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Quem venceu a guerra? A construção de uma falsa narrativa americana na guerra contra o Irã

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    CERES
  • há 33 minutos
  • 5 min de leitura

Wesley S.T Guerra


Mais de quarenta vezes o presidente Donald Trump anunciou que o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã estava próximo. A cada nova declaração, os mercados internacionais reagiam de forma quase instantânea. O preço do petróleo disparava ou despencava, bolsas de valores oscilavam e analistas tentavam interpretar qual seria o próximo movimento da Casa Branca. O anúncio definitivo acabou acontecendo durante a visita de Trump ao Palácio de Versalhes, aproveitando sua participação em um controverso encontro do G7 na França. Para Washington, era o encerramento de uma guerra vitoriosa. Mas será que os Estados Unidos realmente venceram?


A resposta depende muito menos da narrativa construída pela Casa Branca do que dos resultados concretos observados após o conflito.


Para o eleitorado trumpista, a guerra tornou-se mais um exemplo da suposta capacidade de Donald Trump em "resolver conflitos" sem prolongadas intervenções militares. A retórica foi cuidadosamente construída para transmitir a imagem de um líder forte, capaz de impor sua vontade aos adversários e restabelecer a paz mundial. Trata-se de uma narrativa politicamente eficiente, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato, quando a popularidade presidencial passa a depender cada vez mais da percepção pública de sucesso.


Entretanto, fora do ambiente político doméstico norte-americano, a percepção é significativamente diferente.


Ao final do conflito, o Irã encontra-se, em termos estratégicos, muito próximo da posição que ocupava antes da guerra. O país já havia demonstrado disposição para negociar limitações ao seu programa nuclear, enquanto o Estreito de Ormuz permanecia aberto à navegação internacional. A guerra não alterou substancialmente esses dois elementos centrais.


Ao contrário, o conflito acabou produzindo efeitos inesperados.

O primeiro deles foi a demonstração prática da capacidade iraniana de controlar o Estreito de Ormuz. Ainda que a navegação tenha sido restabelecida, parte da região permanece afetada por minas marítimas e exige permanente monitoramento internacional para garantir a segurança das embarcações. O episódio evidenciou que o Irã continua capaz de ameaçar uma das mais importantes rotas energéticas do planeta sempre que considerar necessário.


O segundo efeito foi político. Diversos países do Golfo observaram que, apesar da presença militar americana na região, a proteção oferecida por Washington possui limites bastante claros. Em um eventual conflito de grande escala, os interesses norte-americanos nem sempre coincidem com as necessidades de segurança de seus aliados. Essa percepção tende a estimular políticas externas mais autônomas e diversificadas entre os Estados da região.


Internamente, o regime iraniano também saiu menos enfraquecido do que muitos analistas previam.


Antes da guerra, as sanções econômicas e a estagnação econômica vinham corroendo lentamente a legitimidade do governo perante parte da população. Contudo, a morte do aiatolá transformou-se rapidamente em símbolo nacional. A cultura do martírio, profundamente enraizada na tradição religiosa e política iraniana, fortaleceu o sentimento nacionalista e proporcionou ao regime uma inesperada recuperação de legitimidade e renovação justamente quando enfrentava um período de maior desgaste interno.

Paradoxalmente, a guerra pode ter concedido ao governo iraniano um novo fôlego político.


No plano internacional, os ganhos americanos também parecem limitados. Washington conseguiu mobilizar parte da comunidade internacional em torno de sua estratégia de contenção do Irã, mas ao custo de ampliar as tensões diplomáticas, aprofundar divisões entre aliados e colocar Israel em uma posição cada vez mais radicalizada perante a opinião pública mundial. A crescente polarização em torno da política israelense tornou-se um dos efeitos indiretos mais relevantes do conflito.


A própria narrativa de Trump merece atenção.

O presidente frequentemente afirma ter encerrado nove guerras durante sua trajetória política. Entretanto, sua política externa foi marcada por sucessivas crises internacionais, ameaças a aliados tradicionais, pressões para aumento dos gastos militares dos membros da OTAN e uma diplomacia baseada na coerção econômica. Embora seus apoiadores interpretem tais medidas como demonstrações de força, muitos observadores internacionais enxergam justamente o oposto: uma crescente instabilidade da ordem internacional construída após a Guerra Fria.


Enquanto isso, o Irã poderá ter acesso a novos mecanismos financeiros internacionais destinados à reconstrução econômica. Vale recordar que, durante parte da primeira década deste século, antes do endurecimento das sanções relacionadas ao programa nuclear, a economia iraniana registrava taxas de crescimento entre 4% e 7% ao ano. Caso parte das restrições seja efetivamente flexibilizada, Teerã poderá recuperar gradualmente sua capacidade econômica.


Isso significa que o Irã venceu?

Também não.


O país sofreu perdas humanas, danos econômicos e permanece sujeito a severas limitações impostas pelo sistema internacional. A guerra não representou uma vitória militar clássica para nenhum dos lados. Mas sem dúvida representou uma renovação para o Irã.


Talvez o maior vencedor tenha sido apenas o imaginário americano...


Ao proclamar uma vitória absoluta, Donald Trump procura oferecer ao eleitor norte-americano uma narrativa simples: os Estados Unidos derrotaram seu adversário, restauraram a paz e reafirmaram sua liderança global. Entretanto, as relações internacionais raramente funcionam segundo roteiros tão lineares.


A História oferece inúmeros exemplos de guerras apresentadas como grandes vitórias que, anos depois, revelaram resultados bastante diferentes. A Guerra do Vietnã permanece como o caso mais emblemático, embora Hollywood vende a imagem de uma vitoria americana, de fato os EUA nunca ganhou o conflito. Mesmo a Segunda Guerra Mundial, frequentemente utilizada como referência absoluta de triunfo militar americano, foi muito mais uma vitória dos comunistas da URSS, tanto que produziu consequências geopolíticas muito mais complexas do que a simples derrota das potências do Eixo, redefinindo completamente o equilíbrio internacional e inaugurando décadas de Guerra Fria.


Na geopolítica, vencer uma guerra não significa apenas derrotar militarmente o adversário. Significa alcançar objetivos estratégicos duradouros.


Sob essa perspectiva, ainda é cedo para afirmar que Washington venceu. Os acontecimentos sugerem justamente o contrário: os Estados Unidos obtiveram uma importante vitória narrativa perante parte de sua opinião pública, principalmente o eleitorado de direita e ultradireita que são bastante avessos em constrastar notícias, enquanto o Irã preservou grande parte de sua capacidade estratégica e política.


Talvez a maior batalha desta guerra nunca tenha ocorrido no campo militar, mas sim no terreno da informação. E, como tantas vezes na história, narrativas podem conquistar manchetes; já os resultados concretos costumam ser muito mais difíceis de fabricar.


Wesley Sá Teles Guerra é especialista em internacionalização, cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação acadêmica em instituições de referência internacional. É fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madri.

Ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional, realizou estudos no Centre de Promoció Econòmica de Barcelona, em Negociações Internacionais; na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em Relações Internacionais e Ciência Política; na Universidade da Corunha (UDC), onde concluiu o Mestrado em Políticas Sociais e Migrações; no Massachusetts Institute of Business, onde obteve um MBA em Marketing Internacional; na Universitat Carlemany, onde concluiu o Mestrado em Smart Cities; na Universidade Internacional da Andaluzia (UNIA), em Gestão de Fundos e Projetos Europeus; e atualmente é doutorando em Sociologia na Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED), da Espanha.

É autor das obras Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de Sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente de fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, além de ter atuado como comentarista convidado da CBN Recife. Foi finalista do Prêmio ABANCA de Pesquisa Acadêmica e integra redes e plataformas internacionais como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, mantendo participação ativa em iniciativas internacionais voltadas à cooperação, à inovação e à governança.

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