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Governo Trump 2.0 em crise? Guerra, fragmentação doméstica e os limites da diversionary war

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  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Júlia Saraiva


A conjuntura política dos Estados Unidos no segundo governo de Donald Trump evidencia um quadro de crescente tensão entre política externa e dinâmica doméstica, marcado pela sobreposição de crises institucionais, fragmentação intra elite e contestação da legitimidade governamental. Longe de representar um episódio isolado, esse cenário insere-se em um processo mais amplo de transformação da política americana, no qual a erosão de consensos tradicionais, especialmente no campo da política externa, altera profundamente os mecanismos de coordenação entre Executivo, Legislativo e opinião pública. Nesse contexto, a análise do engajamento militar externo, da reação do Congresso, da reemergência do caso Jeffrey Epstein e da hipótese de instrumentalização da política externa como estratégia de distração torna-se central para compreender os contornos e os limites da crise em curso.


A escalada militar envolvendo o Irã constitui um dos principais vetores de instabilidade. A condução dessas ações pelo Executivo tem sido amplamente contestada no Congresso, refletindo não apenas divergências partidárias, mas uma inflexão mais profunda na relação entre os poderes. Conforme apontam análises do Council on Foreign Relations (2025), observa-se um esforço crescente do Legislativo em acertar suas prerrogativas no que se refere ao uso da força, especialmente diante da percepção de expansão unilateral do poder presidencial em matéria de segurança internacional desde o pós-11 de Setembro. Essa dinâmica indica uma reconfiguração institucional relevante, na qual o Congresso busca recuperar centralidade em decisões estratégicas tradicionalmente monopolizadas pelo Executivo.


O aspecto mais significativo desse processo, contudo, reside no caráter bipartidário da resistência à intervenção militar. Diferentemente de episódios como a Guerra do Iraque, em que se verificou amplo alinhamento entre democratas e republicanos, o cenário atual revela uma convergência inédita entre setores de ambos os partidos contrários à escalada do conflito. Tal movimento pode ser interpretado à luz da crescente fadiga de guerra da sociedade americana e da reconfiguração ideológica do Partido Republicano, cuja base eleitoral passou a incorporar elementos de ceticismo em relação ao intervencionismo externo. Como argumenta Oliver Stuenkel (2023), a política externa dos Estados Unidos vem sendo progressivamente tensionada por dinâmicas domésticas que reduzem a margem de manobra do Executivo e tornam mais custosa a sustentação de compromissos militares prolongados.


Paralelamente, o ressurgimento do caso Jeffrey Epstein adiciona uma dimensão adicional de instabilidade, ao expor fissuras no interior das elites políticas e econômicas. A pressão por transparência, impulsionada por diferentes setores do espectro político, contribui para intensificar a percepção de crise sistêmica, na medida em que reforça narrativas de conluio entre poder político e interesses privados. De acordo com a cobertura do Financial Times (2025) e do The New York Times (2026), o caso ultrapassa a lógica tradicional de escândalos partidários, atingindo simultaneamente atores de diferentes filiações ideológicas e dificultando estratégias de contenção narrativa por parte do governo. Nesse sentido, o episódio atua como catalisador de uma crise de legitimidade mais ampla, ao alimentar desconfiança generalizada em relação às instituições.


É nesse contexto que a teoria da “diversionary war” adquire relevância analítica. Desenvolvida a partir de estudos clássicos de Jack Levy (1989), essa abordagem sustenta que líderes políticos, diante de pressões domésticas, podem recorrer a conflitos externos como forma de desviar a atenção da opinião pública, fortalecer a coesão interna e recuperar apoio político. O mecanismo central dessa estratégia reside no chamado efeito “rally around the flag”, no qual a percepção de ameaça externa tende a gerar apoio temporário à liderança nacional.


No entanto, a aplicação dessa lógica ao contexto contemporâneo dos Estados Unidos exige cautela analítica. Embora seja possível identificar correlações entre momentos de intensificação de crises domésticas — como o avanço das investigações relacionadas ao caso Epstein — e a escalada da retórica e das ações militares, os efeitos esperados da diversionary war parecem significativamente atenuados. Em primeiro lugar, a fragmentação do sistema político reduz a capacidade de construção de consensos nacionais em torno de ameaças externas. A ausência de alinhamento bipartidário compromete o potencial mobilizador do conflito, transformando a guerra em objeto de disputa política interna, e não em fator de coesão.


Em segundo lugar, a transformação do ecossistema informacional, marcada pela polarização e pela multiplicidade de fontes de informação, limita a capacidade do governo de controlar a agenda pública. Como observa Fernanda Magnotta (2024), a política externa americana contemporânea opera em um ambiente comunicacional fragmentado, no qual narrativas concorrentes disputam legitimidade de forma contínua. Nesse contexto, a tentativa de redirecionar a atenção pública por meio de crises externas enfrenta obstáculos estruturais que não estavam presentes em períodos anteriores.


Em terceiro lugar, a própria experiência histórica recente dos Estados Unidos, marcada por intervenções prolongadas e resultados ambíguos no Oriente Médio, contribui para reduzir a receptividade da sociedade a discursos de mobilização externa. Conforme argumenta Cristina Pecequilo (2022), a legitimidade das ações internacionais dos EUA depende cada vez mais de sua capacidade de demonstrar resultados concretos e coerência estratégica, o que se torna mais difícil em contextos de elevada contestação doméstica.


Dessa forma, a tentativa de utilização da política externa como mecanismo de distração revela-se não apenas limitada, mas potencialmente contraproducente. Em vez de produzir coesão, a guerra tende a aprofundar divisões internas, ampliando conflitos entre Executivo e Legislativo e exacerbando tensões dentro das próprias bases partidárias. Esse processo contribui para caracterizar a atual conjuntura como uma crise de legitimidade, na qual o governo enfrenta dificuldades crescentes para sustentar apoio político e coordenar sua agenda estratégica.


Ainda assim, é importante destacar que a presença desses elementos não implica, necessariamente, um cenário de colapso institucional iminente. O sistema político americano mantém mecanismos de resiliência que dificultam rupturas abruptas, e o presidente continua a contar com apoio significativo de sua base eleitoral. A possibilidade de substituição política, seja por meio de impeachment ou da ativação da 25ª Emenda, permanece condicionada à formação de consensos entre elites políticas, um cenário que, no contexto atual de polarização, mostra-se pouco provável. Nomes como J. D. Vance e Ron DeSantis aparecem como potenciais alternativas, mas a forte personalização do Partido Republicano em torno de Trump constitui um obstáculo significativo à emergência de lideranças substitutas.


Diante desse quadro, o governo Trump 2.0 pode ser interpretado como um arranjo político em processo de desgaste progressivo, no qual a sobreposição de crises internas e externas limita a capacidade de ação do Executivo sem, contudo, produzir uma ruptura imediata. A teoria da diversionary war, ao ser aplicada a esse contexto, revela não apenas suas potencialidades explicativas, mas também seus limites, evidenciando que a eficácia dessa estratégia depende de condições específicas, como coesão interna, controle narrativo e legitimidade institucional, que se encontram significativamente fragilizadas nos Estados Unidos contemporâneos.


Referências Bibliográficas


Jack Levy, J. (1989). The Diversionary Theory of War: A Critique.

Council on Foreign Relations (2025–2026). Congressional War Powers and U.S. Foreign Policy.

Brookings Institution (2025). Polarization and American Foreign Policy.

Carnegie Endowment for International Peace (2025). Domestic Constraints on U.S. Global Strategy.

Financial Times (2025–2026). Cobertura sobre crise política nos EUA.

The New York Times (2025–2026). Cobertura sobre o caso Epstein.

Cristina Pecequilo (2022). Política Externa dos Estados Unidos.

Oliver Stuenkel (2023). O Mundo Pós-Ocidental.

Fernanda Magnotta (2024). Análises sobre política externa e comunicação política nos EUA.


Júlia Saraiva

Formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ e cursando Pós-Graduação em Ciências Políticas e Relações Internacionais na FAAP. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais CERES e consultora de internacionalização de empresas.

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