QUEM SÃO OS VERDADEIROS IDIOTAS: OS QUE DISCUTEM POLÍTICA OU OS QUE SE ABSTÊM? UMA PROVOCAÇÃO ARISTOTÉLICA AOS 33 MILHÕES DE BRASILEIROS QUE ESCOLHERAM O SILÊNCIO NAS URNAS
Genildo Pereira
Em ano eleitoral, como é sabido, o debate político ganha mais força do que o normal: todos passam a falar de política (ou quase todos). Há aqueles que gostam e veem a necessidade de debater os candidatos, expondo suas opiniões, sejam elas favoráveis ou críticas. Por outro lado, há os que detestam quem passa o tempo todo discutindo política no Instagram, no WhatsApp, nos grupos de família, no trabalho ou nos estudos. Às vezes, o confronto entre esses dois perfis torna-se inevitável.
Os que não gostam de política acham os entusiastas "idiotas", chatos e fanáticos, ostentando um ar de pretensa superioridade moral no campo das ideias. Em contrapartida, os que gostam de política enxergam os desinteressados como ingênuos e... "idiotas".
Nas urnas brasileiras, neste primeiro turno das eleições, é possível perceber a dimensão desse embate: registraram-se mais de 33 milhões de abstenções. Claro que nem todos os ausentes se abstêm por simples aversão à política, mas uma parcela significativa certamente compartilha esse viés de desencanto e desinteresse.
Mas, afinal, quem é o verdadeiro idiota nessa história toda? Vejamos o que o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) pensa a respeito.
Considerado por muitos um dos pensadores mais influentes da história e o pai do pensamento político, Aristóteles defendia, na Grécia Antiga, que o ser humano é, por natureza, um "animal político" (zoon politikon).
Em suas ideias, o "idiota" é definido como o indivíduo que vive voltado exclusivamente para a esfera privada, focado apenas em si mesmo e totalmente indiferente aos rumos da comunidade. A raiz da palavra vem do grego ídios (ἴδιος), que significa "próprio", "particular", "privado" ou "pessoal". Dessa forma, o idiótes (ἰδιώτης) era a pessoa privada: o indivíduo comum que se ocupava apenas de seus interesses particulares, em oposição àqueles que se dedicavam aos assuntos públicos e às deliberações da cidade.
Na Grécia Antiga, a participação na vida política era vista como o dever supremo do cidadão. O filósofo citado ia além: para ele, a plena felicidade (eudaimonia) só pode ser alcançada na convivência e na deliberação coletiva dentro da pólis (a comunidade política). Por isso, para realizar sua essência e atingir a verdadeira plenitude, o ser humano precisa participar ativamente do destino político de sua cidade e de seu país.
Desta forma, sob a ótica aristotélica, o "idiota" é aquele que se recusa a discutir ou participar ativamente da vida comunitária. Por outro lado, o cidadão politicamente engajado nada mais faz do que realizar a sua própria essência de "animal político". Evidentemente, há excessos por parte de alguns animais político, tornando-se apenas animais, pois, como sempre, existem excessos.
Voltando ao Brasil de hoje, é perceptível que há um grande descontentamento com a política. Ninguém escapa: as três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), em todos os entes da federação, parecem envoltas em escândalos e desilusões. Sem sombra de dúvidas, é um cenário desanimador. Porém, quando abdicamos de votar e de exercer a nossa cidadania, apenas pioramos a situação. Como bem lembrou o Prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu, a pretensa neutralidade diante de uma decisão coletiva não é isenção: quem fica em cima do muro acaba, na prática, fortalecendo o lado de quem já detém o poder.
Quando nos abstemos, estamos dizendo, na prática, que "o que vier está bom" ou que aceitaremos passivamente o que a maioria escolher. Mesmo que a intenção por trás da abstenção seja um protesto, o resultado concreto é a entrega do poder de decisão nas mãos daqueles de quem discordamos.
Afinal, a ilusão de não gostar de política não nos deixa isentos de suas consequências. Mesmo que pensemos que os políticos não nos representam, são eles que decidem por nós o valor do pão no café da manhã, a qualidade da educação dos nossos filhos e os direitos e garantias do nosso dia a dia. Tudo passa pela política. Quando alguém se abstém de votar, está dizendo: "façam o que quiserem comigo".
Chegamos ao segundo turno destas eleições. Muita coisa já passou, e o Poder Legislativo (responsável por criar e revogar leis) já foi definido. No entanto, ainda está em nossas mãos o poder de escolher o Poder Executivo, o administrador do país e um dos fiscalizadores dos demais poderes.
Teremos pela frente um dilema simples, mas profundo: continuaremos assistindo às decisões da pólis do lado de fora ou assumiremos a responsabilidade sobre o nosso próprio país? A abstenção de 33 milhões é o retrato do desinteresse, mas o voto é a ferramenta real de transformação. No próximo pleito, não se dê ao luxo de deixar que decidam por você. Vá às urnas, faça a sua voz ser ouvida e abandone de vez o papel do idiótes grego. A cidadania exige presença.
Mesmo que nenhum candidato represente perfeitamente as suas ideias, cabe a pergunta: não haveria uma opção mais benéfica para o país? Ou, no limite, uma alternativa menos danosa? Esquivar-se do voto e ostentar neutralidade não demonstra elevação moral nem coragem; reflete apenas a covardia de não querer decidir o próprio destino.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. A Política
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco
ABSTENÇÃO nas eleições 2026 bate recorde. G1, 2026. Disponível em: <https://g1.globo.com>. Acesso em: 6 out. 2026.
Genildo Pereira Galvão
Graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário IESB. Cursou um semestre do seu curso na Universidad Autónoma de Guadalajara, México. Conquistou essa oportunidade em um programa de bolsas do Programa Santander Universidades, no qual ficou entre os 9 selecionados do processo seletivo de 2017. Iniciou uma Licenciatura em História, em 2021, que trancou para iniciar uma em Filosofia que segue cursando. Trabalhou no Ministério da Educação como Analista Jurídico Júnior pela THS Tecnologia






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