top of page

África–Ásia: Dinâmicas de Crescimento e Recomposição Geoeconômica

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura

Introdução

Durante várias décadas, o imaginário do desenvolvimento global consolidou-se numa dicotomia rígida: a Ásia como motor do crescimento mundial e a África como um continente marginal no sistema econômico internacional. Essa narrativa, amplamente reproduzida no discurso político, mediático e acadêmico, falha em captar a complexidade e heterogeneidade das trajetórias africanas.


Nas últimas décadas, observam-se transformações estruturais na geografia do crescimento global, refletidas em fluxos crescentes de investimento, diversificação produtiva e integração em cadeias de valor globais. As projeções de instituições multilaterais indicam que, no horizonte 2026–2027, a taxa média de crescimento africana pode ultrapassar a da Ásia, não como uma simples inversão de hierarquias, mas como sinal de mutações profundas nas dinâmicas do sistema capitalista global.

 

1. O Reequilíbrio Relativo África–Ásia no Sistema Econômico Global

 

A Ásia permanece o principal centro de gravidade do crescimento mundial. Países como China, Japão e Coreia do Sul representam uma proporção esmagadora do PIB global em paridade de poder de compra (PPC). No entanto, a sua dinâmica de crescimento apresenta sinais de arrefecimento estrutural, refletindo constrangimentos demográficos (envelhecimento populacional), saturação de investimentos em infraestrutura e tensões geopolíticas no Indo-Pacífico que pressionam as cadeias exportadoras tradicionais.

 

Em contraste, a África emerge como um polo de atratividade de capitais que ultrapassam a mera exploração de recursos naturais. O continente deverá concentrar cerca de 90% do crescimento demográfico global até 2050, com mais de metade da sua população vivendo em áreas urbanas em expansão acelerada — fatores que ampliam tanto a oferta de trabalho quanto os mercados internos consumidores.

Esse boom demográfico urbano é acompanhado por fluxos de investimentos estrangeiros diretos (IDE) sem precedentes: em 2024, os fluxos de IDE para o continente atingiram aproximadamente 97 bilhões de dólares, equivalendo a cerca de 6% dos fluxos globais — praticamente o dobro do que representavam há uma década.

Essa expansão de capitais não se limita a projetos pontuais no Norte de África Complexo Dolar de Noor em Marrocos[1]), mas abrange setores como infraestrutura, energia, indústria transformadora e serviços, revelando uma reciclagem dos vetores de crescimento econômico global.

 

Os investimentos em infraestrutura, em particular, funcionam como plataformas para alavancar o avanço produtivo e a integração regional, criando sinergias com mercados externos e melhorando competitividade. Tais fluxos não indicam uma redistribuição imediata do poder econômico global, mas apontam para uma reconfiguração estratégica: a África deixa de ser automaticamente periférica e torna-se um espaço de atração global de capitais, tecnologias e concorrência entre potências estabelecidas e emergentes.

 

2. Dinâmicas Regionais Diferenciadas e Estratégias Nacionais

 

O crescimento africano é profundamente heterogéneo. Em vez de um padrão uniforme, observam-se trajetórias regionais distintas — cada uma articulando políticas nacionais, ativos comparativos e parcerias internacionais de maneiras específicas.

 

2.1 África Oriental: Industrialização Orientada pelo Estado e Infraestrutura

 

A África Oriental destaca-se pelo impulso estratégico à industrialização. A Etiópia é paradigmática desse trajecto: entre 2010 e 2023, o país registou taxas médias de crescimento frequentemente superiores a 8%, sustentadas por investimentos públicos massivos em infraestrutura e políticas industriais deliberadas. A expansão de parques industriais — como o Hawassa Industrial Park, com um custo de construção superior a 300 milhões de dólares e capacidade para dezenas de milhares de empregos diretos — exemplifica essa aposta na industrialização orientada por Estado. Essa infraestrutura, especializada em têxteis e confeções, atrai capital estrangeiro e inserções em cadeias de valor globais.

 

Além disso, o governo etíope tem promovido a transformação de parques industriais em zonas económicas especiais para melhorar a atratividade de IDE, com mais de 10 parques elevados a esse estatuto recentemente.

 

A ligação física entre o interior industrial e os mercados externos é fortalecida pela ferrovia Etiópia–Djibuti, que reduz o custo logístico e o tempo de transporte entre o interior e o porto de embarque, contribuindo decisivamente para a competitividade das exportações manufactureras. Projetos adicionais de corredores de transporte que ligam Etiópia, Sudão do Sul e Djibuti estão a receber financiamento de cerca de 214,4 milhões de dólares pelo Banco Africano de Desenvolvimento, reforçando a conectividade regional.

 

2.2 África Ocidental: Portos Modernizados e Recursos Naturais como Vetores de Desenvolvimento

 

A África Ocidental apresenta uma trajetória distinta, marcada por investimentos em modernização portuária e pela exploração de recursos minerais e agroindustriais.

Sub-regiões como a Nigéria, Gana e a Costa do Marfim concentram grande parte dos IDE que chegam à região.

 

Portos estratégicos, como Cotonou (Benim) e Lagos (Nigéria), têm sido alvo de programas de expansão e modernização que melhoram a eficiência logística regional. Em paralelo, projetos de exploração de bauxita e minério de ferro na Guiné — como o empreendimento de Simandou, com capacidade projetada para cerca de 120 milhões de toneladas por ano — prometem alterar profundamente os perfis exportadores nacionais e gerar receitas fiscais significativas a partir de 2025 (se diz que com esse único projeto o PIB da Guiné vai duplicar).

 

Esses vetores combinam recursos naturais com infraestrutura logística, criando plataformas para integração regional e inserção competitiva nos mercados globais.

 

3. A Costa do Marfim: Laboratório de Crescimento e Tensões Estruturais

 

A Costa do Marfim representa um caso paradigmático de crescimento sustentado e das muitas tensões que acompanham a transição econômica africana.

 

Após um período prolongado de crises político-militares entre 2002 e 2011, o país registou uma recuperação rápida, com uma média de crescimento superior a 6% ao ano entre 2012 e 2022. A consolidação institucional permitiu um conjunto robusto de investimentos públicos, especialmente em infraestrutura rodoviária, energética e urbana. Abidjan consolidou-se como um hub financeiro e logístico regional, concentrando sedes de bancos, multinacionais e instituições internacionais.

O porto autônomo de Abidjan, com mais de 30 milhões de toneladas de tráfego anual, é um pilar dessa dinâmica, funcionando como porta de entrada para o comércio regional e para os países sem litoral vizinhos.

 

3.1 Agricultura, Commodities e Transformação Industrial

 

A economia marfinense continua profundamente ancorada na agricultura. A Costa do Marfim é responsável por cerca de 40% da produção mundial de cacau, conferindo-lhe importância sistêmica no mercado global desse “commodity”. Contudo, a baixa taxa de transformação local (inferior a 35%) evidencia limitações industriais e de financiamento que reduzem a capacidade de capturar valor agregado internamente.

 

O desafio estratégico reside em desenvolver cadeias de valor mais profundas na agroindústria, diversificando produtos e reduzindo a dependência de commodities básicas, cujo preço internacional é notoriamente volátil.

 

3.2 Energia e Sustentabilidade Fiscal

 

Desde a entrada em operação do campo de petróleo e gás Baleine em 2023, a Costa do Marfim tem aumentado a sua autonomia energética e as perspectivas de receitas públicas significativas. Em paralelo, o Banco Africano de Desenvolvimento aprovou programas financiados de mais de 115 milhões de euros para desenvolver infraestruturas agrícolas e de conectividade transfronteiriça, sublinhando a aposta na integração econômica regional.

 

Outro foco de investimento é a capacitação juvenil e socioprofissional, com empréstimos de cerca de 139 milhões de euros aprovados para projetos de formação e emprego jovem — refletindo uma conscientização crescente da importância do capital humano no futuro desenvolvimento sustentável.

 

Paradoxalmente, enquanto esses investimentos constroem capacidades, persistem desafios estruturais — clima vulnerável, infraestruturas rurais insuficientes e desigualdades regionais — que exigem políticas públicas consistentes e integração estratégica com parcerias internacionais.

 

4. Recomposição das Parcerias Externas e Concorrência Estratégica

 

A recomposição geoeconômica africana está intrinsecamente ligada à pluralização de parceiros externos. Embora a China continue a desempenhar um papel mais que central, financiando e construindo grandes projectos de infraestrutura em vários países africanos, outros atores como os países do Golfo, a Índia, e potências ocidentais expandem a sua presença em setores diversificados — desde energia renovável até tecnologia e logística digital.

 

Essa diversificação de parceiros aumenta a margem de manobra estratégica dos Estados africanos e permite formas de negociação que não estavam disponíveis anteriormente, reduzindo a dependência exclusiva de um único bloco geopolítico. Contudo, ela também intensifica a competição internacional no continente, com riscos de dependências financeiras assimétricas e de pressões diplomáticas.

 

Conclusão

A possibilidade de que a taxa média de crescimento africana supere a da Ásia em 2026–2027 deve ser interpretada como um sinal de recomposição geoeconômica, não como uma inversão simplista das hierarquias globais tradicionais.

A África está a emergir como um espaço central de atração de capitais, projetos industriais e concorrência estratégica multipolar.

 

Entre oportunidades consideráveis — como o desenvolvimento de parques industriais, modernização de portos e expansão agroindustrial — e fragilidades persistentes — incluindo desafios climáticos, institucionais e socioeconômicos — o principal desafio para os Estados africanos é transformar um crescimento quantitativo ainda desigual em um desenvolvimento sustentável, integrador e economicamente durável.

 

O caso da Costa do Marfim encapsula esta contradição: um país com recursos naturais vastos e investimentos estratégicos significativos, mas que enfrenta tensões inerentes à transição para uma economia mais complexa e resiliente. Essa tensão entre potencial e vulnerabilidade será um dos temas centrais dos debates geoeconômicos africanos no século XXI.

 

Referências de alguns projetos em andamento e seus financiamentos

 

Projeto

Ano de Início

País(es)

Setor

Valor Estimado (USD)

Fonte de Financiamento

Status

Grand Inga Dam

Planeamento inicial: 2010 (Fase atual em preparação)

RDC

Energia hidroelétrica

~80 mil milhões

Consórcios internacionais + bancos multilaterais (Banco Mundial, BAD – fases preliminares)

Planeado / Estruturação financeira

LAPSSET Corridor

2012

Quénia / Sudão do Sul / Etiópia

Transporte multimodal (porto, ferrovia, rodovia, oleoduto)

~24 mil milhões

Governo do Quénia + PPP + interesse de capital chinês e indiano

Parcialmente em construção

Nigeria Coastal Highway (Lagos–Calabar)

2024

Nigéria

Infraestrutura rodoviária

~11 mil milhões

Crédito sindicado internacional (Deutsche Bank, bancos do Golfo) + Estado nigeriano

Em construção (fase inicial)

East African Crude Oil Pipeline (EACOP)

2023

Uganda / Tanzânia

Energia / Oleoduto

~3–5 mil milhões

TotalEnergies (62%), CNOOC, UNOC, TPDC

Em construção

Bagamoyo Port Project

Acordo inicial 2013 (relançado 2022)

Tanzânia

Porto marítimo + ZEE

~10–11 mil milhões

China Merchants Port + Fundo soberano de Omã + Estado tanzaniano

Planeado / Negociação

Mphanda Nkuwa Dam

2022 (reativação formal)

Moçambique

Energia hidroelétrica

~5 mil milhões

União Europeia + Banco Europeu de Investimento + parceiros privados

Estruturação financeira / Pré-construção

Tanzania Standard Gauge Railway (SGR)

2017

Tanzânia

Ferrovia

~10+ mil milhões (projeto total)

Governo da Tanzânia + African Development Bank + bancos comerciais

Em construção (fases avançadas)

Kandadji Dam

2011

Níger

Hidroenergia + Irrigação

~1,3 mil milhões

Banco Mundial + Banco Africano de Desenvolvimento + parceiros multilaterais

Em construção (intermitente)

Sanankoroba Solar Plant

2024

Mali

Energia solar (200 MW)

~217 milhões

PPP com NovaWind (Rosatom, Rússia)

Em preparação avançada

Nigeria–Morocco Gas Pipeline

Memorando inicial 2016 (fase técnica ativa desde 2022)

Nigéria / Marrocos + 11 países costeiros

Gasoduto regional

~25 mil milhões

NNPC (Nigéria) + ONHYM (Marrocos) + apoio potencial de bancos multilaterais e investidores do Gol


 

Observações Estratégicas

 

-          Predominância do setor energético: Energia (hidroelétrica, petróleo, gás e renováveis) representa a maior parcela do investimento em infraestrutura continental.

 

-          Financiamento híbrido: A maioria dos projetos combina financiamento público nacional, bancos multilaterais (Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, BEI) e capital privado via PPP.

 

-          Forte presença chinesa e europeia: China (infraestrutura pesada), União Europeia (energia e clima), e países do Golfo (logística e energia) figuram como financiadores recorrentes.

 

-          Integração regional crescente: Projetos como LAPSSET, SGR e o gasoduto Nigéria–Marrocos visam consolidar corredores económicos transfronteiriços, reduzindo custos logísticos e estimulando integração continental no âmbito da AfCFTA.

 

Referências Bibliográficas

 

Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook, 2024–2025.

Banco Mundial. World Development Indicators, 2024.

Organização das Nações Unidas. World Population Prospects 2022.

UNCTAD. World Investment Report 2024.

Banco Africano de Desenvolvimento. African Economic Outlook 2023.

Banco Mundial. Ethiopia Industrial Parks Report, 2022.

China Exim Bank. Infrastructure Financing Reports.

Rio Tinto; Winning Consortium Simandou. Project documentation 2023–2024.

Autoridade Portuária de Abidjan. Relatórios Anuais 2023.

Organização Internacional do Cacau. Quarterly Bulletin of Cocoa Statistics, 2024.

Banco Mundial. Côte d’Ivoire Economic Update, 2023.

Sachs, J. & Warner, A. (2001). The Curse of Natural Resources. European Economic Review.

Fórum de Cooperação China-África. Relatórios oficiais, 2024.


[1] Um dos maiores projetos de energia renovável do continente, o Complexo Solar Noor em Ouarzazate (Marrocos) representa um exemplo emblemático de investimento internacional em infraestrutura energética no Norte de África. O projeto inclui várias fases (Noor I, II, III e PV1), com uma capacidade total de mais de 500 MW em energia solar térmica e fotovoltaica e um contrato total estimado em cerca de €1,7 bilhões com empresas internacionais lideradas por ACWA Power e parceiros europeus e árabes.


Marco Alves

Mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre, em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes e em Relações e Negocios Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais de Paris(ILERI).

Atuou em 30 países, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco como especialista em desenvolvimento.

Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada econômica em zonas pós conflito.

Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com intervenção no Burquina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.

Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.

Presidente da Assembleia do IFSRA (Institute for Social Research in Africa) 

Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense

Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial. 

Comentários


NOSSOS HORÁRIOS

Segunda a Sábado, das 09:00 às 19h.

VOLTE SEMPRE!

NOSSOS SERVIÇOS

Siga nossas redes sociais!

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram

O CERES é uma plataforma para a democratização das Relações Internacionais onde você é sempre bem-vindo!

- Artigos

- Estudos de Mercado

- Pesquisas

- Consultoria em Relações Internacionais

- Benchmarking

- Palestras e cursos

- Publicações

© 2021 Centro de Estudos das Relações Internacionais | CERESRI - Imagens By Canvas.com - Free Version

bottom of page