O Estreito de Ormuz e a política da interdependência armada: energia, geopolítica e poder na escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã
- CERES
- há 1 dia
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Júlia Saraiva
A recente escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã no entorno do Estreito de Ormuz recolocou no centro da política internacional um dos mais importantes gargalos energéticos do sistema global. Embora o debate público frequentemente destaque os aspectos mais visíveis da crise — ataques a embarcações, drones e operações navais — a importância estratégica do estreito transcende sua dimensão militar imediata.
Localizado entre o Irã e Omã, o Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e constitui a principal via de exportação de petróleo e gás natural para os mercados internacionais. Estima-se que cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente atravesse essa passagem marítima diariamente, o que transforma o estreito em um dos principais chokepoints da economia internacional.
Nesse contexto, qualquer ameaça ao fluxo de navegação em Ormuz possui potencial para produzir efeitos sistêmicos sobre os mercados energéticos, cadeias logísticas e estabilidade econômica global. A crise atual, portanto, não pode ser compreendida apenas como mais um episódio da rivalidade geopolítica entre Irã, Estados Unidos e Israel. Trata-se de uma disputa mais ampla envolvendo segurança energética, controle de fluxos estratégicos e equilíbrio de poder no sistema internacional.
Embora a relevância estratégica de Ormuz tenha aumentado significativamente ao longo do século XX com a expansão da economia petrolífera global, sua importância geopolítica tornou-se particularmente evidente durante as crises energéticas da década de 1970. O choque do petróleo de 1973 demonstrou como a dependência energética das economias industrializadas poderia ser explorada como instrumento de pressão política.
A centralidade do estreito tornou-se ainda mais evidente durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Durante esse conflito, ambos os países passaram a atacar petroleiros que transportavam petróleo pelo Golfo Pérsico em uma fase conhecida como “Tanker War”. Entre 1984 e 1988, centenas de embarcações comerciais foram atingidas, o que levou potências externas — particularmente os Estados Unidos — a intervir para proteger o tráfego marítimo na região.
Esse episódio marcou um momento crucial na militarização das rotas energéticas do Golfo. A operação naval americana conhecida como Earnest Will escoltou petroleiros kuwaitianos e demonstrou a disposição de Washington em utilizar poder militar para garantir a segurança das rotas energéticas globais.
Desde então, o Estreito de Ormuz tem permanecido no centro da estratégia de segurança energética internacional. Crises recorrentes envolvendo o Irã — especialmente em torno de seu programa nuclear e de sanções econômicas — frequentemente incluíram ameaças de fechamento do estreito como instrumento de dissuasão geopolítica.
A escalada recente no Golfo pode ser analisada à luz da tradição clássica da teoria estratégica. Conforme argumenta Carl von Clausewitz, a guerra constitui a continuação da política por outros meios. Essa formulação enfatiza que conflitos armados não são fenômenos isolados, mas instrumentos utilizados por Estados para alcançar objetivos políticos e estratégicos.
No caso do Irã, cuja capacidade militar convencional permanece inferior à de Estados Unidos e Israel, a estratégia adotada não busca necessariamente a vitória em confrontos diretos. Em vez disso, Teerã procura explorar vulnerabilidades estruturais do sistema internacional — particularmente aquelas relacionadas ao fornecimento energético global.
Ao demonstrar capacidade de ameaçar o fluxo de navegação em Ormuz por meio de minas navais, drones ou ataques a embarcações comerciais, o Irã amplia significativamente o alcance estratégico do conflito. O objetivo não é necessariamente bloquear permanentemente a passagem, mas aumentar os custos econômicos e políticos da escalada militar para a comunidade internacional.
A importância estratégica de Ormuz também revela um paradoxo fundamental da globalização contemporânea. O sistema internacional tornou-se profundamente interdependente, mas essa interdependência cria novas formas de vulnerabilidade.
Esse fenômeno foi amplamente discutido por Joseph S. Nye Jr., cuja teoria da interdependência complexa argumenta que a crescente integração econômica global pode gerar relações assimétricas nas quais alguns atores possuem maior capacidade de explorar vulnerabilidades sistêmicas.
No caso do Estreito de Ormuz, a dependência global de uma rota marítima extremamente estreita cria um cenário no qual conflitos regionais podem gerar consequências econômicas globais. A simples ameaça de interrupção do tráfego marítimo pode gerar volatilidade nos mercados de energia e pressionar economias altamente dependentes de importações energéticas. Dessa forma, a interdependência energética transforma-se em instrumento potencial de coerção geopolítica.
Disputas envolvendo gargalos energéticos possuem capacidade de produzir impactos desproporcionais no sistema internacional, justamente porque conectam rivalidades regionais a fluxos econômicos globais essenciais.
Da mesma forma, conflitos envolvendo infraestruturas estratégicas tendem a adquirir relevância sistêmica em um contexto de crescente fragmentação da ordem internacional. Em um cenário marcado por rivalidades entre grandes potências e tensões geopolíticas crescentes, crises regionais podem rapidamente adquirir dimensão global.
A escalada no Golfo ocorre precisamente nesse contexto, no qual disputas regionais se conectam a transformações estruturais na política internacional.
Para os Estados Unidos, a estabilidade das rotas energéticas do Golfo Pérsico constitui um elemento central de sua estratégia global desde o final do século XX. A chamada Doutrina Carter, anunciada em 1980, estabeleceu que qualquer tentativa de controle hostil do Golfo seria considerada uma ameaça direta aos interesses estratégicos americanos.
Nesse sentido, a presença militar americana na região não pode ser compreendida apenas como parte da política regional do Oriente Médio. Ela está diretamente associada à preservação da estabilidade das rotas energéticas globais e à manutenção da credibilidade estratégica dos Estados Unidos como garantidor da ordem internacional.
Entretanto, essa estratégia também produz um dilema. Quanto maior a presença militar destinada a proteger o estreito, maior pode ser o incentivo para que o Irã utilize exatamente essa rota como instrumento de pressão estratégica.
A crise no Estreito de Ormuz evidencia a persistência da geografia como elemento estruturante da política internacional contemporânea. Apesar da crescente digitalização da economia global, o funcionamento do sistema internacional continua profundamente dependente de infraestruturas físicas específicas — muitas delas concentradas em gargalos geográficos altamente vulneráveis.
Nesse contexto, a disputa envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã revela uma característica fundamental da ordem internacional contemporânea: a capacidade de interromper fluxos estratégicos pode se tornar tão relevante quanto a capacidade de exercer poder militar direto.
Em um sistema global profundamente interdependente, controlar — ou simplesmente ameaçar — gargalos geoeconômicos como o Estreito de Ormuz pode se tornar uma das formas mais eficazes de exercício de poder no século XXI.
“As declarações aqui expressas são de responsabilidade do autor”.

Júlia Saraiva:
Formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Assistente Comercial na empresa Rio de Negócios, consultora de internacionalização de empresas e pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais CERES.
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Referências
Clausewitz, Carl von. On War. Princeton: Princeton University Press, 1984.
Nye, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs, 2004.
Nye, Joseph S.; Keohane, Robert O. Power and Interdependence. Boston: Little, Brown, 1977.
Yergin, Daniel. The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power. New York: Free Press, 1991.
BP Statistical Review of World Energy. London: BP, edições recentes.

