União Europeia: Agricultura e alimentação no caminho da segurança alimentar e climática
- CERES

- há 2 dias
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Luis Augusto Medeiros Rutledge
Geopolítica Energética
A agricultura e a alimentação estão no centro de duas das maiores questões estratégicas do século XXI: a segurança alimentar global e as mudanças climáticas. O setor deixou de ser apenas uma atividade econômica ligada à produção rural e passou a ocupar uma posição estrutural na estabilidade geopolítica, energética, ambiental e social no mundo atual.
A guerra entre Rússia e Ucrânia evidenciou como fertilizantes, diesel, gás natural e exportações agrícolas estão profundamente interligados. Países dependentes de importação de trigo, milho, fertilizantes nitrogenados e diesel agrícola passaram a enfrentar inflação alimentar, insegurança energética e risco de desabastecimento. E, hoje a crise do petróleo no Estreito de Ormuz intensifica a interligação entre geopolítica, agricultura e questão alimentar.
Hoje, a agricultura é o eixo da segurança alimentar global. O crescimento populacional mundial, a urbanização acelerada, a dependência energética e a mudança nos padrões de consumo alimentar ampliam de forma significativa a pressão sobre os sistemas agrícolas. A expectativa de aumento da população global para cerca de 9 a 10 bilhões de pessoas até 2050 exige expansão da produtividade agrícola em um cenário de limitação de recursos naturais.
À medida que a fome e as temperaturas globais aumentam, os sistemas alimentares passam a ocupar posição central em ambas as questões e simultaneamente como fornecedores essenciais de alimentos e importantes impulsionadores das mudanças climáticas. Esse duplo papel os coloca no centro de dois objetivos globais urgentes: alcançar a fome zero, estabelecida no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável e limitar o aquecimento global a 1,5 °C, meta definida pelo Acordo de Paris e de difícil alcance.
A Europa é especialmente interessante: é o maior comerciante de alimentos do mundo, o principal financiador de pesquisas agrícolas internacionais e um ator global para a ambição climática. Mas a política alimentar da União Europeia (UE) está entrando em um período de recalibração. Atualmente, mudanças no setor agrário europeu levantam questões urgentes sobre a capacidade da União Europeia de alinhar seus objetivos alimentares e climáticos e sobre os efeitos cascata para seus parceiros no Sul Global e, em particular, na África, considerando sua fome e desafios climáticos.
Os sistemas alimentares da UE representam uma importante fonte de emissões de gases de efeito estufa, embora os avanços na redução dessas emissões ainda ocorram de forma relativamente lenta. Atualmente, os sistemas alimentares europeus emitem aproximadamente 1,15 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente (CO₂eq), correspondendo a cerca de 34% das emissões totais do bloco.
Apesar disso, o setor agrícola europeu destaca-se por ser um dos poucos, em escala global, a apresentar redução gradual nas emissões de gases de efeito estufa ao longo das últimas décadas. Entretanto, esse progresso permanece limitado, mesmo diante dos elevados investimentos climáticos e das políticas ambientais implementadas pela UE.
Além disso, à medida que setores como energia e indústria avançam de forma mais acelerada na descarbonização, a participação relativa dos sistemas alimentares nas emissões totais do bloco tende a aumentar. Embora tenha ocorrido redução na intensidade de emissões da produção agrícola europeia, ou seja, menores emissões por unidade produzida, esse ganho de eficiência foi parcialmente compensado pelo aumento da produção de alimentos e pela manutenção de cadeias agroalimentares intensivas em energia, transporte e insumos.
Esse cenário evidencia a complexidade da transição climática no setor agroalimentar, no qual segurança alimentar, competitividade econômica e metas ambientais precisam ser conciliadas simultaneamente.
A política alimentar da UE está em constante transformação e possui forte influência sobre a produção agrícola, o comércio internacional e a sustentabilidade ambiental. Em nível europeu, o bloco exerce papel central na formulação de políticas relacionadas à agricultura, segurança alimentar, padrões regulatórios, acordos comerciais e incentivo à ciência e inovação.
Um dos principais instrumentos desse sistema é a Política Agrícola Comum (Common Agricultural Policy – CAP), considerada um dos maiores programas de subsídios agrícolas do mundo. Historicamente, a CAP foi alvo de críticas devido aos seus efeitos distorcivos sobre os mercados internacionais, especialmente por estimular a superprodução agrícola europeia. Entretanto, reformas implementadas desde 2013 reduziram significativamente esses impactos, embora alguns efeitos sobre competitividade e comércio internacional ainda permaneçam. Atualmente, os subsídios europeus concentram-se menos no aumento da produção e mais no apoio à renda dos agricultores, na preservação ambiental e na promoção de práticas agrícolas sustentáveis.
Nos últimos anos, a política climática passou a exercer influência crescente sobre a política alimentar europeia. O lançamento do Pacto Verde Europeu em 2019, com a meta de tornar o continente climaticamente neutro até 2050, incorporou de maneira mais direta o setor agroalimentar às estratégias ambientais da UE. Nesse contexto, surgiram iniciativas como a Estratégia Farm to Fork e as estratégias de biodiversidade, representando a primeira tentativa mais abrangente de tratar a sustentabilidade de todo o sistema alimentar e não apenas da agricultura como prioridade política.
Essas iniciativas, entretanto, geraram intensos debates. Parte dos críticos argumenta que medidas voltadas à redução de emissões, restrição de insumos agrícolas e ampliação de exigências ambientais podem reduzir a produtividade agrícola europeia, afetar exportações e pressionar os preços globais dos alimentos. Ao mesmo tempo, produtores rurais passaram a demonstrar preocupação com possíveis perdas de competitividade frente a importações provenientes de países sujeitos a padrões ambientais e trabalhistas menos rigorosos.
Esse cenário contribuiu para o aumento dos protestos de agricultores em diversos países europeus entre 2023 e 2024. Muitos produtores alegaram existir um desequilíbrio competitivo entre os agricultores da UE e concorrentes externos, especialmente em relação às exigências ambientais impostas pelo bloco europeu. Como consequência, interesses ligados ao setor agrícola ganharam maior espaço político em governos nacionais e no Parlamento Europeu.
Em resposta às pressões políticas e sociais, a UE passou a flexibilizar ou postergar algumas medidas climáticas relacionadas ao setor agrícola e iniciou um “diálogo estratégico” sobre o futuro da agricultura europeia. Essas discussões influenciaram, em fevereiro de 2025, a formulação de um novo direcionamento político denominado Visão para a Agricultura e a Alimentação, voltado para realinhar sustentabilidade, competitividade e segurança alimentar dentro das políticas agrícolas do bloco.
A UE é uma grande defensora da segurança alimentar global e líder em mitigação e adaptação climática. É o maior comerciante de alimentos do mundo e o importador e exportador agrícola mais importante para a África. Ela enfrenta o imenso desafio de transformar seu sistema alimentar de um grande emissor de gases de efeito estufa para um sumidouro líquido, mas o progresso é lento: a participação emitida pelo sistema alimentar da UE está aumentando, principalmente à medida que outros setores da UE estão se descarbonizando mais rapidamente.
Um novo cenário começa a se desenhar com o avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a UE. A consolidação desse acordo tende a ampliar as discussões sobre competitividade agrícola, segurança alimentar, sustentabilidade e dependência estratégica entre os blocos.
Portanto, será fundamental observar como o setor agropecuário europeu irá se posicionar e negociar diante de um ambiente comercial mais aberto, especialmente em áreas consideradas sensíveis para a agricultura do continente europeu. O acordo evidencia vulnerabilidades estruturais do sistema agrário europeu, sobretudo relacionadas ao custo de produção, às exigências ambientais mais rigorosas e à competição com grandes exportadores agrícolas sul-americanos.
Ao mesmo tempo, o novo cenário amplia o debate sobre a interdependência entre segurança alimentar, segurança energética e transição climática. A tendência é que essas questões passem a se desenvolver de forma cada vez mais integrada, influenciando políticas agrícolas, cadeias logísticas, comércio internacional, regulação ambiental e estratégias geopolíticas tanto na Europa quanto na América do Sul.

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.





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