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Marrocos : um futuro Grande do continente?

As mudanças na geopolítica do continente africano, com o fato de vários países se distanciarem dos antigos parceiros económicos (que eram as antigas potências coloniais) abrem um novo espaço. 


Marrocos é um dois países que pretende ocupar essa nova colocação e se afirmar como um dos líderes do continente. 


A geopolítica de Marrocos é influenciada por sua localização estratégica na região do norte da África e pelo histórico de relações com os seus vizinhos e potências globais. Marrocos está situado no extremo noroeste da África, com uma costa atlântica e fronteiras terrestres com a Argélia, Mauritânia e os enclaves espanhois de Ceuta e Melilla.


Essa localização lhe confere acesso tanto ao Atlântico quanto ao Mediterrâneo, tornando-o um ponto estratégico no comércio marítimo. Além disso, ele também permite uma conexão entre a região do Sahel e o Mediterrâneo propondo alternativas ao simples Golfo da Guiné para esses países. Recentemente com a saída anunciada dos países do AES (Associação dos Estados do Sahel) – composto por Mali, Burquina Faso e Niger, os estados vizinhos propuseram sanções para limitar o abastecimento de produtos dos seus portos para esses países. Marrocos se propôs a desenvolver e aumentar o fluxo com seus portos, para compensar as sanções.


Marrocos mantém laços estreitos com a União Europeia (UE), especialmente com Espanha e França, devido à proximidade geográfica e interesses econômicos mútuos, além das questões históricas.


Hoje Marrocos é um grande parceiro na agricultura, para a Espanha que recentemente com os problemas de seca se tornou para “o seu parceiro do outro lado do mar” para poder suprir as suas necessidades em produtos. As dificuldades de produção agrícola marroquina devida também as mudanças climáticas impactaram seriamente o mercado espanhol, em 2023, demonstrando assim a força dessa relação nesse setor específico. 


Marrocos também é um ponto de trânsito importante para migração proveniente do Sahel em direção à Europa. Isso coloca questões como gestão de fronteiras, segurança e cooperação em matéria de migração e segurança regional. O pais coopera com a União Europeia e outros atores internacionais para esses desafios. Como não relembrar as imagens e vídeos de dezenas de pessoas atirando-se contra as grandes e o arames farpados em Ceuta, na busca de entrar na Europa? Hoje é o eixo entre Marrocos e as Ilhas Canárias espanholas que é o foco de atenção.


Marrocos é ativo em organizações regionais e internacionais, como a Liga Árabe, a União Africana e a Organização das Nações Unidas (ONU). Sua política externa busca equilibrar interesses regionais e globais, em simultâneo, em que defende a sua soberania e integridade territorial. Ele desempenha um papel ativo na diplomacia regional, promovendo a cooperação multilateral entre os países do Sahel e apoiando esforços para resolver conflitos e promover a paz na região. Isso inclui participação em organizações como a Comunidade Económica

dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). 


Desde 2020 e assinatura dos acordos de Abraão que normalizaram as relações entre Marrocos e Israel, o país procurou reforçar a sua influência no continente de várias maneiras. 

Ao estabelecer relações diplomáticas com Israel, Marrocos ganhou o reconhecimento e o apoio de alguns países africanos que seguiram esse caminho ou estavam pensando em fazê-lo. Isso fortaleceu a sua posição diplomática e a sua influência na África, principalmente nos círculos em que a normalização com Israel é vista de forma positiva. 


Uma das principais fontes de tensão de nível regional entre Marrocos e a Argélia é a questão do Saara Ocidental. A Argélia apoia a Frente Polisario, um movimento de independência 

Saarauí que contesta a soberania marroquina sobre a região. Marrocos, por outro lado, considera o Saara Ocidental como parte integrante do seu território, e essa diferença tem criado tensões persistentes. A comunidade internacional defende um referendo de autodeterminação para o povo Saarauí

Desde 1994, a fronteira terrestre entre Marrocos e a Argélia está fechada, dificultando o comércio e a interação entre os dois países que estão envolvidos em uma competição por influência política no norte da África e além. Cada país busca fortalecer as suas alianças regionais e internacionais, muitas vezes competindo em questões como segurança regional, estabilidade política e relações econômicas. 


Com o reconhecimento de Israel na assinatura dos Acordos de Abraão, Marrocos obteve em troca o reconhecimento e o apoio dos Estados Unidos na questão do Saara Ocidental. Esse apoio agora lhe confere agora um papel muito mais forte na região. O país se tornou um ator fundamental aos olhos dos americanos. 


Marrocos é visto como um bastião de estabilidade na região do norte da África, especialmente em comparação com os seus vizinhos, como a Argélia e a Líbia, que enfrentaram instabilidade política e conflitos internos. Isso faz de Marrocos um parceiro importante para os países ocidentais em questões de segurança regional e combate ao terrorismo, principalmente na região do Sahel, mesmo ele tendo também sofrido ataques terroristas no passado com os atentados de Casablanca de 2003.


A região do Sahel enfrenta desafios significativos em termos de segurança, com a presença de grupos terroristas e organizações extremistas. Marrocos coopera com os países do Sahel em iniciativas de segurança, compartilhando inteligência, treinando forças de segurança e participando em operações conjuntas para combater o terrorismo e o crime organizado transnacional. 

Marrocos tem procurado fortalecer os laços econômicos com os países do Sahel através de investimentos em diversos setores, como energia, infraestrutura, agricultura e indústria. Isso inclui projetos de desenvolvimento e programas de cooperação técnica para promover o crescimento econômico e a estabilidade na região. 


Marrocos também usa a sua diplomacia pública e soft power para fortalecer as suas relações com os países africanos. Isso inclui intercâmbios culturais, iniciativas educacionais, programas de bolsas de estudo e a promoção do idioma árabe e da cultura marroquina. Resultados esportivos como a semi final na Copa do Mundo no Catar, a primeira para um país africano também conferiu uma cota de amor e de orgulho para o continente, sem esquecer seu apoio reafirmado a causa palestina durante a competição que foi apreciada no mundo árabe como um todo.


A economia marroquina é diversificada, com setores como turismo, agricultura, mineração e manufatura automóvel, energia sustentável desempenhando papéis importantes. 

A exploração de recursos naturais, como fosfatos e pesca, também é crucial para a economia do país e influência as suas relações internacionais. 

O país está buscando atrair investimentos estrangeiros e fortalecer os seus laços econômicos com outras regiões do mundo, especialmente a África Subsariana. 


Um dos setores económico que se destaca é o setor bancário, onde os bancos marroquinos exercem uma influência considerável no continente africano, impulsionado por uma estratégia de expansão regional e investimentos em vários países do continente.


Bancos marroquinos, como o Attijariwafa Bank, o Banque Centrale Populaire (BCP) e o BMCE

Bank of Africa, têm expandido as suas operações para diversos países africanos. Essa expansão é parte de uma estratégia para diversificar riscos, aproveitar oportunidades de crescimento econômico em mercados emergentes e fortalecer a presença regional. 

Entre 2007 e 2014, por exemplo, Attijariwafa Bank passou de 723 agências para 1647, ou seja +168% de aumento, mas sobretudo +404% fora de Marrocos, principalmente no Oeste Africano.


Os bancos marroquinos estão presentes em uma ampla gama de países africanos, incluindo países da África Ocidental (como Senegal, Costa do Marfim, Mali e Burquina Faso), da África Central (como Camarões e República Democrática do Congo), e da África Oriental (como Quênia e Tanzânia). Esta presença geográfica diversificada ajuda a fortalecer a influência do setor bancário marroquino pelo continente. 

Recentemente com a saída progressiva de bancos ocidentais do continente. Os bancos marroquinos reforçaram sua presença ao comprar os ativos dos bancos que saiam. 


A presença de bancos marroquinos no continente não se limita apenas à oferta de serviços bancários tradicionais, mas também inclui investimentos em infraestrutura, financiamento de projetos de desenvolvimento e suporte ao crescimento econômico local. Isso contribui para a criação de empregos, o desenvolvimento de competências locais e o impulso à economia nos países onde operam. 


Além das operações tradicionais, os bancos marroquinos investem em inovação e tecnologia financeira (fintech), proporcionando soluções digitais avançadas que melhoram a inclusão financeira e facilitam o acesso a serviços bancários para populações anteriormente não 

Bancarizadas em várias partes do continente. 

Mais os bancos marroquinos têm desempenhado um papel importante na integração financeira regional, facilitando o comércio intra-africano, promovendo o financiamento de projetos regionais e apoiando iniciativas de integração econômica, como a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA). 


Em resumo, desde os Acordos de Abraão, Marrocos tem procurado aumentar sua influência política na África, fortalecendo suas relações diplomáticas, promovendo a cooperação econômica e de segurança, desempenhando um papel de liderança em organizações regionais e fazendo uso efetivo de sua diplomacia pública e poder brando. Esses esforços têm como objetivo consolidar sua posição como um ator importante no continente africano. 

A influência do setor bancário marroquino na África é substancial, contribuindo para o desenvolvimento econômico, a integração regional e a promoção da estabilidade financeira em um contexto africano em rápido crescimento e transformação.


Com essa dinâmica multipla Marrocos pretende ocupar um espaço novo, que não lhe era possível alcancar no passado. Ele se tornou de fato uma interface entre a Europa e a África.



Marco Alves, Mestre em Ciências Politicas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre (ex Paris X), em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes (ex Grenoble II Pierre Mendes France) e em Relações e Negocios Internacionais pelo ILERI (Instituto de Relações Internacionais de Paris).

Atuou em 28 paises, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco.

Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada economica em zonas pos conflito.

Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com internvenção no Burqina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.

Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial. 

Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.

Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense

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