top of page

A Copa do Mundo de 2026 e a Geopolítica do Futebol: Soft Power, Soberania, Migração e a Transformação da FIFA em Ator Político Global

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • há 19 minutos
  • 9 min de leitura

Marco Alves

 

Introdução


A Copa do Mundo organizada pela FIFA sempre ultrapassou os limites do esporte. Desde sua criação, o torneio constituiu um espaço privilegiado de projeção de poder, construção de legitimidade nacional e afirmação simbólica das grandes potências. O futebol, frequentemente apresentado como linguagem universal capaz de unir povos e culturas, tornou-se, ao longo do século XX e início do século XXI, um instrumento estratégico de influência política, diplomática e ideológica. Nesse contexto, a Copa do Mundo de 2026 surge como um possível ponto de inflexão histórico: não apenas pela dimensão inédita do torneio, mas sobretudo pelas circunstâncias geopolíticas que envolvem sua organização.


A edição de 2026 ocorrerá simultaneamente nos Estados Unidos, Canada e Mexico, marcando a primeira Copa do Mundo organizada por três países. Contudo, o elemento mais significativo reside no fato de que o evento ocorrerá durante um período de forte polarização internacional, marcado pelo retorno do nacionalismo, pela intensificação das disputas entre grandes potências e pela crescente instrumentalização política dos megaeventos esportivos.


Mais do que um torneio de futebol, a Copa de 2026 poderá transformar-se numa gigantesca arena diplomática global. Questões migratórias, rivalidades geopolíticas, conflitos armados, disputas narrativas e estratégias de soft power estarão presentes em cada dimensão da competição. O evento corre o risco de evidenciar uma contradição central do sistema internacional contemporâneo: enquanto o futebol pretende representar a universalidade e a integração global, ele permanece profundamente condicionado pelas estruturas de poder e pelas tensões políticas do mundo contemporâneo.

 

I)             O Futebol como Instrumento de Poder Político


A relação entre futebol e política não constitui novidade histórica. Ao longo do século XX, diferentes regimes compreenderam rapidamente o potencial mobilizador do esporte enquanto ferramenta de legitimação política e propaganda nacional.


A Copa da FIFA de 1934, organizada pela Itália fascista de Benito Mussolini, representou uma das primeiras utilizações sistemáticas do futebol como instrumento ideológico. O torneio serviu para projetar internacionalmente a imagem de força e unidade do regime fascista italiano.


Décadas mais tarde, a Copa da FIFA de 1978 constituiu outro exemplo emblemático da instrumentalização política do esporte. Enquanto milhares de opositores eram presos, torturados e desapareciam sob a ditadura militar argentina, o regime utilizava o sucesso esportivo da seleção nacional como mecanismo de construção de consenso interno e neutralização das críticas internacionais.


No século XXI, a dimensão geopolítica do futebol tornou-se ainda mais evidente. A a Copa da FIFA de 2022 simbolizou a ascensão dos Estados do Golfo enquanto atores centrais da diplomacia esportiva global. O Catar utilizou a competição como ferramenta de soft power, buscando reposicionar sua imagem internacional, ampliar sua influência diplomática e consolidar sua relevância estratégica no sistema internacional.


A lógica subjacente permanece constante: organizar uma Copa do Mundo significa controlar narrativas globais. O país-sede torna-se centro da atenção midiática internacional durante semanas, podendo projetar imagens cuidadosamente construídas de modernidade, estabilidade, prosperidade e legitimidade política. O futebol transforma-se, assim, num mecanismo de fabricação simbólica do poder.

 

II)            A Copa de 2026 e a Reconfiguração da Ordem Mundial


A Copa do Mundo de 2026 ocorrerá num contexto internacional profundamente distinto daquele que caracterizou as últimas décadas da globalização liberal. O sistema internacional contemporâneo atravessa um período de transição marcado pela erosão da hegemonia ocidental, pela ascensão da China, pelo fortalecimento dos BRICS e pelo retorno da competição estratégica entre grandes potências.


Nesse cenário, os Estados Unidos buscam reafirmar sua liderança global. A realização da Copa em território norte-americano assume, portanto, uma dimensão geopolítica clara. O evento permitirá aos Estados Unidos projetarem uma imagem de potência tecnológica, organizacional e securitária, ao mesmo tempo em que tentarão demonstrar capacidade de liderança cultural e diplomática.


Contudo, a presidência de Donald Trump introduz um elemento adicional de complexidade. Sua política externa baseada no unilateralismo, no endurecimento migratório e no nacionalismo econômico contrasta diretamente com a narrativa universalista tradicionalmente associada à Copa do Mundo. Surge, então, um paradoxo central: como conciliar um megaevento global baseado na circulação internacional de pessoas com políticas migratórias restritivas e discursos nacionalistas?


Essa contradição poderá tornar-se particularmente visível em relação ao Irã. As tensões entre Washington e Teerã permanecem elevadas há décadas, envolvendo disputas nucleares, rivalidades regionais e sanções econômicas. Embora o direito internacional esportivo imponha aos países-sede a obrigação de permitir a entrada das delegações participantes, persistem dúvidas sobre o tratamento reservado a dirigentes, jornalistas e torcedores iranianos.


O problema transcende a dimensão esportiva. Caso restrições migratórias sejam aplicadas seletivamente, a Copa corre o risco de transformar-se numa manifestação explícita das hierarquias geopolíticas contemporâneas. O acesso ao espetáculo esportivo deixaria de depender exclusivamente da classificação esportiva, passando também a refletir relações de poder interestatais.

 

III)           Migração, Vigilância e Controle


Outro aspecto central da Copa de 2026 reside na questão migratória. O torneio ocorrerá num momento de intensificação das tensões relacionadas às fronteiras, aos fluxos migratórios e à securitização das sociedades ocidentais. Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram significativamente os mecanismos de vigilância, controle biométrico e monitoramento digital em nome da segurança nacional.


Megaeventos esportivos historicamente funcionam como laboratórios de experimentação securitária. Olimpíadas e Copas do Mundo frequentemente justificam a implementação de tecnologias avançadas de vigilância, reconhecimento facial e controle populacional. Em muitos casos, tais dispositivos permanecem ativos mesmo após o encerramento dos eventos.


A Copa de 2026 poderá aprofundar essa tendência. Milhões de torcedores circularão entre Estados Unidos, Canadá e México, exigindo operações de segurança sem precedentes. Nesse contexto, existe o risco de que o torneio seja utilizado para legitimar novas formas de monitoramento em massa, particularmente direcionadas a populações migrantes e comunidades latino-americanas presentes nos Estados Unidos.


Além disso, o discurso político em torno da imigração poderá influenciar diretamente a percepção internacional do evento. A Copa, que deveria simbolizar integração global, poderá acabar associada a imagens de fronteiras militarizadas, detenções migratórias e seletividade geopolítica na circulação internacional de pessoas.


Isso atinge inclusive as seleções oriundas de países afetados pelas novas restrições migratórias americanas. O caso do Haiti tornou-se emblemático: apesar da classificação histórica para a Copa de 2026, muitos torcedores, jornalistas e até membros ligados ao futebol haitiano enfrentam incertezas quanto à obtenção de vistos para entrar nos Estados Unidos. As restrições atingem igualmente outros países sob maior vigilância migratória, como Irã, além de nações africanas como Senegal e Costa do Marfim. Embora atletas e delegações oficiais devam teoricamente beneficiar de exceções diplomáticas, persistem dúvidas sobre acompanhantes, funcionários técnicos, voluntários e torcedores. Alguns analistas temem inclusive que recusas de vistos ou atrasos administrativos acabem criando uma Copa “a duas velocidades”, onde a universalidade proclamada pela FIFA esbarraria diretamente nas hierarquias geopolíticas e migratórias do mundo contemporâneo.[1]


IV)          A FIFA e a Crise da Neutralidade


A crescente politização da Copa de 2026 também coloca em evidência a transformação da FIFA enquanto ator político global. Tradicionalmente, a entidade insiste na ideia de neutralidade esportiva, defendendo que o futebol deve permanecer separado das disputas políticas. Contudo, essa posição tornou-se progressivamente insustentável.


Os escândalos de corrupção revelados em 2015 fragilizaram profundamente a legitimidade institucional da FIFA. Acusações envolvendo compra de votos, contratos obscuros e redes internacionais de corrupção revelaram o funcionamento altamente politizado da organização. Desde então, a entidade tenta reconstruir sua imagem, mas continua enfrentando críticas recorrentes relacionadas à transparência e governança.


A relação entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e diversos líderes políticos internacionais reforça essa percepção. Infantino tem cultivado proximidade com chefes de Estado de diferentes orientações ideológicas, incluindo líderes autoritários ou controversos.

A proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump, pro exemplo, tornou-se um dos símbolos mais controversos da crescente politização da FIFA. Desde o primeiro mandato de Trump, Infantino cultivou uma relação particularmente cordial com o presidente americano, vendo nos Estados Unidos um parceiro estratégico essencial para a expansão comercial e mediática do futebol. Essa aproximação gerou críticas dentro e fora do mundo esportivo, sobretudo após Infantino entregar a Trump uma distinção apresentada como um “prêmio mundial da paz” (talvez para apaziguar o coraçõ do presidente americano por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz?), gesto interpretado por muitos analistas como uma tentativa de reforçar alianças políticas em torno da Copa do Mundo de 2026. Para numerosos observadores, esse episódio simboliza a transformação da FIFA em ator diplomático global, que opera hoje como uma espécie de diplomacia paralela (global) disposto a aproximar-se de líderes políticos influentes — independentemente das controvérsias associadas às suas políticas internas ou internacionais — para preservar seus interesses econômicos, estratégicos e institucionais em escala transnacional.


A Copa de 2026 poderá aprofundar ainda mais essa crise de legitimidade. Caso questões migratórias ou diplomáticas interfiram diretamente na competição, a FIFA será pressionada a posicionar-se politicamente. A neutralidade deixará de ser uma opção viável.

 

V)           Soft Power e Guerra de Narrativas


No contexto contemporâneo, o futebol tornou-se um dos principais instrumentos de soft power disponíveis aos Estados. O conceito, desenvolvido por Joseph Nye, refere-se à capacidade de influenciar outros atores por meio da atração cultural, simbólica e ideológica, em vez da coerção militar ou econômica.


A Copa do Mundo representa talvez a forma mais poderosa de soft power esportivo existente. O evento mobiliza bilhões de espectadores e produz enorme impacto emocional global. Controlar a narrativa da competição significa influenciar percepções internacionais sobre legitimidade, modernidade e prestígio nacional.


Para os Estados Unidos, a Copa de 2026 constitui uma oportunidade estratégica crucial. Num momento em que a influência americana é contestada por múltiplos atores internacionais, o torneio poderá funcionar como mecanismo de reafirmação simbólica da centralidade americana no sistema global. Entretanto, essa tentativa de reposicionamento ocorre num contexto de crescente fragmentação informacional. Redes sociais, polarização política e disputas narrativas transformarão cada episódio da competição em objeto de batalha simbólica internacional. Questões relacionadas a racismo, imigração, direitos humanos ou repressão policial poderão rapidamente adquirir dimensão planetária.


Além disso, atletas e seleções nacionais tornaram-se progressivamente atores políticos. Nos últimos anos, jogadores passaram a posicionar-se sobre temas como discriminação racial, desigualdade social e conflitos internacionais. Em 2026, a FIFA provavelmente tentará limitar manifestações políticas explícitas para evitar crises diplomáticas. Porém, essa estratégia poderá revelar-se inviável diante do ambiente altamente polarizado da política internacional contemporânea.

 

 

Conclusão


A Copa do Mundo de 2026 poderá entrar para a história não apenas como um megaevento esportivo, mas como um retrato das tensões estruturais do século XXI. O torneio ocorrerá num momento de transição geopolítica profunda, marcado pela crise da globalização liberal, pela intensificação das rivalidades estratégicas e pela crescente instrumentalização política do esporte.


Mais do que simples competição futebolística, a Copa constituirá uma arena diplomática global onde se confrontarão diferentes visões de mundo, estratégias de poder e disputas narrativas. Questões migratórias, rivalidades interestatais, vigilância tecnológica, soft power e legitimidade internacional estarão presentes em cada dimensão do evento.


Nesse contexto, a FIFA deixa progressivamente de ser apenas uma organização esportiva para tornar-se um ator político transnacional inserido nas dinâmicas de poder da globalização contemporânea. Sua pretensão de neutralidade revela-se cada vez mais difícil de sustentar.


A Copa de 2026 mostrará, talvez de forma definitiva, que o futebol contemporâneo não pode mais ser compreendido apenas como esporte ou entretenimento. Ele tornou-se um território central da competição geopolítica global, onde Estados, corporações, organizações internacionais e atores privados disputam influência, legitimidade e poder simbólico.


No fim das contas, o verdadeiro significado político da Copa talvez resida precisamente nessa transformação: o futebol converteu-se em espelho da ordem internacional contemporânea — com todas as suas contradições, conflitos e batalhas pelo controle do imaginário global.

 

Marco Alves

Mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre, em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes e em Relações e Negocios Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais de Paris(ILERI).

Atuou em 30 países, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco como especialista em desenvolvimento.

Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada econômica em zonas pós conflito.

Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com intervenção no Burquina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.

Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.

Presidente da Assembleia do IFSRA (Institute for Social Research in Africa) 

Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense

Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial. 

 

Bibliografia

-          Allison, Lincoln. The Global Politics of Sport: The Role of Global Institutions in Sport. Routledge, 2005.

-          Black, David, e Janis Van Der Westhuizen. “The Allure of Global Games for ‘Semi-Peripheral’ Polities and Spaces: A Research Agenda.” Third World Quarterly, vol. 25, no. 7, 2004.

-          Boykoff, Jules. Power Games: A Political History of the Olympics. Verso, 2016.

-          Brannagan, Paul Michael, e Richard Giulianotti. “Soft Power and Soft Disempowerment: Qatar, Global Sport and Football’s 2022 World Cup Finals.” Leisure Studies, vol. 34, no. 6, 2015.

-          Foer, Franklin. How Soccer Explains the World. Harper Perennial, 2010.

-          Gaffney, Christopher. Temples of the Earthbound Gods: Stadiums in the Cultural Landscapes of Rio de Janeiro and Buenos Aires. University of Texas Press, 2008.

-          Giulianotti, Richard. Sport: A Critical Sociology. Polity Press, 2005.

-          Hobsbawm, Eric. Nations and Nationalism since 1780. Cambridge University Press, 1990.

-          Nye, Joseph. Soft Power: The Means to Success in World Politics. PublicAffairs, 2004.

-          Sugden, John, e Alan Tomlinson. FIFA and the Contest for World Football. Polity Press, 1998.

-          Tomlinson, Alan. FIFA: The Men, the Myths and the Money. Routledge, 2014.

-          Zimbalist, Andrew. Circus Maximus: The Economic Gamble Behind Hosting the Olympics and the World Cup. Brookings Institution Press, 2015.


[1] https://www.bbc.co.uk/sport/football/articles/cp37kpqpdq2o?utm_source=chatgpt.com "World Cup 2026: Which countries are banned? - BBC Sport"

Comentários


NOSSOS HORÁRIOS

Segunda a Sábado, das 09:00 às 19h.

VOLTE SEMPRE!

NOSSOS SERVIÇOS

Siga nossas redes sociais!

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram

O CERES é uma plataforma para a democratização das Relações Internacionais onde você é sempre bem-vindo!

- Artigos

- Estudos de Mercado

- Pesquisas

- Consultoria em Relações Internacionais

- Benchmarking

- Palestras e cursos

- Publicações

© 2021 Centro de Estudos das Relações Internacionais | CERESRI - Imagens By Canvas.com - Free Version

bottom of page