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O BRASIL PRECISA VOLTAR A PENSAR COMO BRASIL

há 3 horas
8 min de leitura

Wesley S.T Guerra


Existe algo profundamente preocupante na política brasileira contemporânea, e não me refiro apenas à intensidade das disputas entre esquerda e direita, mas à transformação progressiva da divergência política em uma espécie de conflito existencial, no qual o adversário deixa de ser alguém que pensa de maneira diferente sobre o futuro do país e passa a ser percebido como uma ameaça que deve ser derrotada, desacreditada ou até mesmo eliminada do espaço legítimo do debate democrático. Nesse ambiente, a política deixa de ser o espaço onde diferentes visões de país competem, dialogam e, eventualmente, encontram pontos de convergência, para se transformar em uma disputa permanente na qual reconhecer um acerto do adversário parece significar automaticamente uma traição às nossas próprias convicções.


Talvez um dos exemplos mais evidentes dessa distorção possa ser encontrado na reação provocada pelo discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, no qual voltou a colocar no centro do debate internacional questões que deveriam transcender as fronteiras ideológicas de qualquer governo, como a defesa da soberania nacional, o respeito ao direito internacional, o fortalecimento do multilateralismo e a necessidade de adaptar as instituições internacionais a uma realidade geopolítica profundamente diferente daquela que existia quando foram criadas após a Segunda Guerra Mundial.


Podemos concordar ou discordar de Lula em inúmeras questões, podemos questionar suas políticas econômicas, suas decisões internas, suas prioridades sociais ou mesmo determinados aspectos de sua política externa, porque é justamente disso que a democracia é feita; o que é muito mais preocupante é que a polarização tenha nos levado a um ponto em que uma parcela da sociedade parece incapaz de reconhecer a relevância de determinada posição simplesmente porque quem a pronuncia pertence ao campo político que considera adversário.


A reforma da governança internacional, por exemplo, não é uma invenção de um governo brasileiro nem uma reivindicação exclusiva da esquerda latino-americana. A própria estrutura das Nações Unidas reflete um equilíbrio de poder construído em 1945, em um mundo que já não existe, e há décadas existe um debate internacional sobre a necessidade de ampliar a representação de regiões e países que adquiriram um peso econômico, demográfico e político consideravelmente maior. A África continua reivindicando uma representação permanente no Conselho de Segurança, enquanto países como Brasil, Índia, Japão e Alemanha fazem parte, há anos, do debate sobre uma eventual ampliação de sua composição.


Por isso, quando o Brasil defende uma reforma da governança internacional, isso não deveria ser automaticamente interpretado como um gesto partidário, mas como parte de uma discussão muito mais ampla sobre que tipo de sistema internacional queremos construir para o século XXI. Podemos discutir qual deveria ser a reforma, quais países deveriam estar representados, quais competências deveriam ter as instituições internacionais ou até mesmo se determinadas propostas são viáveis, mas é difícil sustentar que o mundo de 2026 possa continuar sendo representado indefinidamente pelas mesmas estruturas de poder concebidas para o mundo de 1945.


E aqui chegamos a uma palavra que, no Brasil, parece ter sido sequestrada pela disputa política: soberania.


Defender a soberania brasileira não significa ser inimigo dos Estados Unidos, da China, da Europa ou de qualquer outra potência; tampouco significa defender o isolamento internacional ou rejeitar a cooperação, o comércio ou as alianças estratégicas. Significa, simplesmente, reconhecer que um Estado soberano deve preservar a capacidade de tomar suas próprias decisões de acordo com seus interesses nacionais, interesses estes que também refletem a oposição enquanto formuladora de opiniões e representante de diferentes grupos de interesse, negociando com outros países a partir de uma posição de autonomia e não aceitando que uma potência estrangeira determine unilateralmente aquilo que deve ser considerado bom ou ruim para sua própria sociedade.


Isso deveria ser evidente para qualquer pessoa que compreenda minimamente como funcionam as relações internacionais. Os Estados Unidos defendem os interesses dos cidadãos norte-americanos, a China defende os interesses chineses, a Índia defende os interesses indianos, os países europeus defendem seus próprios interesses e o Brasil, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, deveria ter a capacidade de definir aquilo que considera prioritário para os brasileiros.


Isso não constitui uma declaração de hostilidade aos Estados Unidos. Pelo contrário, relações internacionais maduras não são construídas a partir da hostilidade permanente, mas da capacidade de reconhecer que até mesmo países amigos possuem interesses próprios, que podem coincidir com os nossos em determinados momentos e divergir em outros. O Brasil pode manter uma relação estratégica com Washington sem subordinar sua política externa a Washington, da mesma forma que pode ampliar suas relações com a China sem transformar Pequim no centro de suas decisões internacionais, pode aprofundar seus vínculos com a Europa, fortalecer suas relações com a África e ampliar sua presença na Ásia sem transformar sua diplomacia em uma extensão dos interesses de qualquer outra potência. E ninguém melhor do que Lula para saber disso...


Isso deveria ser uma questão de Estado, não uma questão partidária.


O problema é que a polarização chegou a um nível em que até mesmo a defesa de interesses nacionais relativamente elementares é interpretada pelo filtro da disputa ideológica. Se Lula defende determinada posição internacional, alguns sentem a necessidade de rejeitá-la simplesmente porque foi Lula quem a defendeu; se um governo estrangeiro critica uma decisão brasileira, outros sentem a necessidade de assumir automaticamente essa crítica como legítima porque ela coincide com sua própria visão política. Dessa maneira, deixamos de perguntar qual posição protege melhor os interesses do país e passamos a perguntar apenas qual posição favorece o grupo político com o qual nos identificamos.


Essa é uma das formas mais perigosas de alienação política: quando nossa percepção da realidade deixa de ser construída a partir de fatos, dados e argumentos e passa a ser construída exclusivamente a partir da identidade de quem está falando.


O fenômeno é particularmente visível nas redes sociais, onde milhões de pessoas recebem diariamente uma versão do mundo construída por algoritmos que premiam a indignação, o confronto e a confirmação de nossas próprias convicções. Pouco importa se uma informação está documentada por instituições reconhecidas, se existe evidência estatística ou se os dados contradizem nossas percepções; quando determinada narrativa confirma aquilo em que já acreditamos, tendemos a aceitá-la com uma facilidade que dificilmente teríamos se essa mesma informação questionasse nossas posições.


E a realidade brasileira, como quase sempre, é muito mais complexa do que a narrativa de qualquer um dos dois extremos.


O Brasil continua fora do Mapa da Fome da FAO, depois de ter reduzido significativamente a prevalência da subalimentação; em 2025, registrou uma taxa anual de desemprego de 5,6%, a menor da série histórica iniciada em 2012, com 103 milhões de pessoas ocupadas, enquanto o agronegócio alcançou US$ 169,2 bilhões em exportações e o país continuou ampliando e diversificando seus mercados internacionais.


Esses dados não significam que o Brasil tenha resolvido seus problemas, porque evidentemente não os resolveu. Continuamos enfrentando profundas desigualdades, problemas de segurança pública, deficiências educacionais, dificuldades de infraestrutura, desigualdades regionais, desafios fiscais, precariedades sociais e uma enorme agenda ainda pendente de desenvolvimento econômico, tecnológico e humano.


Mas reconhecer esses avanços não nos obriga a abandonar a crítica, da mesma forma que apontar os problemas existentes não deveria nos obrigar a negar aquilo que está funcionando.


Uma sociedade democrática madura deveria ser capaz de fazer as duas coisas simultaneamente: reconhecer os avanços sem transformá-los em propaganda e apontar os problemas sem transformar cada dificuldade em uma prova de que tudo está fracassando.

E talvez seja precisamente essa capacidade de olhar o país em toda a sua complexidade que estamos perdendo.


Porque o Brasil não é Lula, mas também não é Bolsonaro. O Brasil não é o Partido dos Trabalhadores, mas também não é a oposição. O Brasil não é a esquerda, mas também não é a direita. O Brasil não é o agronegócio, nem a indústria, nem os trabalhadores, nem os empresários, nem as universidades, nem as periferias, nem as grandes cidades, nem as pequenas comunidades rurais; o Brasil é a combinação contraditória, desigual e extraordinariamente diversa de todas essas realidades.


O Brasil é São Paulo e Amazonas, é o Nordeste e o Centro-Oeste, é a indústria tecnológica e a agricultura familiar, é o empresário que exporta e o trabalhador que depende de seu salário, é a universidade pública e a empresa privada, é a periferia e o centro financeiro, é a juventude que exige novas oportunidades e a população mais velha que construiu boa parte do país que temos hoje.


O Brasil é, precisamente, essa enorme diversidade que nenhuma força política pode representar por completo.


Por isso, talvez devêssemos deixar de pensar que a política consiste exclusivamente em descobrir quem tem razão e começar a perguntar o que o país precisa para avançar, porque uma democracia não se fortalece quando todos pensamos da mesma maneira, mas quando somos capazes de conviver com nossas diferenças sem transformá-las em uma guerra permanente contra aqueles que pensam de maneira diferente.


A oposição tem um papel fundamental em uma democracia, e sua função não é simplesmente esperar o fracasso do governo para demonstrar que tinha razão, mas contribuir para formular alternativas, fiscalizar, questionar decisões e, quando necessário, defender interesses nacionais que inclusive podem coincidir com aqueles defendidos pelo governo. Da mesma forma, um governo democrático deveria compreender que a crítica não é necessariamente uma ameaça e que uma sociedade saudável precisa de oposição, imprensa livre, instituições independentes e cidadãos capazes de questionar o poder.


Porque o Brasil não pertence ao governo, mas também não pertence à oposição; pertence aos brasileiros.


E talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que deveríamos recuperar antes de cada eleição: não estamos simplesmente escolhendo entre pessoas, partidos ou narrativas, estamos decidindo que projeto de país queremos construir e que lugar queremos ocupar em um sistema internacional em transformação.


Podemos ter respostas diferentes para essa pergunta, e devemos tê-las. Podemos defender modelos econômicos diferentes, prioridades sociais diferentes, estratégias diplomáticas diferentes e visões diferentes sobre o papel do Estado. Isso é democracia. O que não deveríamos fazer é permitir que nossas diferenças políticas nos façam esquecer que todos esses debates acontecem dentro do mesmo país. Nossa soberania não é negociável.


Porque quando o Brasil se divide entre “os nossos” e “os outros”, quando deixamos de reconhecer qualquer mérito em quem pensa diferente e quando aceitamos que uma potência estrangeira defina o que deve ser considerado um interesse legítimo para nossa sociedade, perdemos algo muito mais importante do que uma discussão eleitoral: perdemos a capacidade de pensar estrategicamente como nação.


Ninguém deveria exigir que os brasileiros concordem sobre o futuro do país.


Mas deveríamos ser capazes de concordar em algo muito mais básico: o futuro do Brasil deve ser decidido pelos brasileiros.


O Brasil deve ter amigos em todo o mundo, deve comerciar com todos aqueles que queiram comerciar com ele, deve cooperar com todas as nações com as quais possa construir interesses comuns e deve manter suas portas abertas ao diálogo internacional; mas, precisamente para fazer tudo isso de maneira soberana, precisa preservar a capacidade de decidir por si mesmo o que considera melhor para sua sociedade.


Porque nenhum governo norte-americano, chinês, europeu, russo ou de qualquer outra potência acorda todas as manhãs perguntando o que será melhor para o Brasil. Cada um deles possui, legitimamente, seus próprios interesses nacionais.


Cabe a nós defender os nossos.


E talvez tenha chegado o momento de compreender que soberania não significa escolher um lado contra o outro, mas preservar liberdade suficiente para dialogar com todos, cooperar com muitos e, quando necessário, dizer não.


Não precisamos de um Brasil que pense igual. Precisamos de um Brasil que, mesmo em meio às suas profundas diferenças, ainda seja capaz de pensar em si mesmo.


Porque antes de sermos esquerda ou direita, governo ou oposição, somos um país.


E talvez seja precisamente isso que estamos esquecendo.


Voltar a pensar como Brasil.


Wesley Sá Teles Guerra é especialista em internacionalização, cooperação internacional e paradiplomacia, com uma sólida formação acadêmica em instituições de referência internacional. É fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais no Brasil e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África na Secretaria-Geral Ibero-Americana, com sede em Madri.

Ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional, realizou estudos no Centre de Promoció Econòmica de Barcelona em Negociações Internacionais; na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em Relações Internacionais e Ciência Política; na Universidade da Coruña (UDC), onde cursou o Mestrado em Políticas Sociais e Migrações; no Massachusetts Institute of Business, onde obteve um MBA em Marketing Internacional; na Universitat Carlemany, com Mestrado em Smart Cities; na Universidad Internacional de Andalucía (UNIA), em Gestão de Fundos e Projetos Europeus; e atualmente é doutorando em Sociologia na Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED).

É autor das obras Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente de fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, e também tem sido comentarista convidado na CBN Recife. Foi finalista do Prêmio ABANCA de Investigação Acadêmica e integra redes e plataformas internacionais como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, mantendo uma participação ativa em iniciativas internacionais vinculadas à cooperação, à inovação e à governança.

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