Entre Narrativas, Soberania e Contradições: A Guerra que Expõe os Limites do Sistema Internacional
- CERES

- há 38 minutos
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A atual escalada no Oriente Médio não pode ser compreendida apenas como mais um episódio de instabilidade regional. O que está em curso revela algo mais profundo: uma crise simultânea de legitimidade, coerência estratégica e credibilidade institucional no sistema internacional contemporâneo.
Diferentemente de conflitos anteriores, onde as justificativas políticas tendiam a manter uma aparência de consenso interno, o cenário atual apresenta fissuras visíveis no próprio núcleo decisório das grandes potências.
A ruptura interna nos Estados Unidos
Um dos acontecimentos mais reveladores foi a demissão do responsável pelo contraterrorismo dos Estados Unidos, que deixou o cargo com uma declaração contundente: o Irã não representava uma ameaça iminente ao país. Mais do que isso, indicou a ausência de evidências concretas de atividades nucleares relevantes desde os bombardeios realizados no ano anterior. Informações recentes indicam que após os ataques os órgãos de segurança americanos intensificaram a vigilância interna sem apontar, até então, ameaças concretas ou imediatas ligadas ao Irã, que até então estava em negociação com a comunidade internacional. Por outro lado os ataques cometidos por Israel contra a cúpula iraniana mostra que a inteligência hebrea estava em plena atividade.
O resultado é uma situação incomum: o discurso oficial da Casa Branca começa a ser questionado dentro do próprio aparato de segurança nacional e internacional. Isso representa uma mudança significativa. Historicamente, as grandes intervenções militares dos Estados Unidos foram precedidas por um alto grau de alinhamento interno. Hoje, esse consenso parece fragmentado.
Essa fragmentação não apenas enfraquece a narrativa externa, mas levanta dúvidas sobre os próprios critérios que fundamentam o uso da força no sistema internacional.
Europa: entre alinhamento e autonomia
Se nos Estados Unidos a crise é interna, na Europa ela se manifesta no plano das alianças.
A decisão do governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, de não autorizar o uso de bases militares americanas em território nacional marca um ponto de inflexão importante. Amparada no acordo bilateral que regula essas instalações, a Espanha reafirma um princípio frequentemente relativizado nas alianças ocidentais: a soberania.
Ainda assim, o país adotou uma postura híbrida ao enviar um navio de guerra para a região próxima a Chipre, deixando claro que sua atuação se limita ao apoio logístico, sem envolvimento direto no conflito.
O mais relevante, contudo, não é o caso espanhol isoladamente, mas o efeito político que ele desencadeia. Itália, tradicionalmente alinhada a Washington, passou a adotar uma posição semelhante. Posteriormente, a Alemanha — principal economia europeia — também sinalizou sua não participação direta na guerra.
Forma-se, assim, um novo padrão: a Europa não rompe com os Estados Unidos, mas deixa de segui-los automaticamente.
Essa mudança revela um deslocamento estrutural no comportamento das alianças. A lógica da obediência estratégica dá lugar a uma lógica de adesão condicionada.
O desconforto europeu e a crise do discurso jurídico
Esse reposicionamento europeu foi acompanhado por um episódio simbólico de grande impacto: declarações da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, sugerindo que o continente não manteria plenamente o compromisso com o Direito Internacional.
A reação foi imediata. A necessidade de retificação demonstra que, apesar da pressão estratégica, a legitimidade normativa ainda possui peso político na Europa. No entanto, o episódio também evidencia algo mais inquietante: até que ponto o Direito Internacional continua sendo um limite efetivo — e não apenas retórico — para a ação dos Estados?
Energia, guerra e contradições estratégicas
No plano econômico, as tensões assumem uma forma ainda mais complexa com o fechamento do estreito de Ormuz, que alterou significativamente o fluxo energético global, pressionando diretamente as economias europeias. Nesse contexto, a decisão dos Estados Unidos de flexibilizar o uso de petróleo russo cria uma contradição evidente, ao final essa decisão abre uma nova fonte de recursos para que a Russía possa investir com a Guerra em pleno continente europeo (Ucrânia).
Enquanto a Europa sustenta, há anos, os custos econômicos e políticos da guerra na Ucrânia — incluindo sanções e reconfiguração energética —, Washington adota medidas que, na prática, relativizam esse esforço.
O episódio expõe uma realidade muitas vezes ocultada: os interesses estratégicos dentro do bloco ocidental não são plenamente convergentes e em momentos de crise, essa divergência torna-se explícita.
A ilusão de uma guerra curta
Apesar de discursos políticos sugerirem um desfecho próximo — incluindo declarações de Donald Trump —, os sinais estruturais indicam o contrário.
O Pentágono já solicitou aumentos significativos no orçamento militar, o que sugere preparação para um conflito prolongado. Paralelamente, analistas começam a discutir a possibilidade de mobilização de tropas, o que representaria uma escalada qualitativa da guerra.
Além disso, mesmo após a eliminação de parte significativa da liderança iraniana, o país demonstra capacidade de resposta e adaptação. Diferentemente de outros contextos, como o venezuelano, o sistema político iraniano não apresenta sinais de colapso imediato.
Esse ponto é central: os Estados Unidos parecem ter subestimado as especificidades do modelo iraniano, aplicando analogias inadequadas a uma realidade profundamente distinta, onde religião e cultura permeia todo o processo.
Expansão potencial e reconfiguração estratégica
Outro elemento que começa a emergir, ainda que no campo da especulação, é a possibilidade de ampliação da pressão americana para outros cenários geopolíticos, como Cuba.
Se confirmada, essa tendência indicaria que o conflito atual não é apenas um episódio isolado, mas parte de uma reconfiguração mais ampla da estratégia global dos Estados Unidos.
Nesse sentido, a guerra no Oriente Médio pode ser apenas o primeiro teatro de uma dinâmica mais extensa.
Sendo assim, o conjunto desses fatores aponta para uma conclusão inevitável: não estamos diante apenas de uma guerra, mas de uma transformação estrutural do sistema internacional.
O consenso interno nas grandes potências está fragilizado
As alianças tornam-se condicionais
O Direito Internacional perde previsibilidade
As estratégias econômicas revelam contradições profundas
A soberania estatal permanece central, mas já não opera da mesma forma. A interdependência global amplia os impactos dos conflitos, enquanto a capacidade das instituições internacionais de regulá-los mostra-se cada vez mais limitada.
Mais do que um conflito regional, o que se observa é um sistema internacional sob pressão, onde normas, poder e interesses deixam de convergir de forma estável.
E talvez esse seja o ponto mais crítico: o mundo não está apenas em guerra, está em redefinição.

Wesley Sá Teles Guerra é especialista em cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação em instituições de referência internacional. É fundador do Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES), no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África, na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madrid.
Ao longo da sua trajetória, realizou estudos em instituições como o CPE de Barcelona (Negociações Internacionais), a FESPSP (Relações Internacionais e Ciência Política), a Universidade da Corunha – UDC (Mestrado em Políticas Sociais e Migrações), o MIB de Massachusetts (MBA em Marketing Internacional), a Universidade de Andorra (Mestrado em Smart Cities) e é doutorando em Sociologia pela UNED (Espanha).
É autor dos livros Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente em fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, também é comentarista convidado da emissora CBN Recife. Finalista do Prémio ABANCA de investigação académica. Além disso, integra redes e plataformas como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, com ativa participação no âmbito internacional.





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