com líderes estrangeiros. A política externa de Trump é, portanto, volátil porque seu próprio comportamento é volátil.


Já Joe Biden se apresenta como figura conciliadora, experiente e estável, mas sua presidência revela uma dinâmica distinta: sua aparência serena frequentemente funciona como justificativa para decisões duras, arriscadas ou mal executadas. Em poucos dias de governo, ordenou bombardeios na Síria; meses depois, conduziu uma retirada do Afeganistão marcada pelo caos, mortes e colapso imediato do Estado afegão — um episódio que expôs rigidez decisória, resistência a revisões estratégicas e limites de sua suposta prudência. Além disso, escândalos envolvendo seu filho, episódios de indecisão e dificuldades na gestão simultânea de crises projetam um presidente que, embora busque restaurar alianças, enfrenta tensões éticas e cognitivas que afetam sua capacidade de liderança. Biden não atua guiado por empatia; atua guiado por uma mistura de cálculo político, insistência em coerência simbólica e confiança excessiva em sua experiência passada.


Esses três perfis distintos convergem em uma conclusão: não existe política externa dissociada do líder que a conduz. A forma como o presidente encara crises, lida com pressões, reage a escândalos pessoais, interpreta ameaças e administra sua própria imagem molda diretamente as opções estratégicas disponíveis. Obama transforma a força militar em instrumento cirúrgico porque privilegia controle e racionalidade; Trump transforma o sistema internacional em palco de disputas personalistas porque precisa de afirmação permanente; Biden toma decisões agressivas justificadas por serenidade performática porque acredita que sua experiência legitimará suas escolhas, mesmo quando elas produzem instabilidade.


Assim, a comparação entre os três reforça as teses tanto da psicologia política quanto do realismo neoclássico: líderes são variáveis determinantes, e sua visão de mundo — moldada por biografia, traços psicológicos e circunstâncias pessoais — se converte no eixo da política externa. Na prática, a política externa americana dos últimos quinze anos confirma que, perante crises complexas, é o indivíduo que redefine prioridades, escolhe instrumentos de poder e decide o rumo do Estado.


“As declarações aqui expressas são de responsabilidade do autor”.


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Júlia Saraiva:

Formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Assistente Comercial na empresa Rio de Negócios, consultora de internacionalização de empresas e pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais CERES.

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